Capítulo 714 - Sobrevivendo (2)
“R-Raul?!” exclamou baixinho, quando o aperto em seu pescoço afrouxou-se, libertando-o. Só então pôde ver o rosto do sujeito moreno, que o olhava com um sorriso de deboche. “Merda, nunca achei que ficaria tão feliz de ver sua fuça nojenta…”
“Ei, eu acabei de te salvar, seu gordo desgraçado”, Raul murmurou, indignado.
“Isso não torna sua cara menos nojenta.” Os dois homens se entreolharam, sorrindo diante dos insultos um ao outro. Mas logo Aldebaran olhou em volta, com a rua principal ocupada por Criaturas das Trevas, eles precisam procurar uma nova rota de fuga. “E então, tem algo em mente para nos tirar desse lugar de merda? Talvez, se voltarmos e pegarmos um desvio…”
“Não, eu vim de lá, aquele lugar já era.” Raul negou com a cabeça, sua expressão ficando séria. Ele havia matado o seu caminho até ali, mas a quantidade de inimigos continuava a aumentar. Mesmo ele seria feito em pedaços se tentasse enfrentar muitos de uma vez. A situação parecia péssima, mas logo ele encarou o sujeito gordo, parecendo pensativo. “Eu tenho uma ideia melhor, mas você vai ter que se esforçar, gorducho, ou nós dois morremos. No lugar de ir por baixo, nós iremos por ali”, disse, apontando o dedo para o alto.
“Hã? Do que você está faland-” Antes que o sujeito pudesse concluir, Raul ouviu barulhos de passos. O som deles falando havia atraído mais Criaturas das Trevas, então, antes que Aldebaran pudesse terminar de falar, ele moveu-se rapidamente, o agarrando por trás. “E-ei, que porra é essa? Eu já te falei que eu não curto…”
Sha!
Raul disparou para o alto, segurando o sujeito gordo pelas axilas. Assim que levantaram voo, o lugar em que estavam foi inundado de Carniçais e Chakais.
“P-porra! Desde quando você pode voar?!” Aldebaran exclamou, completamente chocado.
Como alguém que lutou ao lado de Raul por anos durante seu tempo nos Sarnentos, ele o conhecia muito bem e sabia do seu péssimo talento para a Magia, que chegava a ser pior do que o seu próprio. Sendo assim, como alguém completamente inapto para o Sistema de Magia, podia voar? Não fazia o menor sentido!
“Cala a boca e escuta. Eu vou nos levar pelo alto, mas não tenho como me defender, então você vai cuidar dessa parte. Se algo me atingir, nós dois vamos cair e virar lanche.”
“Defender do quê?” Aldebaran não precisou de muito tempo para entender. Correndo pelo topo dos prédios e por algumas paredes, pequenos cães negros começaram a persegui-los assim que os viram. Não só isso, pequenos seres macabros, com o corpo semelhante a morcegos do tamanho de gatos e rostos desfigurados cheios de olhos e dentes, levantaram voo. “Porra, Perseguidores Sombrios e Nekras! No ar, somos alvos fáceis!” exclamou, assustado.
“É por isso que eu disse que você vai ter que se esforçar, gordão!” Raul falou, tentando levantar voo o mais rápido possível, mas estava com dificuldade.
Mesmo que, graças às Veias de Mana, seu talento no Sistema de Magia tenha melhorado significativamente, permitindo-lhe aprender Magia de Levitação, ele ainda não era tão proficiente. Além disso, carregar outra pessoa, ainda mais acima do peso, tornava tudo ainda mais difícil!
Swish! Swish!
Vários espinhos foram lançados na direção deles a partir dos prédios próximos.
Vendo isso, a expressão de Raul afundou, não havia como desviar a tempo.
“Aldebaran!”
“Eu sei, porra, eu sei!” Sem escolhas, o sujeito moveu o pulso, retirando várias facas, segurando-as firmemente entre os dedos. Ele mal havia escapado da morte e já estava prestes a morrer novamente. “Foda-se, eu vou sobreviver! Pela minha futura esposa que eu não conheci!”
…
De volta à casa de leilões, a situação na rua central havia se tornado uma completa bagunça sangrenta. Corpos de Criaturas das Trevas, civis e Guardas estavam espalhados por todos os lados.
Boom! Swish!
Na retaguarda, a expressão dos Magos era escura. A maioria deles já havia começado a beber Poções de Mana uma após a outra, com muitos deles começando a hesitar sobre fazê-lo, pois sabiam que se precisassem lutar depois, seu mana estaria completamente impuro, o que dificultaria o uso de Magia.
A única coisa que ainda lhes dava alguma coragem para continuarem em suas posições era um pequeno regimento de Guardas, que se mantinha firme, contendo o avanço das Criaturas das Trevas.
No centro dele, Fernando estava completamente encharcado de suor. Ao seu redor, havia restado apenas quinze homens.
À esquerda, Lerona também liderava um punhado de sobreviventes e, à direita, Oliver massacrava sozinho inúmeros Carniçais e Chakais que se aproximavam, mas não havia restado muitos Guardas vivos ao seu redor. Dentre os três, o grupo de Fernando ainda era o maior.
