Índice de Capítulo

    Anaxímenes ajeitou a túnica. Ele ergueu o queixo, incapaz de sustentar o contato visual com o comerciante por muito tempo.

    — Um infortúnio com as correntes de ar. Eu trago forasteiros de longe, homens importantes. A pólis…

    — A pólis deveria te exilar! — O oleiro deu um passo à frente com os punhos cerrados. — Quem vai pagar por isso? Minha família come vento, por acaso? Meus vasos custam dracmas!

    Magno encostou as costas em uma das barracas caídas, cruzou os braços e exibiu um sorriso torto, pronto para assistir ao desfecho. Hermes manteve a mão perto do cabo da espada e os olhos atentos ao entorno. O clima exigia cautela.

    Antes do oleiro avançar, uma mão firme pousou em seu ombro. Um rapaz de cabelos ruivos e encaracolados surgiu do meio dos populares. Vestia uma túnica de linho claro e ostentava um broche de bronze no peito. Um sorriso carregado de soberba curvava seus lábios.

    — O artesão tem razão, Anaxímenes. — O recém-chegado afastou o oleiro com um toque suave e irredutível. — Você desaparece por dias. Tales deixa pilhas de cálculos astronômicos para você organizar e, em vez do trabalho, você decide varrer a poeira do mercado com sua tapeçaria.

    Anaxímenes torceu o nariz para o jovem ruivo de vestes beges e barba bem feita.

    — Não comece, Anaximandro. Eu cumpria uma missão de pesquisa.

    — Pesquisa? — Anaximandro soltou uma risada nasalada. Inspecionou o grupo de forasteiros com um olhar fixo e desdenhoso. — Parece-me que você apenas coletou vagabundos perdidos na costa.

    Magno desfez o sorriso e desencostou da madeira quebrada. Hermes o deteve com um toque pesado no antebraço.

    O oleiro pisou com força no chão.

    — Pouco me importa as tarefas de vocês! Minhas peças estão em cacos! Cento e cinquenta dracmas, no mínimo! Exatamente o prejuízo de sempre!

    Anaxímenes tateou os bolsos de sua túnica. O tecido estava liso e vazio. Ele engoliu em seco e olhou para o colega ruivo.

    — Empreste-me o valor. Eu devolvo amanhã.

    Anaximandro deu de ombros. Ele virou o rosto para as tendas intactas, desinteressado.

    — A imprudência possui um custo. Arque com ele. Meus talentos e meus recursos não servem para consertar os seus erros.

    — Vamos, irmão. Pelos deuses! — Anaxímenes juntou as mãos e se aproximou do colega que lhe dera as costas. — Com talentos como os seus, e não usá-los? Não vê que vivo para te dar chances de trabalhar?

    Anaximandro o empurrou com um suspiro e revirar de olhos.

    Foi quando uma figura menor apareceu atrás dele. Vestia um manto grosso e um capuz escuro que cobria metade do rosto. Hermes estreitou os olhos. O sol matinal de Mileto já aquecia as pedras da praça com força, mas a moça sob o tecido pesado sequer respirava pesadamente.

    Seus dedos finos tocaram o antebraço de Anaximandro.

    — Ajude o pobre homem. — A voz soou melodiosa, abafada pela sombra do capuz. — Ele perdeu o sustento da semana. E não traia a confiança daqueles que o chamam de irmão. Seja gentil, Anax.

    O maxilar travado de Anaximandro relaxou no mesmo instante. Os ombros dele desceram. O sorriso soberbo cedeu lugar a um olhar brando e desarmado.

    — Se te agradares, Melita. — Ele cobriu a mão da moça com a sua e a levou aos lábios com um sorriso.

    Caminhou até o centro da destruição, estendeu o braço direito em direção aos cacos espalhados pelo calçamento.

    O ar ao redor da mão do ruivo escureceu. Partículas negras, semelhantes a areia vulcânica suspensa, brotaram do vazio e envolveram os estilhaços de cerâmica. O poder do ápeiron consumiu o caos. A matéria perdeu a forma. Os cacos reduziram-se a pó, o pó aglutinou-se em argila fresca, e a argila endureceu em formas impecáveis.

    Em questão de segundos, ânforas e vasos novos substituíram o entulho. O brilho da cerâmica intocada refletiu a luz do sol.

