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    A sala do conselho ocupava a maior estrutura intacta da antiga praça de Nova Arcádia. As paredes de pedra abrigavam uma mesa circular rústica. O ambiente fervia em tensão.

    Lycomedes depositou o pergaminho aberto sobre a madeira.

    — A mensagem nos convoca para uma reunião diplomática nos salões de Atenas. O conselho dos sábios solicita a presença de representantes de Nova Arcádia.

    — Atenas? — Theo arregalou os olhos.

    — Eles não estavam chamando o grupo que se reunia nesta reunião de ladrões e fugitivos há meses atrás? — Plutarco coçou o nariz.

    — Exatamente. — O comandante levou a mão ao queixo com os olhos apertados.

    — Talvez queiram fazer uma aliança… — Teseu murmurou.

    Licaão deu um riso ruidoso no canto do recinto e balançou a cabeça.

    — Ou talvez queiram nos entregar todas as suas riquezas.

    — Mas isso não faz sentido algum. — Teseu franziu o cenho para o colega.

    — Exatamente, moleque.

    Calixto bateu a mão espalmada sobre a mesa e interrompeu o barulho.

    — Não ajam como crianças. Temos uma decisão a tomar.

    Licaão permaneceu encostado em uma das colunas do salão, com os braços cruzados e a Hefos embainhada presa à cintura.

    — Atenas nunca estende a mão sem esconder uma adaga entre os dedos. Participar dessa reunião sela o destino de quem cruzar os portões daquela cidade. Estou certo de que planejam capturar a liderança deste assentamento.

    Theo observou o mapa estendido sob a carta.

    — As tropas de Atenas possuem números muito superiores aos nossos. A recusa do convite fornece o pretexto perfeito para uma invasão punitiva.

    Lycomedes ergueu as mãos e exigiu silêncio. A postura demandava autoridade.

    — Nós carecemos de poder bruto para garantir a nossa sobrevivência contra um ataque coordenado. Outro massacre ocorrerá nas nossas fronteiras se não firmarmos alianças urgentes. A diplomacia garante tempo. Eu assumo a responsabilidade por esta missão. Serei o representante de Nova Arcádia nessa reunião.

    Calixto tentou protestar, mas Lycomedes silenciou a arqueira com um suspiro profundo.

    — Acha que eu faria algo assim se não julgasse fundamental para nossa sobrevivência?

    Ela o encarou em silêncio.

    — A decisão sela o caminho da diplomacia.

    Licaão descruzou os braços e projetou o corpo para frente.

    — Eu não me importo com a política suicida de vocês. Minhas botas não tocarão a sujeira daquela cidade corrompida.

    Lycomedes virou-se para o caçador. A serenidade amenizou o tom firme e pegou de surpresa o bravo Licaão.

    — Nós prestamos os nossos agradecimentos pela sua presença e ferocidade nas batalhas de noites atrás, Licaão. O sangue derramado por você não sofrerá apagamento na nossa história.

    Licaão não respondeu. A expressão do homem fechou-se em uma máscara impenetrável. Lycomedes prosseguiu:

    — Contudo, a cidade exige força política, pois não possui ainda força militar suficiente para tornar alianças desnecessárias.

    Teseu, que observava o debate encostado na parede oposta, desencostou e avançou até a borda da mesa.

    — Quer seja uma aliança ou uma armadilha, não permitirei que mal algum aconteça a um amigo meu. Acompanharei Lycomedes na viagem.

    Lycomedes arregalou os olhos. A recusa saltou de seus lábios de imediato.

    — Não me leve a mal garoto, mas não faz sentido que me acompanhe em nenhuma das duas hipóteses. — Vendo a expressão confusa do rapaz, ele continuou. — Não pareceria bem levar um soldado na condição de emissário; e caso fosse uma armadilha, um único soldado seria inútil contra todo o exército de Atenas.

    Teseu apoiou as duas mãos sobre a mesa e sustentou o olhar do líder.

    — Eu conheço os riscos. Sei que não sou tão forte quanto um exército ainda…

    “Ainda?” O pensamento surgiu na cabeça de todos ao mesmo tempo, acompanhado de sobrancelhas comicamente erguidas.

    — … mas a sua vida garante o futuro deste povo nas negociações. Não sou um soldado, apenas um… guarda-costas. Sim.

    Plutarco pigarreou e ajeitou a túnica. Deu um passo à frente.

    — A história exige testemunhas oculares. O conselho de Atenas oferece um cenário político fascinante para os meus registros. Eu acompanharei o grupo como seu escriba particular.

    Lycomedes coçou a nuca e suspirou. Theo e Calixto se entreolharam, um pouco incertos, mas quietos.

    Licaão estalou a língua no céu da boca. O som denotou o desprezo absoluto pela decisão coletiva. Ele deu as costas para a mesa e cruzou a porta de saída do conselho.

    — Façam como quiserem. Não digam que faltaram avisos.

    A rota para Atenas encontrava-se traçada.


    A noite envolveu os jardins da ala médica em um manto frio. Os grilos iniciavam a sinfonia noturna nas folhagens. Teseu caminhou sobre a grama úmida em passos silenciosos. Ele localizou a silhueta feminina sentada em um banco de pedra próximo aos canteiros de ervas.

