Capítulo 174 - Custo Mínimo.
A pequena sala era aquecida apenas pela lareira encostada à parede do fundo. O fogo queimava baixo, alimentado com pedaços de madeira úmida que estalavam de tempos em tempos, espalhando um cheiro constante de fumaça misturado ao de gordura e ervas secando penduradas nas vigas do teto. Não havia luxo algum ali. Apenas móveis feitos à mão ao longo de muitos anos, remendados mais vezes do que construídos, ocupando cada espaço disponível da casa.
Eli permanecia sentado de costas para o calor da lareira, apoiado num banco baixo de madeira. Vestia uma túnica grossa de linho escurecida pelo uso constante e uma calça simples presa por tiras de couro já ressecadas. A barba escura crescia sem qualquer cuidado havia semanas, cobrindo boa parte do maxilar e escondendo parte da expressão cansada do rosto. Os cabelos castanhos, presos de qualquer maneira atrás da nuca, ainda conservavam umidade da chuva.
Entre os dedos calejados, uma pequena faca deslizava lentamente sobre uma haste de freixo.
A cada movimento, lascas finas de madeira caíam sobre o chão.
Sem pressa.
Sem desperdício.
Era o tipo de trabalho que as mãos continuavam fazendo mesmo quando a cabeça estava ocupada com outras coisas.
Do outro lado da mesa, Arlen observava em silêncio enquanto segurava uma xicara com agua. A idade já havia tomado quase tudo dele. Os cabelos completamente brancos caíam até os ombros em mechas finas, e a barba longa, mal penteada, escondia um pescoço magro demais. O rosto carregava rugas profundas, marcadas não apenas pelo tempo, mas por anos de sol, bebida e trabalho pesado. A perna direita permanecia enfaixada, incapaz de dobrar completamente desde o ataque das bestas de dois meses atrás.
O velho girava uma caneca sobre a mesa.
Depois de algum tempo, soltou um longo suspiro.
— Sabe do que eu sinto mais falta?
Eli nem levantou os olhos da flecha.
— Da bebida.
— Também.
A faca continuou raspando a madeira.
— Então é das mulheres.
Arlen bateu a caneca na mesa.
— Serah tá aí dentro, infeliz.
— E isso alguma vez te impediu de falar besteira?
O velho soltou uma risada rouca.
— Tá vendo? É por isso que da vontade de enviar tua cara na lama. Você e essa língua afiada.
Eli apenas deu de ombros.
— Vai arriscar?
Eli ergueu uma sobrancelha.
— Tu tá esquecendo que eu cresci.
— Cresceu?
Arlen mediu o genro da cabeça aos pés.
— Cresceu nada. Só ficou mais feio.
— A barba ajuda.
Arlen apoiou a caneca sobre a mesa.
Quando voltou a falar, a voz havia perdido parte da brincadeira.
— Eu sinto falta mesmo é de sair sem destino.
Esperou alguns segundos antes de continuar.
— Entrar numa taverna… encontrar algum conhecido… beber até esquecer meu próprio nome… acordar dois dias depois sem lembrar onde deixei o cavalo.
Eli finalmente levantou os olhos.
— Tu nunca teve cavalo velho — Ele apontou a ponta da flecha para a perna enfaixada — Não sabia que sua memoria ficava na perna..
— Se eu quiser eu deixo elas na minha barriga seu desgraçado.
Os dois riram discretamente.
O silêncio voltou por alguns instantes.
Eli levou uma pequena tira de carne seca à boca, mastigando devagar enquanto continuava corrigindo a ponta da flecha.
Foi então que desviou o olhar para a janela.
Do lado de fora, Cali fazia força para puxar o balde do poço. O corpo pequeno praticamente se inclinava inteiro para trás enquanto girava a manivela improvisada. Um garoto passou correndo e chutou uma poça de agua que molhou parte do vestido de Cali, ela não parou de puxar o balde.
Os olhos de Eli acompanharam a cena por alguns instantes.
Só depois voltaram para a flecha.
Arlen percebeu.
— Ela lembra um pouco a mãe dela.
Eli sorriu de lado.
— Graças aos deuses, só um pouco.
— A mãe era teimosa.
Eli soltou uma pequena risada pelo nariz.
— Também continua.
O velho ficou encarando o fogo por alguns segundos antes de falar mais baixo.
— Eu só tô dando trabalho pra vocês.
Eli não respondeu imediatamente.
Apenas girou a flecha entre os dedos, procurando pequenas imperfeições na madeira.
— Serah cozinha pra mim. As crianças dividem comida comigo. Você caça todo dia…
Arlen respirou fundo.
— Eu Já devia ter ido faz tempo.
Eli apoiou a faca sobre a mesa.
— Cansou de viver velho? — Eli voltou a olhar pela janela
— Eu só continuo aqui porque vocês insistem.
A faca parou pela primeira vez.
