Índice de Capítulo

    Olá, autor aqui!

    Novamente deixei faltar o capítulo de sábado, peço perdão por isso, mas esses últimos dias tem realmente sido intensos para mim. Como compensação o capítulo de hoje possuí o dobro de palavras do normal e é um capítulo duplo, os próximos lançamentos seguirão normalmente ( Quinta e Sábado ), espero que estejam gostando da obra.

    Oliver dormia.

    Não era um sono comum.

    Seu corpo permanecia largado no chão do quarto de Erina, imóvel, enquanto sua mente processava camadas e mais camadas de lembranças que não lhe pertenciam originalmente. Rostos desconhecidos. Laboratórios antigos. Torres de pedra. Pergaminhos cobertos de cálculos. Almas. Pesquisas. Erros. Descobertas. Arrependimentos. Tudo se misturava num fluxo grande demais para que uma criança processasse de uma vez.

    Às vezes, seus dedos se contraíam.

    Às vezes, sua respiração falhava por um instante antes de voltar ao ritmo normal.

    Mas ele não acordava.

    Atrás de um sofá virado de lado, Erina finalmente saiu de onde estivera escondida desde o momento em que a alma do dragão invadira o quarto. Seus passos foram lentos, cautelosos, quase como se ainda esperasse que outra parte do teto desabasse a qualquer segundo.

    E havia motivo para isso.

    O quarto estava arrasado.

    A parede por onde Eliandris fora lançada seguia aberta como uma ferida escancarada no prédio. Madeira rachada, reboco partido e poeira cobriam o chão. Uma cômoda estava tombada perto da cama. Uma das cadeiras perdera duas pernas. O ar ainda guardava um peso residual, o rastro da presença monstruosa que ocupara o aposento pouco antes.

    Erina olhou para aquele cenário em silêncio, o peito subindo e descendo rapidamente.

    Então seus olhos foram para Oliver.

    “Oliver…”

    Ela correu até o garoto e se ajoelhou ao lado dele.

    O menino respirava.

    Isso bastou para impedir que o pânico dela se transformasse em desespero completo.

    Archibald continuava de pé com dificuldade, apoiado no cajado. O mago de meia-idade ainda parecia atordoado pelo impacto que recebera, mas seus olhos permaneciam lúcidos. Ele alternava o olhar entre o buraco na parede, a porta e Oliver caído no chão, avaliando riscos, calculando distâncias e esperando um novo ataque que, por enquanto, não veio.

    Passos rápidos ecoaram do corredor.

    No instante seguinte, Agatha surgiu na porta.

    Ela parou assim que viu o estado do quarto.

    Por um segundo inteiro, não disse nada.

    Seu olhar passou pela parede destruída, pelos móveis quebrados, por Archibald ferido, por Erina ajoelhada no chão e, por fim, pelo corpo inconsciente de Oliver.

    “Mas que inferno aconteceu aqui?”

    A voz saiu alta, aguda e incrédula.

    Agatha avançou dois passos para dentro do cômodo, ainda tentando entender a cena diante dela.

    “Eu ouvi um estrondo, depois mais outro, e então metade do corredor parecia prestes a cair. Onde está Eliandris? Quem fez isso? Por que o garoto está no chão?”

    Antes que alguém respondesse, uma sombra surgiu no vão destruído da parede.

    Eliandris voltou.

    Ela se apoiou primeiro na borda despedaçada de madeira e reboco, depois puxou o próprio corpo para dentro do quarto com um esforço visível. Sua aparência arrancaria um suspiro de qualquer observador menos acostumado à violência.

    Havia sangue seco no canto da boca.

    Parte da roupa estava rasgada na altura do ombro e das costelas.

    Seu braço esquerdo tremia levemente.

    Mesmo assim, ela permaneceu de pé.

    Erina arregalou os olhos.

    “Eliandris!”

    Agatha levou a mão à boca.

