Capítulo 173 - Sondagem.
A barricada apareceu antes das primeiras casas.
Ela não cercava toda a vila.
Era pequena demais para isso.
A estrutura havia sido erguida usando tudo o que ainda podia servir. Tábuas arrancadas de cercas, portas antigas, partes de telhados, móveis desmontados. Nenhuma madeira tinha o mesmo tamanho. Algumas eram novas. Outras já estavam apodrecendo.
Não havia padrão.
Cada pedaço parecia ter sido colocado em dias diferentes.
Lívia permaneceu alguns instantes observando.
A vila inteira lembrava a ponta de uma flecha apontada para o oeste. As ruas estreitavam conforme avançavam até terminar naquele pequeno conjunto protegido por madeira improvisada.
As casas mais afastadas estavam vazias.
Algumas tinham portas abertas, outras haviam perdido parte do telhado. Janelas quebradas deixavam o vento atravessar os cômodos como se ninguém morasse ali havia anos.
Mesmo assim havia sinais recentes.
Pegadas, marcas de garras nos muros e portas. No centro da rua haviam marcas de rodas na lama cinza, ainda escura diante de algumas portas.
Alguém ainda passava por ali.
Mas vivia apenas no centro.
Atrás da barricada.
Ela desviou o olhar.
Cinco casas permaneciam ocupadas, formando um pequeno círculo irregular em torno de um terreno aberto onde a grama crescia sem cuidado. A chuva havia transformado quase tudo em lama e poças de agua não drenada.
Pegadas cruzavam o chão em varias direções conectando os caminhos. Da casa maior até um poço, do poço até um depósito improvisado e de lá até um pequeno galpão. Rotinas repetidas tantas vezes que o chão já havia decorado os passos, Algumas crianças trabalhavam ali dentro.
Não brincavam.
Uma carregava um balde quase do tamanho do próprio corpo. Duas recolhiam galhos próximos da barricada. Outra empilhava pedras ao lado de um muro baixo.
Nenhuma desperdiçava movimentos.
Até os gestos infantis pareciam ter aprendido a economizar energia.
Magras, braços finos. Roupas costuradas muitas vezes, a fome aparecia antes mesmo dos rostos.
Cali já havia passado pela abertura da barricada. Correu alguns metros sobre a lama, desviando das poças com a naturalidade de quem conhecia cada irregularidade do terreno.
— Eli!
A voz atravessou o pequeno pátio.
As crianças levantaram a cabeça quase ao mesmo tempo. Duas delas trocaram olhares.
— Olha o ratinho voltou.
— Achei que alguma besta tivesse comido dessa vez.
Riram baixo.
Cali fez uma careta e continuou andando como se não tivesse ouvido.
Lívia registrou aquilo.
Não a ofensa, mas a reação.
A ausência dela.
Uma criança que aprende cedo que reagir custa mais do que ignorar não é criança com adultos funcionando ao redor.
A porta da maior casa permaneceu fechada por mais um instante. Depois vieram barulhos abafados, algo colocado depressa sobre uma mesa, passos rápidos, madeira batendo em madeira.
Só então a porta se abriu.
A mulher que surgiu enxugava as mãos no avental enquanto caminhava segurando uma faca de carne. Ela parou ainda na soleira enquanto os olhos passaram primeiro por Cali.
Rapidamente.
Só depois seguiram para Lívia.
Ali permaneceram.
Com clara desconfiança em seu rosto.
Era uma mulher de pouco mais de trinta anos. Os cabelos presos às pressas deixavam alguns fios escaparem sobre o rosto. As mangas estavam dobradas até os cotovelos. As mãos tinham pequenas marcas antigas de cortes e queimaduras de quem fazia muito trabalho manual.
Lívia a leu pela ordem natural, roupas primeiro, depois braços, depois rosto, depois postura. Mesmo cansada, mesmo claramente ferida, Lívia continuava distribuindo o peso do corpo de maneira que permitia reagir imediatamente.
Seguindo a descrição de Cali havia dado aquela devia ser Serah.
A mulher notou o olhar dela.
Lívia percebeu que havia sido notada.
— Eli saiu.
A voz era calma.
— Foi caçar com os irmãos Tosk.
Cali soltou um pequeno suspiro.
— Ah.
Virou para Lívia com a expressão de quem entrega um problema para outra pessoa resolver.
— Essa é a moça que me ajudou.
