Índice de Capítulo

    O terreno era hostil, composto por rochas afiadas e xisto quebradiço que deslizava sob as botas a cada passo em falso. O vento soprava com força ali em cima, gelado e constante, cortando o rosto e dificultando a respiração.

    O Guia ia à frente. Ele não parecia sentir o esforço e seus movimentos eram precisos. Ele saltava entre pedras instáveis com o equilíbrio de uma cabra montanhesa, sem usar as mãos para se apoiar. Ele subia trechos quase verticais com uma facilidade que irritava Licaão.

    Atrás dele, o grupo lutava. Licaão usava sua força bruta para puxar o próprio corpo para cima, cravando os dedos na pedra. Teseu subia com agilidade, mas parava frequentemente para ajudar Plutarco. O escriba estava exausto, suas mãos estavam esfoladas e ele respirava com um chiado alto.

    Quando finalmente chegaram num lugar onde parecia que seriam capazes de andar sobre dois apoios e ter sossego, o Guia parou na entrada de uma fenda estreita na parede da montanha. 

    — Por aqui — disse ele, e desapareceu na escuridão sem hesitar

    Teseu olhou para Licaão, que apenas assentiu com a cabeça. Eles entraram.

    Lá dentro, a luz do sol desapareceu. A escuridão era total. Teseu estendeu a mão e tocou a parede fria e úmida da caverna para se orientar. Ele ouvia os passos de Plutarco tropeçando e o som da respiração pesada de Licaão.

    À frente, os passos do Guia eram rápidos e seguros como se o homem caminhasse sob o sol do meio-dia.

    — Espere — pediu Teseu, tropeçando em uma raiz de pedra no chão. — Nós não enxergamos nada.

    — Usem os ouvidos — respondeu a voz do Guia, ecoando mais à frente do que Teseu esperava. — O chão é plano aqui, mas o teto é baixo. Cuidado com a cabeça.

    Licaão grunhiu atrás de Teseu. O som de algo pesado batendo na pedra indicou que o aviso veio tarde para o guerreiro alto.

    Algum tempo se passou de andança na escuridão antes que Teseu, incomodado novamente sobre a natureza de seu guia, rompesse o silêncio mais uma vez.

    — Quem é você? — perguntou Teseu, irritado, enquanto avançava com cautela. — Como conhece esse caminho tão bem?

    — Eu sei o suficiente para ser capaz de guiá-los ao topo — respondeu o Guia. A voz dele ecoou nas paredes de pedra.

    — Isso não é uma resposta — rosnou Licaão. — O que mais você sabe sobre o trajeto? O que nos espera?

    — Vamos, vamos — disse o Guia, ignorando a pergunta. — Conversem menos e andem mais. Estamos no começo.

    Eles caminharam por longos minutos no escuro. Plutarco bateu o ombro em uma estalactite e soltou um gemido de dor.

    — Você está nos guiando para a morte? — perguntou Plutarco, com a voz trêmula.

    O Guia riu.

    — Vocês me pagaram pela viagem. Para fazer perguntas, são mais três moedas.

    O som de metal sendo desembainhado preencheu a caverna. Licaão parou.

    — Eu posso te pagar arrancando sua língua — disse Licaão.

    Houve um silêncio curto.

    — Estou brincando com vocês, oras — disse o Guia, sem parecer intimidado. — Há muito tempo não conheço viajantes com tão pouco senso de humor.

    — Licaão, devolva a minha espada. — a voz de Teseu soou irritada.

    O som que se seguiu deu a entender que Licaão cuspiu no chão, e em seguida veio o balanço do couro com o embainhar da espada.

    Uma luz fraca surgiu à frente. Eles saíram da gruta e voltaram para o ar livre. Estavam em um platô estreito, uma borda de pedra que contornava a montanha. De um lado, a parede de rocha subia infinitamente. Do outro, um precipício mergulhava nas nuvens abaixo.

    O Guia parou bruscamente. Ele levantou a mão, pedindo para que parassem. Ele colocou um dedo sobre os lábios descobertos pelo capuz.