    “Minha nossa…”

    Eliandris respirou fundo uma vez antes de responder. “Estou viva.”

    Não soava exatamente bem.

    Ela parecia alguém que estava se mantendo funcional apenas por disciplina e urgência, ela olhou para a direção de Oliver e viu ele desacordado, porém vivo, estava um pouco aliviada.

    Archibald foi o primeiro a notar algo importante. “Você conseguiu bloquear parte do golpe.”

    Eliandris assentiu, ainda ofegante. “A cauda teria me partido ao meio se eu não tivesse interceptado com aura.” Ela olhou brevemente para a rapieira, cuja guarda estava rachada. “Mesmo assim, apaguei por alguns instantes.”

    Erina cerrou os dedos sobre o vestido, ainda ajoelhada ao lado de Oliver.

    “Instantes?”

    “Tempo demais.” Eliandris respondeu sem suavizar nada.

    Seus olhos então foram para o chão, até o ponto em que o pergaminho que ela entregara a Archibald antes da interrupção havia caído entre fragmentos de madeira e poeira.

    “Archibald.”

    O mago seguiu a direção do olhar dela, viu o pergaminho parcialmente coberto por reboco e se abaixou para apanhá-lo. Fez isso com cuidado incomum, como se recolhesse algo capaz de explodir só por ser tocado da maneira errada.

    Assim que o teve nas mãos outra vez, Eliandris perguntou:

    “Quanto tempo você vai demorar para usar isso?”

    Archibald franziu o cenho e examinou as inscrições antigas como se esperasse que elas, por milagre, tivessem ficado mais simples desde a última tentativa.

    “Não sei. Fui interrompido. Talvez uma hora?”

    Erina empalideceu.

    Eliandris fechou a expressão.

    “É muito tempo. Precisamos sair daqui o mais rápido possível.”

    Archibald abriu o pergaminho por completo. A luz ciano das letras antigas se acendeu de novo, fraca no início, depois mais estável.

    “Estou dando o melhor de mim”, respondeu, sem desviar os olhos do texto. “Isso não é algo a que nenhum de nós deveria ter acesso.”

    “Eu sei.” Eliandris passou a língua pelos lábios secos e fez uma careta sutil ao sentir o gosto de sangue. “Eu roubei do cofre da família. Esse é o principal motivo de estar sendo perseguida. Eles podem lidar com uma filha fugitiva. Mas uma filha fugitiva que roubou algo valioso é outra história.”

    Agatha, que até então vinha tentando acompanhar a conversa sem sucesso, finalmente explodiu.

    “Que família? Que cofre? Que pergaminho é esse? Quem estava lutando aqui? Porque você está usando rapieira e armadura? E por que vocês estão falando de fuga como se o mundo tivesse acabado?”

    Archibald já havia começado a conjurar.

    Uma mana avermelhada circulou entre seus dedos enquanto ele lia em voz baixa, com todo o foco devotado ao conteúdo do pergaminho. As letras ciano pulsavam em cadência lenta, revelando, escondendo e reordenando trechos da escrita antiga conforme o mago tentava destravar o mecanismo de ativação.

    Eliandris lançou um olhar rápido para Agatha, mas foi Erina quem respondeu.

    Ou melhor, quem a cortou.

    “Fica quieta e me ajuda a colocar o Oliver no sofá.”

    Agatha piscou, surpresa.

    Erina raramente falava com ela naquele tom.

    Mas aquele não era um momento comum.

    Havia tremor na voz da cornídea.

    Por um instante, Agatha pareceu prestes a retrucar, mas não retrucou.

    Talvez porque o estado de Eliandris tornasse evidente que aquela situação já tinha ido muito além de qualquer confusão administrável dentro de um bordel.

    Ela se aproximou sem dizer mais nada.

    Erina passou um braço sob os ombros do garoto. Agatha segurou as pernas. Entre cuidado e pressa, as duas o ergueram e o levaram até o sofá que permanecia inteiro no canto mais afastado do estrago.