    O oleiro recuou com a boca aberta. Murmurou palavras ininteligíveis e correu para abraçar as próprias peças.

    Anaximandro virou-se para Anaxímenes. A frieza retornou aos seus olhos.

    — Tales espera por ti. Não o faça perder mais tempo.

    A multidão dispersou aos sussurros. Anaximandro guiou a moça para longe da praça. Hermes acompanhou as costas da garota encapuzada fundirem-se ao mar de pessoas e puxou o ar. O cheiro de ozônio e terra remexida ainda pairava sobre os vasos novos.


    Magno bateu nas próprias botas para soltar a poeira durante a caminhada pelas vielas de calcário.

    — Ruas limpas demais. Pedras muito alinhadas. Pessoas com cheiro de óleos caros. — Ajeitou a alça da mochila. — Um lugar com tanta ordem guarda os piores segredos nos porões. Podem apostar as próprias vidas nisso.

    Anaxímenes revirou os olhos. Ele empurrou uma porta dupla de carvalho maciço e interrompeu a fala do ladrão com um gesto de mão.

    — Cale a boca por um instante, Magno. — Apontou para o interior do aposento. — Apenas observem.

    Cruzaram o umbral e o cheiro de maresia e cera de abelha invadiu o ambiente. O interior da residência misturava a estrutura de um santuário doméstico com a desordem de uma academia. Bacias de bronze de diversos diâmetros repousavam no chão, conchas espiraladas e astrolábios rústicos pendiam do teto amarrados por fios finos de crina de cavalo. 

    No centro do cômodo, um homem de cabelos castanhos, barba grisalha e túnica vermelha dava as costas para a entrada. Tales.

    Mantinha os braços erguidos na direção do teto, onde uma esfera de água flutuava a um palmo de seus dedos. O líquido girava em um eixo invisível e perfeito. 

    Tales torceu o pulso direito. A água achatou-se de imediato e assumiu a forma de um disco translúcido, côncavo e fino como uma lâmina de vidro.

    Um feixe solitário de sol cortava o cômodo através de uma fresta na claraboia. Tales guiou o disco de água para o caminho da luz. A matéria líquida serviu como um prisma e o feixe solar refratou na água moldada e projetou uma imagem extensa contra a parede escura de calcário.

    Hermes estreitou os olhos. 

    A projeção exibia um mapa luminoso da costa da Hélade. Os recifes submersos e os bancos de areia apareciam delineados em filamentos de luz. Tales controlava a água como uma lente de observação astronômica e geográfica. 

    A cada leve contração nos dedos do sábio, a espessura da lente mudava, e o foco da projeção ampliava camadas diferentes do relevo marítimo na rocha.

    Sêneca cravou os olhos na geometria da luz projetada e prendeu a respiração.

    — Sem barcos hoje também… — Tales suspirou.

    Abaixou as mãos. O disco líquido perdeu a coesão, a água desabou e atingiu uma bacia de bronze com um estampido agudo. A imagem sumiu da parede. 

    Virou-se e seus olhos varreram as figuras na entrada de sua casa. As rugas ao redor de suas pálpebras se aprofundaram com o franzir. Ele avançou dois passos rápidos.

    — Um retorno estrondoso, sem dúvida. — Tales soou morno, apressado, e curioso. Cravou o olhar em Anaxímenes. — Trouxe companhias, meu jovem. O estrondo das tendas na ágora alcançou meus ouvidos antes mesmo dos seus passos na minha porta.

    Anaxímenes endireitou a postura e limpou a garganta.

    — Mestre Tales, estes homens são…

    — Visitas. — Tales cortou a formalidade com um toque brando no ombro do discípulo. Apontou para as bainhas gastas nas cinturas dos forasteiros. — Calculo que a gravidade cobrou o preço de suas manobras nos toldos do mercado. A fúria do oleiro ecoou até aqui. Ele quebrou os jarros novamente?

    — Anaximandro resolveu a situação na praça. — Anaxímenes cruzou os braços e desviou o olhar.

    Tales abriu um sorriso sereno. Ele voltou a atenção para Hermes e Magno e inspecionou o desgaste das armas e a poeira das estradas impregnada nas roupas da dupla.

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