Capítulo 180 | Sem Rédeas em Mileto
A brisa fria do amanhecer açoitava o tecido vermelho e dourado do tapete. Abaixo deles, a costa rochosa cedeu espaço a um vale fértil. A cidade de Mileto despontou no horizonte banhada pela luz pálida do sol nascente.
As muralhas de pedra clara erguiam-se intactas e o mar Egeu banhava um porto seguro e organizado, repleto de mastros alinhados e velas recolhidas.
Magno inclinou o corpo para a borda da tapeçaria e seus olhos varreram as torres de vigia.
— As ameias estão vazias. — passou a mão nos maxilares e penteou a meia-barba. — Nenhuma patrulha de guarda nos portões. Deixam as portas abertas como um convite para o desjejum de ladrões.
Sêneca esticou o pescoço, ainda desconfiado e inseguro sobre o meio de transporte, e avaliou a arquitetura urbana.
— Quantas estoas… — Maravilhou-se. Seus olhos vaguearam pelos quadrantes da Pólis e, onde quer que olhasse, encontrava um teto de mármore para os pensamentos. — São mais numerosas que os quarteis… Nem mesmo Atenas é assim!
Anaxímenes estufou o peito, flexionou os tornozelos e guiou o tapete mágico para uma descida suave. O vento soprou os cabelos de todos e forçou um sorriso com bochechas cheias de ar no rosto de Anaxímenes à frente
— Maravilhem-se. Pisarão hoje no berço da razão. — O jovem abriu os braços para o vento. — Aqui, nós combatemos os monstros criados pela mente dos tolos.
Magno, logo atrás, soltou ar pelo nariz em um sorriso jocoso. Balançou a cabeça.
— Quão valentes se fazem os pensadores sedentários.
Anaxímenes sumiu com o sorriso à frente e rangeu os dentes, ultrajado.
— Tranquilize-se, mãos-leves, este é o lugar onde os íncios entregam a tarefa de pensar aos sábios. — Sorriu por cima do ombro para o ladrão. — Você ficará bem.
Magno franziu o cenho.
— Ele me chamou de quê? — Inclinou-se na direção de Hermes e perguntou em voz baixa.
— De burro. — O rapaz de cabelos brancos não hesitou.
Quando o ladrão apertou os punhos e fez gesto de se projetar para a frente, Hermes o segurou e apaziguou o desparate enquanto Anaxímenes sorria.
Analisou a ágora principal enquanto seus cabelos brancos voavam com o vento. O calçamento de pedra fervilhava com um formigueiro humano. Tendas de tecido cru e barracas de madeira espalhavam-se pela praça. Comerciantes já organizavam suas mercadorias sob as primeiras luzes do dia.
— Pouse nos arredores. — Hermes ordenou com um toque no ombro do condutor. — Longe das vistas da feira.
Anaxímenes olhou para baixo e um sorriso presunçoso curvou seus lábios.
— Entrar pelas vielas sujas? Eu sou um filho de Mileto. Trago hóspedes de renome. Minha pólis precisa saudar meu retorno.
Puxou o tecido frontal do tapete para cima com um solavanco. A inclinação mudou por completo e a tapeçaria mergulhou em direção à praça do mercado.
Vento zumbia nos ouvidos de Hermes. Cerrou os dentes e cravou as botas na malha mágica para não cair. Magno soltou uma risada nasalada e agarrou-se à própria bagagem.
O mar de tendas coloridas e cabeças humanas cresceu em velocidade vertiginosa diante dos olhos do grupo.
Acima da praça, o tapete rasgou o ar. Anaxímenes transferiu o peso para os calcanhares e a malha mágica nivelou a três palmos das cabeças dos mercadores.
Como o golpe de um aríete, o vento atingiu a feira. Estruturas de madeira cederam com estalos secos, toldos de tecido cru rasgaram sob a pressão e chicotearam o espaço, pêssegos, azeitonas e figos voaram das bancadas, transformados em projéteis que mancharam o calçamento de pedra e as túnicas dos cidadãos.

Um teto de palha trançada soltou-se de uma barraca de grãos e rodopiou no alto. O palhiço choveu sobre os transeuntes atordoados.
Homens e mulheres atiraram-se ao chão. Mercadores abraçaram os cestos intactos em tentativas inúteis de resguardo.
Ao mesmo tempo, Magno jogou a cabeça para trás e uma gargalhada rouca irrompeu de sua garganta e cobriu os xingamentos da multidão. Ele bateu a mão na própria coxa.
— Contemplem o herói em seu retorno! — Apontou para um oleiro que lutava para salvar uma ânfora rolante sob uma lona caída. — Um belo desfile militar, mestre dos ventos!
Hermes cravou os dedos nas bordas do tapete, seu maxilar travou e os nós de suas mãos perderam a cor enquanto o vento espalhava seus cabelos brancos sobre a testa. Fixou o olhar no rapaz à frente.
— Você quer que toda Mileto saiba que chegamos? — Roncou, quase num rosnado.
A curva nos lábios de Anaxímenes vacilou por um segundo. Ele ergueu o queixo e estufou o peito para mascarar o erro.
— Eles esquecerão os toldos quando virem quem eu trago. É uma questão de imponência.
Sêneca espanou a poeira das dobras da própria túnica. Percorreu a trilha de destruição com os olhos semicerrados e a mente focada na aritmética do estrago.
— Duas dúzias de barracas avariadas. — O estudioso enumerou as falhas com precisão seca. — Pilares de sustentação partidos em pelo menos oito delas, quatro ânforas de azeite estilhaçadas. Uma estimativa rasteira aponta para um prejuízo de cento e cinquenta dracmas. Talvez mais, ao incluir a fruta desperdiçada.
As mãos se uniram sobre o nariz no rosto inquieto.
— Uma entrada de alto custo para um grupo com os bolsos vazios.
As narinas de Anaxímenes inflaram, a ofensa corou suas bochechas.
— Meu conhecimento e a proteção que forneço a esta pólis valem mais do que um punhado de pêssegos esmagados e jarros velhos.
Ele impôs sua vontade à malha mágica e forçou um pouso brusco em um trecho menos congestionado da ágora. A poeira ergueu-se em um círculo denso ao redor do grupo. O zumbido de murmúrios e os primeiros xingamentos diretos ganharam força na praça.
O tecido mágico raspou contra os paralelepípedos da ágora em um solavanco brusco, a poeira assentou. Desceram do tapete sob uma muralha de olhares hostis.
Um homem atarracado com os braços sujos de argila seca abriu caminho a empurrões pela multidão. Ele atirou o gargalo de uma ânfora despedaçada aos pés de Anaxímenes e a cerâmica estalou contra a pedra.
— Que vento forte esse de hoje, não? — Anaxímenes coçava a parte de trás da cabeça com um sorriso desajeitado.
— Você! — O oleiro cuspiu as palavras junto com uma gota de saliva. — Toda vez a mesma desgraça! O vento não derruba minhas tendas, seu moleque insolente. Você derruba!

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