“Escudos!” O jovem pálido gritou mais uma vez, com sua voz quase rouca.
Bam! Bam! Bam!
Um punhado de Criaturas das Trevas bateu contra eles, mas a maioria deles eram Carniçais, Chakais e Murmuradores. Os Devoradores pareciam muito mais perspicazes, atacando apenas quando viam brechas e oportunidades.
Oliver notou, obviamente, o rapaz liderando alguns homens e ficou surpreso com isso. Mesmo que ele próprio fosse mais forte e capaz de liderar grandes exércitos, ele havia se saído pior em manter os homens do seu lado vivos!
Apesar de ser muito mais poderoso e experiente que Fernando e ser ótimo em combate corpo a corpo, no fim, ele ainda era um Mago e lutava como tal. Devido à sua Magia de Teleporte, era difícil para ele liderar esse pequeno grupo de pessoas, sendo muito melhor em combates de um contra um, em emboscadas ou comandando um número massivo de tropas.
Mesmo sabendo disso, ao ver como o rapaz havia mantido tantos vivos, enquanto do seu lado só restavam dez homens, sentiu-se levemente envergonhado.
Lerona também tinha uma expressão complicada, apesar de sua Magia de Luz ajudar seus aliados e desnortear os inimigos, também atraía muito mais Criaturas das Trevas em sua direção, fazendo com que a pressão do seu lado fosse a maior. Graças a isso, a maioria dos que estavam com ela haviam morrido ou fugido, com os sobreviventes completamente encharcados de suor.
Swish! Perfura!
Varrendo sua lança mais uma vez, Lerona afundou a ponta dela na boca de um Devorador que se aventurou perto demais dela. Seus enormes membros tentaram agarrá-la, mas assim que empurrou com mais força, a coisa finalmente parou de se mover.
Inspira! Respira!
Usando a Habilidade Respiração Contínua, ela havia, de alguma forma, conseguido manter seu vigor. No entanto, mesmo assim, ela estava começando a ficar cansada.
São quase dez minutos… A mulher ruiva pensou, preocupada, ao não ouvir qualquer ordem de retirada ou sinal das pessoas da casa de leilões. Não só isso, ela também não havia visto nenhum sinal de Raul. Apesar de não dizer nada, sabia que, se o sujeito não chegasse logo, teriam que deixá-lo para trás. Mesmo que não fossem grandes camaradas e até o detestasse até certo ponto, sentiu-se estranha ao perceber que não se sentia bem em abandoná-lo.
“Senhor, mais sobreviventes!” Um dos Guardas, ao lado de Fernando, declarou, ao ver quatro homens e uma mulher correndo por suas vidas, atravessando o mar de corpos.
Mesmo que não pudesse proteger todos os civis, o jovem Tenente tinha feito seu melhor para garantir uma passagem segura para todos que pudessem alcançá-los. Isso, obviamente, fez alguns dos Guardas se sentirem incomodados, já que todas as vezes eles precisavam correr riscos, mas como estavam vivos até ali graças a ele, não ousaram contrariá-lo.
“Avançar, preparem-se para cobri-los!” ordenou, em voz alta.
Apesar de descontentes, os Guardas obedeceram, quando começaram a empurrar com seus escudos, ao mesmo tempo que batiam contra o metal com suas espadas, chamando todas as Criaturas das Trevas até eles.
No alto do céu, Lehard observou tudo isso com interesse.
“Lá vão eles de novo”, falou, com um rosto calmo. Ele havia visto o rapaz pálido fazer isso pelo menos uma dúzia de vezes. Sempre resgatando os civis.
Porém, uma horda de Carniçais e outras criaturas surgiu no fim da rua e claramente os alcançaria antes que eles pudessem ajudar.
Merda, não vai dar tempo! Fernando exclamou mentalmente.
Porém, de repente, uma figura alta, esguia e de roupões negros desceu do céu, pousando próximo ao grupo. Era Lehard, a Coruja!
Desde o início, o sujeito apenas atacava ocasionalmente, quando muitas Criaturas das Trevas estavam prestes a passar pela linha de defesa. Mesmo quando os civis morriam ou os Guardas eram massacrados, ele parecia não se importar.
Muitos dos Magos, dos Guardas e mesmo o próprio Fernando estavam descontentes com a falta de ação do sujeito, mas agora ele havia ido até o solo por conta própria!
Ele vai salvá-los? pensou, surpreso, não achando que essa pessoa realmente ajudaria alguém. No entanto, ao vê-lo erguer sua palma, apontando na direção das pessoas e das Criaturas das Trevas que se aproximavam, sua expressão mudou completamente. Ele não vai ajudar, ele vai…
Zooom!
Uma gigantesca lâmina invisível de ar disparou da palma do sujeito, numa linha reta.
Swish! Swish!
Os cinco civis sequer puderam entender o que havia acontecido, num momento estavam correndo por suas vidas e no outro estavam no chão.
Os quatro homens e a mulher foram partidos ao meio, assim como as Criaturas das Trevas que os perseguiam.

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