— Continua aqui porque é tua casa.
— Não é mais.
— Continua sendo. Desse jeito só vai magoar a Serah.
Arlen balançou a cabeça.
— Essa é sempre a resposta.
— Então não continua repetindo a mesma coisa.
O velho sorriu sem mostrar os dentes.
— Resposta programada.
— Mas funciona.
Nesse instante, a porta da cozinha rangeu.
Serah entrou carregando uma pequena tigela de barro com algumas frutas silvestres recém-lavadas. Também tinha pouco mais de trinta anos, mas o rosto parecia mais velho sob o peso dos últimos meses. Vestia um vestido simples de lã escura preso por um avental gasto, e os cabelos negros estavam presos num coque improvisado do qual escapavam alguns fios úmidos. As mãos ainda traziam pequenas manchas avermelhadas do preparo das frutas.
Ela colocou a tigela sobre a mesa.
— Você almoçou?
— Tô almoçando.
Ela empurrou a tigela para mais perto.
— Isso aí não conta.
Eli largou a faca.
— Obrigado.
Pegou uma das frutas e comeu enquanto ainda observava a madeira da flecha.
Serah permaneceu parada ao lado da mesa.
Esperou ele terminar de mastigar.
— Você entregou mesmo o arco praquela mulher?
Eli apontou discretamente com o queixo para um dos cantos da sala.
— Ainda tem dois.
Ali repousavam outros dois arcos.
Um deles era simples, quase idêntico ao que ele havia levado naquela manhã. O outro chamava atenção imediatamente. Madeira escura, recurvada com precisão, reforços de osso polido próximos às extremidades e uma corda muito melhor conservada do que qualquer outro equipamento da casa.
Serah acompanhou o gesto.
Suspirou.
— Continua sendo um arco.
— Continua só um arco de treino.
Ela cruzou os braços.
— Isso era pra me tranquilizar?
— Era.
Ela ajeitou a barra do vestido e se sentou ao lado dele.
Arlen levantou os olhos da flecha.
— Tá…
Os dois olharam para ele.
— Mas ela era bonita?
Serah fechou os olhos por um segundo.
— Pai…
Arlen abriu os braços.
— O que? ela tinha que ser pro Eli entregar um dos arcos só porque ela pediu.
Eli olhou para ele. sem esconder a hostilidade.
— Velho desgraçado.
— Pai, Eli Chega vocês dois. — Serah se levantou pegando a certa que já estava quase vazia. — Parece que estou lidando com crianças.
Ela pegou o ultimo punhado de frutas se aproximando da lareira, enquanto encarava o marido.
Arlen se espreguiçou pegando uma das flechas que Eli havia acabado de fazer e a analizando com calma.
— E então? Ela era bonita?
— Não — Serah respondeu enquanto mastigava as frutas. — Ela com certeza já está bem longe com o arco.
— Se ela fugir, ao menos eu descubro duas coisas pelo preço de uma.
Serah arqueou uma sobrancelha.
— Quais?
— Que ela era mentirosa e uma ladra … e um arco velho é um preço leve a se pagar para descobrir isso cedo.
— E se ela voltar?
— Descubro que talvez eu tenha julgado errado.
Arlen sorriu.
— Ainda pensa igual quando usava uniforme.
— Alguém ainda precisa..
Serah soltou um suspiro.
— Às vezes eu esqueço que me casei com um guarda.
— Ex-guarda.
— Pior ainda.
Eli apenas deu de ombros.
— Fazer o que, não temos margem para riscos aqui.
Serah não respondeu.
Ainda não parecia convencida.
Foi nesse momento que um som diferente atravessou a janela.
As três janelas da sala permitiam ver parte do pequeno pátio central, e Eli levantou os olhos quase por instinto.
As portas das outras casas começavam a se abrir.
Velhos saíam devagar, alguns apoiados em bengalas improvisadas, outros apenas encostando as mãos nos batentes enquanto observavam o movimento das crianças.
Uma senhora chamou um menino pelo nome, ele fingiu não ouvir.
Outro velho começou a caminhar na direção do poço.
Cali abaixou a cabeça e acelerou discretamente o passo.
Serah também olhou pela janela.
Seu semblante endureceu.
Arlen acompanhou os dois em silêncio durante alguns segundos antes de falar, quase num murmúrio.
— Acho que… dessa vez minha filha tinha razão.
Eli permaneceu imóvel por um instante.
Respirou fundo.
Levantou-se sem pressa, limpando a faca num pedaço de pano antes de guardá-la na cintura.
Pegou apenas o casaco pendurado ao lado da porta.
— Não demora — disse Serah, embora soubesse que era um pedido impossível. — Você precisa ao menos dormir.
Eli apenas assentiu.
Abriu a porta e caminhou em direção ao pátio, enquanto as vozes dos velhos continuavam aumentando do lado de fora.

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