A mulher voltou a observá-la. Agora com mais atenção.
— Ajudou como?
— Encontramos algumas bestas na floresta — disse Lívia antes que Cali abrisse a boca completamente. — A garota havia se afastado mais do que deveria.
Os olhos da mulher foram para Cali.
A menina desviou o olhar imediatamente.
— Você está ferida.
Lívia olhou para o próprio braço. Sangue havia atravessado parte do tecido. Não havia percebido.
— Já estive pior.
— As bestas fizeram isso?
— Parte sim.
Silêncio.
O vento atravessou o pátio trazendo cheiro de madeira molhada. Uma das crianças derrubou um balde ao longe. Ninguém correu para ajudar. Todos pareciam acostumados com pequenos acidentes.
A mulher cruzou lentamente os braços.
Ainda não parecia desconfiada.
Apenas tentava encaixar aquela figura em alguma explicação plausível.
— Veio do leste?
— Infelizmente sim.
— Sozinha?
— Sim.
— Ainda existe alguém viajando por lá?
— Alguns poucos.
Outra pausa.
A mulher observou novamente os ferimentos. Depois a saia improvisada. Depois o rosto. Como se tentasse decidir se estava diante de uma refugiada ou de algo mais complicado.
Foi nesse momento que o cheiro chegou para Livia.
Não o da vila.
Outro.
Mais quente.
Incenso. Bronze aquecido e Pães.
As vozes vieram logo atrás. Distantes, organizadas, pessoas esperando sua vez para falar. Uma língua cuja melodia ela reconhecia mesmo sem entender o significado das palavras.
O mundo ao redor perdeu nitidez.
As casas desapareceram.
No lugar delas surgiu um salão amplo. Colunas. Bandeiras. Um mapa aberto sobre uma mesa comprida. Figuras desfocadas discutiam algo que ela sabia ser importante, sabia antes de conseguir ouvir, com aquela certeza específica de quem conhece o resultado antes do processo.
Ela conhecia aquele lugar. Sabia onde cada pessoa costumava ficar, mas nenhum rosto permanecia inteiro tempo suficiente para ser reconhecido.
Uma das figuras se levantou para falar.
Ela reconhecia a postura, era a postura de quem havia decidido antes de ouvir e estava apenas cumprindo o protocolo de parecer que considerava.
O ódio chegou antes que ela pudesse catalogar.
Não raiva.
Ódio específico e antigo.
Do tipo que se acumula quando você apresenta o argumento correto no momento certo e mesmo assim as pessoas escolhem o caminho errado porque o caminho errado é mais confortável agora.
Ela sabia como aquilo terminava, sabia que todos na sala iriam morrer se não lutassem juntos e sabia que os representantes iriam recusar mesmo assim.
Concentra.
Ela se agarrou ao som da voz de Serah como linha no escuro.
— perguntei se você pretende ficar ou só estava passando —
A sensação da lama voltou sob os pés.
A umidade e o frio trazendo a mente de volta para o que era real.
— Ainda não decidi — disse Lívia.
A frase saiu atrasada.
A mulher havia começado a repetir a pergunta quando a resposta chegou. Ela ficou olhando para Lívia com aquela expressão que não era mais avaliação, era estranhamento.
— Se quiser conversar com Eli — disse ela por fim, com cuidado — ele deve voltar antes do anoitecer.
— Então eu volto quando ele chegar.
A mulher assentiu. Já estava se virando para a porta quando vozes masculinas chegaram do lado de fora da barricada.
Primeiro indistintas. Depois mais próximas, passos pesados na lama junto com o rangido de um carrinho vazio.
As crianças olharam imediatamente para a entrada.
Cali sorriu.
Lívia se virou.
Eli estava a quatro metros atrás dela.
Ao lado dele, dois homens jovens carregavam equipamento de caça que não havia sido usado. A expedição havia voltado sem resultado.
Ela não havia ouvido nenhum dos três chegar.
Registrou isso antes de qualquer outra coisa.
Eles haviam ficado a apenas quatro metros dela.
Quatro metros.
Ela não havia ouvido.
Eli era mais novo do que ela esperava.
Trinta anos, talvez menos. Era difícil dizer, o rosto envelhecido mais pelas responsabilidades demais para os ombros do que pela idade. Os olhos eram atentos com aquela qualidade específica de alguém que havia aprendido a avaliar situações antes de reagir a elas.