    Oliver não reagiu.

    Sua cabeça pendeu para o lado, o rosto sereno não combinava com o caos ao redor. À primeira vista, ele parecia apenas adormecido depois de um dia longo. Só quem havia visto o que acontecera sabia que aquele silêncio escondia algo muito mais pesado.

    Erina ajeitou-o com delicadeza, puxando uma almofada para apoiar melhor sua cabeça.

    Agatha recuou um passo e olhou de Oliver para Archibald, depois para Eliandris.

    “Alguém vai me explicar isso”, disse em voz mais baixa, mas ainda dura.

    “Depois”, Eliandris respondeu.

    Não havia agressividade naquela única palavra.

    Somente exaustão e urgência.

    Archibald continuava lendo o pergaminho.

    A luz ciano agora se espalhava pelas mãos dele e pelo chão ao redor dos pés, desenhando linhas tênues que ainda não formavam nada completo. O processo estava longe do fim, e todos no quarto perceberam isso no mesmo instante.

    Erina sentou-se ao lado de Oliver no sofá e ficou observando o rosto do garoto em silêncio. Eliandris permaneceu de pé apesar da dor, vigiando o corredor e a parede destruída ao mesmo tempo. Agatha, sem entender quase nada, percebeu ao menos o essencial:

    Seja lá o que tivesse acontecido ali, ainda não havia acabado.

    Do outro lado da cidade, a luta continuava.

    Orson avançava sobre Victor usando apenas o próprio corpo.

    Não conjurava feitiços.

    Não mobilizava almas menores.

    Não recorria a quaisquer tipos de truques.

    A assimilação com a alma do dragão havia transformado o velho decrépito em algo capaz de esmagar um mago de 5º ciclo com força física bruta, e era exatamente isso que ele fazia.

    Victor recuava o máximo que podia sem perder a postura de conjuração.

    [MAGIA DE 1º CICLO – ESCUDO DE FORÇA]

    Uma barreira translúcida surgiu à frente dele.

    Orson a atingiu com um golpe de garra.

    O escudo aguentou por um instante.

    Depois rachou e explodiu em partículas de mana.

    Victor já erguia outro.

    [MAGIA DE 1º CICLO – ESCUDO DE FORÇA]

    Outra barreira apareceu.

    Desta vez, Orson não usou a mão aberta. Veio com um soco direto, reforçado pela estrutura dracônica amarela que revestia seu braço. A magia resistiu menos que a anterior. O impacto reverberou pelo ar como uma chapa de metal sendo atingida por um aríete, e o feitiço se despedaçou.

    Victor não tinha tempo para respirar.

    Cada escudo que erguia mal servia para suportar um ataque.

    No máximo, atrasava Orson por uma fração de segundo.

    Mas aquela fração de segundo era a única coisa entre ele e a morte.

    “Desista e apenas morra de uma vez”, Orson disse.

    A voz grave, arrastada pelo eco dracônico, parecia vibrar dentro do peito de Victor mais do que em seus ouvidos.

    Victor não respondeu.

    Não porque quisesse manter pose.

    Não porque desprezasse a provocação.

    Simplesmente não podia.

    Toda a atenção de que dispunha estava sendo consumida por cálculos e desespero. Distância. Ângulo. Próximo passo. Próxima conjuração. Próximo segundo de vida.

    [MAGIA DE 3º CICLO – LENTIDÃO]

    Círculos pálidos se abriram ao redor de Orson e colapsaram sobre ele como engrenagens invisíveis se encaixando na carne e na alma ao mesmo tempo. O ar ao redor do necromante assimilado perdeu ritmo. Seus movimentos sofreram resistência. O mundo tentou impor atraso ao corpo monstruoso que avançava sobre Victor.

    Houve efeito.

    Mas não o suficiente.

    Os ataques de Orson realmente ficaram mais lentos.

    Continuavam, ainda assim, extremamente brutais.