    O guerreiro aproximou-se e ocupou o espaço vazio no banco ao lado de Sophia.

    Ela manteve o olhar fixo em um aglomerado de flores noturnas.

    — É verdade?

    Ele dirigiu o olhar para ela, confuso.

    — O quê?

    Ela bufou e olhou para ele em silêncio de maneira desaprovadora

    Teseu apoiou os antebraços nos joelhos e juntou as mãos.

    — Sim. Eu assumo a escolta de Lycomedes para Atenas no alvorecer de amanhã.

    — E depois?

    Ele olhou para o céu. Estrelado, lindo. Como um mar de luzes.

    — Não sei bem… Onde quer que o vento me leve. Onde precisarem de mim.

    Sophia recolheu-se em um silêncio pesado. O ar entre os dois tornou-se denso. Teseu engoliu a saliva e sentiu um aperto doloroso no peito. A quietude da moça o machucava. A chama de um sentimento indescritível ardeu em sua garganta e buscou vazão pelas palavras. Ele apertou os lábios.

    O jovem herói virou o corpo na direção dela e abriu a boca para falar.

    — Olha…

    Sophia interrompeu a frase. Suas mãos avançaram com rapidez e agarraram a nuca do guerreiro. Ela o puxou contra o próprio corpo e uniu seus lábios aos dele em um beijo urgente e carregado de sentimentos.

    Teseu arregalou os olhos. O choque enrijeceu a musculatura de seu pescoço por uma fração de segundo. Mas logo o calor do contato dissolveu a rigidez do rapaz e seus braços envolveram a cintura da moça. O abraço os desequilibrou.

    Ambos caíram sobre o gramado sob a luz pálida da lua. O beijo aprofundou-se e silenciou qualquer palavra pendente.

    O êxtase da emoção humana pulsou no sangue de Teseu. O poder latente do herói respondeu ao ápice do desejo. Ao redor dos dois corpos entrelaçados, a terra vibrou de forma sutil. Os canteiros adormecidos despertaram. Caules brotaram do solo. Pétalas desabrocharam em um turbilhão de cores noturnas e folhas largas ergueram-se na escuridão.

    A natureza esculpiu uma moldura verde e viva que abraçou o casal no centro do jardim.


    A escuridão do salão subterrâneo consumia qualquer feixe de luz rebelde. O som de passos metálicos ecoou pelo piso de rocha polida.

    Castor e Pólux avançaram pela câmara sombria. Os Dioscuros pararam diante da figura sentada no trono de pedra.

    — Mestre. — Castor clamou numa voz trêmula e idosa. Curvaram-se, ele e o irmão.

    Pólux, o gêmeo de aparência jovem e sangue divino, tomou a palavra. 

    O tom relatou os eventos com a frieza de um soldado.

    — A incursão de Nesso e Mnemósine fracassou. Ambos sucumbiram em combate. Os dois tolos encontraram a morte antes de cumprirem a incumbência principal. 

    O Usurpador ergueu o rosto das sombras. O sorriso que curvou seus lábios transbordou arrogância e controle absoluto.

    — A visão estreita dos mortais limita a percepção da vitória. Eles cumpriram o papel exato designado nas minhas estratégias. O plano seguiu o curso perfeito.

    Castor franziu o cenho, confuso com a resposta do mestre.

    — Mas mestre, a espada de Hefesto escapou de nossas mãos. Hefos possui a capacidade de alterar o curso da guerra. Neste ritmo nós…

    Uma figura até então presa às sombras ao lado do trono se desgrudou da parede com um passo dianteiro. Parou ao lado do líder, ainda parcialmente coberta pelas trevas. Nas laterais de seu tronco, duas asas se abriram parcialmente e revelaram uma silhueta aterrorizante.

    Castor calou-se e engoliu em seco.

    — Ousas questionar o nosso Mestre?

    O velho desviou o olhar, seu irmão fez o mesmo e sentiu uma gota de suor frio escorrer pelo pescoço.

    Foi quando aquele que jazia sentado no trono ergueu um dos braços à frente do homem que se pronunciara ao seu lado. Após um instante de silêncio, este recuou às sombras outra vez.

    — A espada abandonou o repouso covarde e retornou ao tabuleiro. — a correção do Usurpador vibrou no salão escuro. — A lâmina caminha para nós através dos tolos que acreditam controlá-la. A questão tange apenas o tempo até que a arma cumpra o seu derradeiro propósito.

    O governante das sombras levantou-se do trono. Seus passos contornaram a estrutura e pararam de frente para a lateral direita do assento, onde as sombras pareciam ainda mais severas. De onde o estranho havia surgido há pouco.

    Mais adentro das trevas, correntes de ferro negro balançaram com o movimento. O som metálico revelou a figura prisioneira presa à parede de rocha viva. Sob seus pés, o nada absoluto se estendia ao infinito.

    O Usurpador parou diante da mulher coberta por ferimentos e marcas de tortura. Seus olhos brilharam com a malícia dos vitoriosos.

    — Não é, Eurídice?

    A ninfa suspirou. As lágrimas secas manchavam o rosto ferido da Dríade. Ela fechou os olhos e as correntes tilintaram no silêncio do abismo.

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