Ombros largos, marcados por anos carregando peso, mas já sem o volume de alguém que treinava todos os dias. A barba escura crescia sem cuidado havia semanas, escondendo parte do rosto e reforçando a aparência de alguém que dormia pouco demais para desperdiçar tempo diante de um espelho. Os cabelos castanhos, presos de qualquer maneira atrás da nuca, estavam úmidos da chuva recente.
O arco apoiado nas costas era antigo, mas bem conservado. A postura chamava mais atenção que a arma. Os pés permaneciam levemente afastados, o centro de gravidade baixo, como alguém acostumado a permanecer entre um perigo e outras pessoas.
Um guarda, pensou antes mesmo de perceber que não sabia por que tinha tanta certeza.
Ele olhou para Lívia.
Ela olhou para ele.
Dois segundos de avaliação mútua sem disfarce.
Nos dois segundos que levou para ele chegar até a barricada, ela catalogou o restante. Os dois homens jovens atrás dele eram parecidos demais para não serem irmãos, um pouco mais altos que Eli, mais largos, com o olhar abatido de uma longa caçada sem frutos. O carrinho que arrastavam estava vazio. O equipamento de caça parecia intacto.
Expedição sem resultado.
Ela também notou algo diferente.
Movimento nas outras casas.
Portas entreabertas que não estavam assim um momento atrás. Rostos nos vãos, velhos em sua maioria, alguns apoiados em batentes, outros apenas visíveis através do vidro sujo das janelas. Observando sem sair. Como animais avaliando o perigo antes de se expor.
Um homem mais velho apareceu na porta da segunda casa apoiado numa bengala improvisada. Ficou parado na soleira sem descer os dois degraus que separavam a entrada do chão lamacento.
Outro surgiu na janela da casa do fundo, o rosto parcialmente escondido pela cortina.
A vila estava acordada.
Havia estado acordada o tempo inteiro.
Só esperava para ver o que Eli faria.
Ele parou a dois metros dela. Olhou para o braço com o tecido ensanguentado. Para os olhos dela.
Não disse nada imediatamente.
Depois virou para os dois irmãos.
— Entrem e comecem a abrir os canais. Esse pátio não pode continuar assim.
Um deles olhou para a lama.
— Hoje?
— Agora.
— Eli, a gente acabou de—
— Eu sei o que vocês acabaram de fazer. — A voz não subiu. — Por isso estou pedindo para vocês dois e não para um sozinho.
Os dois trocaram um olhar.
Entraram reclamando baixo o suficiente para não ser confrontados.
Eli olhou para Cali.
A garota já estava correndo na direção dele antes que ele terminasse de virar.
— Eli! — Ela parou a menos de um metro dele. — Ela me ajudou com umas bestas.
Ele se aproximou dela um passo e bagunçou os cabelos dela.
— Obrigado. — Ele falou olhando para Livia um momento. Depois voltou para Cali. — Você pegou carne da dispensa.
Cali parou.
— Era só um pedaço pequeno.
— Era o pedaço que eu havia separado para o pai da Serah.
A garota abriu a boca.
Fechou.
Os olhos foram para o chão.
— Eu não sabia.
— Agora sabe.
O tom não era raiva. Era cansaço com instrução embutida, o tipo que aparece quando alguém já teve a mesma conversa muitas vezes e continua tendo porque é necessário.
— Mas estava com fome — disse Cali, mais baixo agora.
— Todo mundo aqui está com fome.
Lívia olhou para Eli.
— Que curioso… A garota encontrou uma estranha após ser atacada por bestas e você a está repreendendo por pegar um pouco de carne escondida… — A voz saiu como curiosidade. — Parece razoável.
Eli olhou para ela.
Primeira vez que ele dava atenção completa desde que havia chegado.
— Você realmente quer entrar nessa discussão?
— Eu? — Ela respondeu com uma leve expressão de espanto levanto uma mão ao peito uma reação claramente forçada — Jamais, odeio debates sem futuro.
— A lógica é simples. Recursos são escassos, todos tem que contribuir e receber referente a sua contribuição — Eles respirou fundo voltando o olhar para a porta da casa onde Serah observava a cena. — Mas não espero que uma forasteira entenda.
— Concordo. — Livia respondeu sustentando o olhar. — Mas a garota não deveria se arriscar indo a floresta buscar pedaços de lenha para ganhar comida.