    O que antes vinha como um raio agora vinha como a queda de um portão de ferro. Menos rápido, porém ainda impossível de receber de frente sem pagar um preço terrível.

    Victor mal conseguiu erguer outro escudo antes de um chute lateral partir a magia e quase arrancar seu cajado das mãos.

    Ele recuou cambaleando entre pedras soltas, tábuas quebradas e restos de uma fachada destruída minutos antes. Em algum ponto daquela rua, uma casa ainda queimava. Em outro, havia corpos.

    Corval já não parecia uma vila.

    Parecia o rescaldo de um desastre natural atravessado por magia de alto nível.

    Orson ergueu o braço outra vez.

    As garras espectrais que revestiam seus dedos se comprimiram em ponta de execução.

    Victor viu o golpe vindo.

    Sabia que não teria tempo.

    E foi então que uma lâmina interceptou o ataque no último instante.

    As garras de Orson se chocaram contra a espada de Alexander com um estrondo seco.

    Faíscas de aura amarela se espalharam pelo impacto.

    “Se quiser matar ele, vai ter que passar por mim primeiro, velhote.”

    Alexander travou os pés no chão rachado, suportando a pressão monstruosa do oponente por uma fração de segundo antes de girar a espada e responder com outro golpe. Aura amarela se espalhou pela lâmina em camadas densas, vibrando como se o metal mal conseguisse contê-la.

    [4ª TÉCNICA DA ACADEMIA BERSERKER – QUEBRA MONTANHAS]

    Alexander não mirou Orson diretamente.

    Mirou o chão.

    A espada desceu com violência brutal, e a técnica explodiu no instante do impacto.

    O solo cedeu.

    Uma onda destrutiva se espalhou pela rua em todas as direções, rasgando pedras, abrindo fendas, arremessando destroços e sacudindo as estruturas que ainda estavam de pé ao redor. O estrondo ecoou por vários quarteirões, seguido pelo som de paredes cedendo em cadeia.

    A batalha entre Orson e os executores já havia devastado pelo menos 20% da vila de Corval.

    Casas haviam sido destruídas.

    Ruas haviam virado corredores de ruína.

    Alguns aldeões desavisados, pegos perto demais do confronto, acabaram mortos no fogo cruzado de uma luta que jamais deveriam sequer ter testemunhado.

    Poeira e incontáveis estilhaços subiram de uma vez, formando uma nuvem espessa que engoliu a visão de todos.

    Victor não desperdiçou a chance.

    [MAGIA DE 2º CICLO – PASSO NEBULOSO]

    Mana se concentrou nas pernas dele, aliviando peso e multiplicando impulso por um curto intervalo. Victor disparou para trás, usando a cortina de poeira criada por Alexander para abrir distância o mais rápido possível.

    Precisava de espaço.

    Precisava de ar.

    Precisava de qualquer coisa que lhe devolvesse controle mínimo sobre a luta.

    Se conseguisse alguns segundos, talvez pudesse preparar algo maior. Talvez reorganizar o ritmo. Talvez sobreviver.

    Saiu da parte mais densa da nuvem quase tropeçando nos próprios passos.

    Já começava a erguer o cajado para a próxima magia quando sentiu algo agarrar seu pescoço por trás.

    Não houve aviso.

    Não houve som prévio.

    Só a percepção súbita de dedos monstruosamente firmes se fechando em torno de sua garganta.

    Os olhos de Victor se arregalaram.

    Orson estava ali.

    Havia atravessado a poeira antes dele.

    Victor tentou reagir.

    Tentou puxar mana.

    Tentou girar o corpo.

    Tentou falar.

    Nada disso aconteceu a tempo.

    Orson torceu a mão.

    O som de ossos quebrando foi curto, seco e definitivo.

    O corpo de Victor perdeu força de uma vez.

    O cajado escorregou dos dedos dele.

    Orson soltou o cadáver no chão como se largasse algo que já não tinha utilidade alguma.

    Victor estava morto.

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