Índice de Capítulo

    A fumaça ainda subia em finas colunas cinzentas das piras funerárias além dos muros improvisados de Nova Arcádia. No alto de uma elevação de terra batida, Plutarco e Lycomedes observavam a movimentação no campo. Homens e mulheres trabalhavam na organização dos destroços e no reforço das barricadas estilhaçadas pela batalha de três dias atrás.

    O vento carregava o cheiro de madeira queimada e suor.

    Lycomedes mantinha as mãos cruzadas nas costas. A postura ereta do líder contrastava com o peso evidente em seu olhar.

    — Lembra-se de nossa conversa anterior à batalha, Plutarco?

    O escriba ajeitou a tira de couro de sua bolsa no ombro. Não tirou os olhos do grupo que arrastava a carcaça de uma criatura menor para o fogo.

    — Eu me recordo das suas palavras com exatidão.

    — Você considerou a minha proposta sobre o rapaz? — Lycomedes perguntou de maneira assertiva.

    — Como prometi que consideraria.

    — E então?

    Plutarco virou o rosto para encarar o líder. O semblante do cronista permanecia sereno.

    — Essa decisão foge ao meu domínio. Minhas mãos suportam apenas o peso de um estilete e a textura da cera. Não posso determinar o futuro de uma lenda. Teseu forja o próprio caminho com a espada e seus feitos.

    Lycomedes suspirou pesadamente, mas mostrou um curto sorriso derrotado. Plutarco continuou:

    — A Arcádia precisa de um campeão, Lycomedes, mas os deuses sabem que um herói verdadeiro não pertence a um único lugar. O mundo clama por ele.

    Lycomedes absorveu as palavras. Voltou o olhar para as muralhas em reconstrução.

    — Uma resposta sábia. Entendo o que diz, apesar de me sentir um tanto desapontado.

    Plutarco olhou na mesma direção que o líder.

    — Espero que você mantenha sua aliança com o jovem herói, independente de qual direção os passos dele o levarem.

    Lycomedes exibiu um meio sorriso contido.

    — Você não precisa alimentar dúvidas sobre a minha lealdade ao rapaz. A Arcádia sempre estará de portões abertos para ele.

    Seus olhos viajaram por um instante pelo campo de batalha, até pousarem sobre os portões estraçalhados pelos inimigos de noites atrás. Bufou.

    — Por enquanto está para todos…

    Plutarco sorriu genuinamente com o humor do administrador e o clima pesado entre os dois se apaziguou.

    Um som suave de asas cortou o vento. Os olhos buscaram os céus. 

    Uma coruja de penas pardas desceu do céu acinzentado e pousou no ombro direito de Lycomedes. Apesar de surpreso, não se assustou. Estendeu a mão e retirou um pequeno pergaminho enrolado e amarrado à perna do animal. A ave alçou voo logo em seguida e sumiu em direção às montanhas a sul.

    Lycomedes quebrou o selo de cera e desenrolou o papel. Seus olhos correram pelas palavras curtas.

    — Algo bom? — Plutarco perguntou.

    Os olhos do líder se arregalaram. O papel tremeu levemente em suas mãos rústicas.


    A necrópole improvisada de Nova Arcádia consistia em uma clareira silenciosa ladeada por monumentos clássicos em ruínas, herança de uma era passada. A procissão matinal transcorria com a melancolia pesada das perdas recentes. 

    Cânticos fúnebres ecoavam entre as colunas de mármore partido.

    Licaão assistia ao sepultamento à distância. Sentado sobre um bloco de pedra caída, o homem mantinha o silêncio absoluto.

    Sua visão capturou os detalhes do luto alheio. Silvo, o guerreiro que dera fim à noite nos portões, chorava sem pudor. Os olhos verdes do rapaz derramavam lágrimas sobre a terra fresca. Em outro ponto, uma criança puxava a barra da túnica da mãe e pedia o retorno do irmão, Letônio. A mulher cedeu ao peso do desespero, caiu de joelhos sobre a terra e encontrou o conforto nos braços do próprio Silvo.

    A cena esmagou o estômago de Licaão. Ele levantou-se do bloco de pedra. A intenção de abandonar o local moveu seus passos, mas uma presença bloqueou seu caminho.

    Theo surgiu entre as árvores. A postura do comandante era rígida, mas não havia hostilidade em seu rosto. Nas costas, carregava algo enrolado a um pano velho.

    — Se recuperou bem. — disse.

    Seus olhos foram instintivamente ao abdômen de Licaão. A ferida que o havia condenado à morte, mas não sido capaz de cumprir a sentença.

    — Tão bem quanto o possível.

    — Não vai participar do funeral? — Theo perguntou.

    Licaão desviou o olhar para o chão e cruzou os braços.

    — Eu não mereço um lugar entre aqueles homens.

    — Qual o motivo dessa conclusão?

    — Eu sou a raiz dessas mortes. As aberrações marcharam até aqui por minha causa. O sangue derramado mancha as minhas mãos. Eu deveria ocupar uma dessas covas, e não aqueles homens.

    Theo deu um passo à frente. A voz do guerreiro manteve o tom firme.

    — Se a sua força não tivesse se alinhado aos nossos escudos, a carnificina teria apagado Nova Arcádia do mapa. Estaríamos todos mortos.

    Licaão soltou um riso curto e sem humor pelo nariz.

    — O comandante subestima o próprio valor de combate e a resiliência do seu povo.

    Theo ignorou o sarcasmo.

    — Eu agradeço pela sua presença. As batalhas futuras exigirão homens com a sua fúria. A cidade precisa de soldados capazes, ou mesmo, de líderes dispostos.

    — Arcádia já desfruta de líderes muito capazes. Três deles, inclusive. Os melhores comandantes que seu povo poderia querer.

    Theo manteve o olhar fixo no homem à sua frente e o corrigiu de imediato.

    — Eu me recordo das suas próprias palavras nos portões. Você gritou que estas pessoas eram também o seu povo.

    O silêncio reinou entre os dois homens. O vento carregou o lamento final da procissão.

    — Se você recusa o fardo da liderança, assuma o posto de soldado. Seu povo clama por homens fortes nas linhas de defesa.

    Licaão descruzou os braços e olhou para as próprias mãos calejadas.

    — Não tenho a diligência de um soldado, ou as virtudes de um líder. A minha natureza sempre foi a de um caçador. — Pausa. — Sinto muito.

    Theo desamarrou o pano rústico que carregava preso às costas. O tecido desenrolou-se e revelou o conteúdo metálico. O comandante estendeu a arma na direção de Licaão.

    A espada de Hefesto, Hefos. O aço divino absorvia a luz do sol em um negro profundo. O cabo desgastado carregava a história de guerras esquecidas.

    — Então cace por nós.

    Licaão encarou a lâmina divina. O choque da oferta o imobilizou por um longo instante. O silêncio retornou e pairou sobre os dois guerreiros.

    O som agudo de uma trombeta cortou o ar da manhã e reverberou pelas colinas.

    Theo franziu o cenho e virou o rosto em direção ao centro da cidade.

    — O toque convoca uma reunião extraordinária do conselho. Tenho que ir.

    O comandante voltou o olhar para Licaão. A espada permaneceu estendida.

    — Você caminha conosco?

    Licaão estendeu a mão direita e fechou os dedos ao redor do punho de Hefos.

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