Capítulo 2723 - Arauto da Criatura dos Sonhos
As palavras pairaram no ar, envoltas por um silêncio aterrador. Cassie também permaneceu imóvel, fazendo o possível para conter o tremor em seu corpo.
‘Asterion.’
Seria mentira dizer que, por um instante, ela não sentiu medo. Seus pensamentos giravam, e ela enviava uma enxurrada de mensagens mentais para aqueles presos na teia de seu Aspecto.
O homem sentado ao lado dela no bar… era um arauto da Criatura dos Sonhos, um agente do inimigo insidioso que ameaçava os próprios alicerces do Domínio Humano. Mas ele não era o próprio Asterion, então ela ainda não corria perigo de vida.
Cassie hesitou por alguns instantes, avaliando o perigo, e chegou à conclusão de que precisava ganhar tempo acima de tudo. Então, em vez de reagir impulsivamente, simplesmente pegou sua bebida e tomou um gole devagar.
“Nossa! Você é de um tipo diferente.”
O homem sorriu.
“Você deveria ter previsto que pessoas como essa surgiriam, não é?”
Ele não estava errado.
Cassie, Nephis e Sunny ainda estavam tentando determinar a extensão total dos poderes de Asterion. Infelizmente, havia poucas fontes confiáveis de informação sobre ele — os Soberanos anteriores haviam sido muito meticulosos em apagar da história todas as menções relevantes à sua existência.
O Aspecto de Asterion era de manipulação mental e espiritual. Ele podia sentir e influenciar os pensamentos e emoções dos outros, assim como se alimentar deles para ficar mais forte… e isso era apenas até onde iam suas Habilidades como Adormecido, Desperto e Ascendente, de acordo com Andarilho da Noite.
Ninguém — nem mesmo Jest, o patriarca exilado do Clã Dagonet — sabia qual era sua forma Transcendente, muito menos a natureza de seu Domínio e sua Habilidade Suprema. Mas podiam inferir bastante coisa.
Asterion parecia possuir uma habilidade de espalhar sua influência semelhante a um vírus memético. Todos que eram expostos ao seu nome eram infectados por seu poder e, depois disso… bem, cada pessoa era afetada de uma maneira diferente. Algumas não apresentavam sintoma algum, outras começavam a pronunciar seu nome aleatoriamente de tempos em tempos sem nem perceber, ajudando o vírus a se espalhar. E havia aqueles cujos pensamentos e ações mudavam completamente sob a influência da Criatura dos Sonhos — esses eram seus agentes no mundo humano. Eram eles que Cassie vinha caçando nos últimos meses.
Mas o homem à sua frente parecia representar uma nova espécie. Ele não estava apenas sob a influência dos poderes de Asterion… ele parecia estar completamente consumido por eles, sob o controle total do sinistro Soberano. Cassie nem sequer tinha certeza se ele ainda podia ser considerado um indivíduo de fato, em vez de uma mera extensão da Criatura dos Sonhos.
Um avatar, talvez. Ela assentiu com a cabeça.
“Sim, eu previ. Mesmo que minha capacidade de previsão não seja mais a mesma, ainda consigo fazer deduções.”
Asterion não era tão diferente de Cassie, em certo sentido. Se quisesse, ela poderia apagar todas as memórias da mente de uma pessoa, transformando-a em uma tela em branco. Então, ela poderia preencher essa tela com quaisquer memórias falsas que desejasse inventar, transformando-as em marionetes… não que ela tivesse feito algo assim ainda.
Ele provavelmente conseguiria fazer o mesmo com os sentimentos e pensamentos de uma pessoa, só que em um nível completamente diferente, por ser um Supremo.
A questão era: por que ele enviara esse Ascendente com lavagem cerebral para encontrá-la? Havia muitos motivos para eliminar Cassie, naturalmente — seus poderes poderiam neutralizar a influência de Asterion, por exemplo, ainda que em menor escala. Mas como um Mestre sozinho eliminaria uma Santa?
“Quem disse que estou sozinho?”
Ao ver o homem sorrir, Cassie sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Ela havia tomado medidas para proteger seus pensamentos, mas parecia que tudo fora em vão.
Asterion ainda a lia como um livro aberto. “Tanto você quanto cada mosquinha presa em sua teia, mocinha. Que rede intrincada você teceu, de fato…”
Recuando mais uma vez, Cassie cortou apressadamente a conexão com a maioria de seus alvos — exceto aqueles reunidos no salão, que, portanto, serviam como seus olhos.
O homem riu. Ele a observou com um sorriso calmo e sutilmente zombeteiro.
“Você ainda espera ganhar tempo, Canção dos Caídos?”
Assim que ele disse essas palavras, a perspectiva de Cassie mudou.
Isso aconteceu porque as pessoas que ela estava usando para observar o que estava acontecendo dentro do salão — todas elas — viraram a cabeça ao mesmo tempo. Agora, todas estavam olhando na mesma direção…
Eles estavam olhando para ela.
Por uma fração de segundo, tudo o que ela conseguiu ver foi seu próprio rosto pálido, as ondas douradas de seus cabelos e a luz elétrica refletida nas profundezas azuis de seus olhos cegos.
‘Eu… caí numa armadilha.’
Cassie tensionou os músculos, preparando-se para lutar. Mas antes que ela pudesse se mexer… Ela ficou cega repentinamente.
Não foi porque alguém apagou sua marca dos Despertos e Mestres reunidos no salão, não porque ela foi vítima de alguma Habilidade debilitante. Não, foi muito mais simples — foi porque todas as suas marcas fecharam os olhos simultaneamente, mergulhando seu mundo na escuridão mais uma vez.
O salão se transformou em uma cacofonia de sons.
Todas as pessoas ali presentes usaram seus corpos sobre-humanos para se lançarem para a frente, destruindo os móveis e rachando o piso de madeira enquanto avançavam em sua direção. Antes mesmo que a alcançassem, porém, Cassie sentiu uma pontada de dor monstruosa — era o barman brandindo uma adaga encantada para pregar sua mão no balcão e imobilizá-la.
A arma tinha que ser, no mínimo, uma Memória Ascendente para perfurar a carne de um Santo. O próprio homem também devia ser bastante poderoso.
… Ainda bem que Cassie ativou sua Habilidade Desperta assim que entrou no salão. Portanto, a dor que sentiu foi apenas um fantasma conjurado pela promessa de um futuro próximo.
Ela moveu a mão, desviando da lâmina do barman, e estilhaçou o copo na cabeça dele. Ao mesmo tempo, deslizou da cadeira e chutou o pulso do avatar de Asterion, impedindo-o de enfiar uma lâmina fria entre suas costelas.
Quando ela finalmente conseguiu, os outros já estavam em cima dela.

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