Eli ficou em silêncio por um segundo.
Livia recuou um pouco da passagem desviando o olhar para o arco nas costas de Eli.
— Mas não espero que um local entenda.
Depois olhou para Cali.
— Da próxima vez, pergunta antes de pegar.
A garota assentiu sem levantar os olhos.
Eli voltou para Lívia.
— O que você quer aqui?
Direto.
Sem hostilidade mas sem espaço para rodeio.
— Estava de passagem. — Ela deixou a frase ficar sozinha um momento. — Mas posso ajudar antes de seguir viagem, em troca de um abrigo nas margens da cidade.
— Não sei se reparou mas não temos muita necessidade de ajuda com trabalhos manuais.
— Estou falando de caça.
Ele a olhou por alguns instantes, Até Serah que estava na varanda ouvindo a conversa finalmente interviu.
— Eli caça há quinze anos — disse ela. — Voltou de mãos vazias hoje. O que faz você achar que consegue algo diferente?
Lívia olhou para ela. depois fingiu divagar em pensamentos com um dedo no queixo antes de responder.
— Hum.. Intuição.
— Intuição? isso é serio?!
Eli observou as duas por um momento.
Havia algo no rosto dele que não era irritação — era a expressão de alguém que estava muito cansado para entrar numa discussão que não tinha energia para resolver mas que precisava de resultado concreto antes que anoitecesse.
Ele tirou o arco do ombro.
Cinco flechas no carcás.
Colocou tudo no chão entre os dois.
— Cali fica aqui e ajuda na casa até você voltar.
— Eli o que você está fazendo? — Serah gritou observando a cena.
Ele apenas a olhou de volta.
Lívia ficou olhando para o arco.
Depois para ele.
— Você acabou realmente de entregar seu arco para uma estranha que pode simplesmente ir embora com ele?
Eli deu de ombros.
— Parece que sim. Não vou sair de novo hoje.
O tom era simples demais.
Como se a decisão tivesse sido tomada muito antes daquela conversa.
— Amanhã eu resolvo isso.
Ele não explicou mais.
Virou e entrou na casa sem olhar para trás.
Ele caminhava devagar, mas nunca cruzava as pernas durante o passo. Cada movimento mantinha equilíbrio suficiente para sacar uma arma mesmo no meio da caminhada.
Não era jeito de caçador.
Caçadores aprendiam a seguir rastros.
Serah ficou na soleira por um segundo a mais, o tempo suficiente para deixar claro que a opinião dela sobre aquilo não era positiva, antes de seguir o marido.
A porta fechou.
Cali olhou para Lívia.
Lívia olhou para o arco no chão.
Havia algo no movimento de Eli que ela não conseguia encaixar em nenhuma categoria que conhecia — não era confiança ingênua, ele havia reconhecido o risco em voz alta. Não era desespero, a voz havia sido calma. Era algo mais parecido com aposta calculada feita por alguém que não tinha reservas suficientes para ser cuidadoso.
Ela pegou o arco.
Testou a tensão da corda.
Melhor do que esperava para equipamento naquele estado.
— Vai mesmo? — perguntou Cali.
— Sim.
— Por quê? eu pedi para você cuidar apenas de mim.
— Porque é mais simples assim.
Lívia pensou por um segundo na resposta verdadeira, que iria ir embora com o arco, era a decisão racional, que a vila não era problema dela, que os ferimentos ainda não haviam fechado o suficiente para caçar com eficiência real mas também a impossibilitava de voltar a viajar mesmo com um arco agora.
E mesmo assim ela estava com o arco na mão.
As feridas ainda estavam abertas, a mana mal conseguia sustentar a regeneração e as bestas continuavam circulando pela floresta. Fugir agora significava trocar um abrigo imperfeito por uma morte lenta.
Restava apenas uma alternativa razoável.
Permanecer.
Tempo suficiente para o próprio corpo voltar a funcionar.
Nada além disso.
Os olhos voltaram para Cali, que conversava que a observava com expectativa.
A garota havia lhe oferecido uma entrada.
Uma desculpa.
Enquanto todos acreditassem que estava ali por causa da criança, poucas pessoas fariam perguntas inconvenientes.
Era um disfarce melhor do que qualquer ilusão.
Por enquanto, Cali passava a ser responsabilidade dela.
Não por afeto.
Por conveniência.
Ela repetiu aquilo mentalmente mais de uma vez.

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.