    — Silêncio — sussurrou ele.

    O grupo estacou. O vento assobiava forte naquele corredor de pedra.

    — A partir deste ponto, não façam barulho — continuou o Guia, falando muito baixo. — O primeiro guardião do monte está logo à frente.

    Teseu franziu a testa. Ele olhou para a trilha adiante. Havia apenas pedras cinzentas, cascalho e a curva da montanha. Nada se movia.

    — Do que você está falando? — sussurrou Teseu. — Não tem nada ali.

    O Guia fez um gesto brusco, cortando o ar com a mão, mandando-o calar a boca.

    Teseu obedeceu com a sobrancelha crivada. O Guia voltou a andar, mas agora seus passos eram ainda mais leves, como se ele pisasse em ovos. Licaão imitou a postura, caminhando nas pontas dos pés. Teseu fez o mesmo.

    Plutarco vinha por último. Ele estava nervoso. Olhava para o precipício à sua direita com rosto pálido e apertava sua bolsa de pergaminhos contra o peito com força.

    Eles avançaram alguns metros. Em silêncio, mas Plutarco não conseguia tirar os olhos do precipício. Quando viu o caminho se estreitar à frente, o escriba fechou os olhos e engoliu em seco.

    Foi quanto pisou em uma pedra solta.

    A pedra girou sob a sola gasta de sua sandália. O pé de Plutarco escorregou para fora da borda. O escriba perdeu o equilíbrio e seu corpo pendeu para as nuvens.

    O grito foi agudo e alto, rompendo o silêncio da montanha.

    Teseu reagiu por instinto. Ele girou e se lançou para trás. Sua mão agarrou o pulso de Plutarco no último segundo. O corpo do escriba ficou pendurado sobre o vazio, balançando com o vento.

    O peso de Plutarco arrastou Teseu para a borda. As botas do garoto deslizaram no cascalho e ele se encaminhou para a queda também.

    Uma mão enorme agarrou o cinto de couro de Teseu. Licaão firmou os pés no chão, segurando o peso dos dois com um grunhido de esforço.

    Plutarco olhou para baixo, para a queda mortal, e gritou de novo, em pânico. Ele apertava seus escritos contra o peito com a mão livre, recusando-se a soltá-los.

    — Me puxem! Me puxem para cima! — berrou Plutarco.

    À frente, o Guia parou. Ele olhou para trás e estalou a língua contra o céu da boca.

    Tsk. Eu disse para ficarem quietos. Agora ela acordou.

    Licaão trouxe Teseu e Plutarco de volta para a terra firme com um puxão violento. Os três caíram sentados no chão, ofegantes.

    — O que acordou? — perguntou Teseu, olhando para o Guia.

    O Guia não respondeu. Ele apenas apontou para a montanha abaixo de onde eles tinham acabado de passar.

    Um som grave, como o de pedras sendo moídas umas contra as outras, começou a vibrar sob os pés deles.

    Teseu olhou. A parede de rocha abaixo da trilha começava a se agitar, a se mover e retorcer.

    Uma fenda enorme se abriu na pedra cinza. Não era uma caverna. Era uma pálpebra. Um olho amarelo, vertical e gigantesco, com a pupila negra em fenda, se abriu e fixou o olhar neles.

    A “rocha” ao redor do olho se moveu. O que eles pensavam ser o paredão da montanha eram anéis grossos e escamosos, cobertos de poeira e detritos de séculos de sono. A montanha inteira parecia se desenrolar.

    — Píton — sussurrou Licaão, recuando um passo.

    A cabeça da serpente colossal se ergueu do abismo, bloqueando o sol. Ela soltou um silvo que fez os ouvidos de Teseu doerem. O cheiro de enxofre e carne podre invadiu o ar.

    Teseu olhou para a frente. O Guia já estava a trinta metros de distância, correndo pela trilha estreita.

    — Corram logo! — gritou o Guia, sem parar. — O que estão esperando aí atrás?

    A serpente abriu a boca, revelando presas do tamanho de lanças, e avançou.

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