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    Antes de deixar a muralha, Sunny lançou um último olhar para o assentamento lá embaixo.

    Brilhava na vasta escuridão da Costa Esquecida como uma ilha solitária de luz em um oceano sem luz. Ele podia ver as pequenas figuras dos prisioneiros vagando pelas ruas e sentir o movimento atordoado de suas sombras. Muitos já estavam reunidos na praça que servia de coração ao assentamento, onde Revel havia aterrissado após despencar do céu escuro.

    Outros estavam escondidos em sua moradia, aterrorizados com a visão das sombras que faziam guarda do lado de fora.

    Sunny soltou um suspiro.

    Ele estava tomado por um sentimento agridoce de ironia. Outrora, há muito tempo, a Costa Esquecida fora sua prisão. Agora, ele era seu governante. Naquela época, as pessoas enviadas para a Costa Esquecida ficaram presas no Castelo Brilhante, sem esperança de jamais escapar e retornar ao mundo desperto. A única saída era o Portal da Espiral Carmesim, protegido por seu terrível Terror — um inimigo que nenhum deles jamais ousaria derrotar.

    Agora, os cativos estavam enjaulados no campo de prisioneiros que Sunny havia construído, sem qualquer esperança de escapar. Mesmo que conseguissem escapar do olhar das sombras silenciosas e escalar as muralhas indestrutíveis, chegando à Cidade das Sombras… a única saída da Costa Esquecida era o Portal do Templo Sem Nome.

    E esse Portal era protegido pelo próprio Sunny — um ser infinitamente mais poderoso e temível do que o Terror da Espiral Carmesim jamais fora. Nesse aspecto, os prisioneiros estavam em situação pior. Mesmo assim…

    No geral, a situação deles era muito melhor do que a que os Adormecidos da Cidade das Sombras haviam enfrentado.

    Afinal, eles não precisavam arriscar suas vidas caçando terríveis Criaturas do Pesadelo para evitar a fome. Nenhuma Criatura do Pesadelo desceria das trevas para devorá-los. Eles não precisavam pagar tributo a um tirano sedento de sangue para sobreviver, nem eram forçados a se vender para servi-lo.

    Em vez disso, eles poderiam simplesmente desfrutar de total segurança, tendo à disposição tudo o que precisavam para viver. Sunny duvidava que alguém lhe agradecesse por sua benevolência. Ninguém apreciaria os esforços que ele e Nephis fizeram para evitar ter que massacrar esses peões de Asterion.

    Soltando outro suspiro, Sunny olhou para cima e sorriu.

    “Miseráveis ​​ingratos…”

    Os desgraçados não faziam ideia da sorte que tinham.

    Ao descer as muralhas da Cidade das Sombras, ele voltou sua atenção para a distante Bastion.

    Ali, a Ilha de Marfim havia retornado há muito tempo de sua campanha de guerra no Cinturão da Zona da Morte e na Cidade Eterna. Ela flutuava novamente nos céus azuis acima do Lago Espelhado, servindo como um símbolo de esperança para os milhões de cidadãos que seguiam com suas vidas muito abaixo.

    No dia do retorno da Ilha do Marfim, as ruas festivas estavam repletas de pessoas em festa. Elas apontavam para o céu com admiração e alegria, dando as boas-vindas à sua governante vitoriosa. Hoje, porém, o clima na cidade estava estranhamente contido.

    A notícia do que havia acontecido na noite anterior espalhou-se lentamente entre a população, e embora poucas pessoas se sentissem verdadeiramente assustadas, muitas compartilhavam uma forte sensação de inquietação.

    Nephis observava sua cidade da sacada da Torre de Marfim, com uma ruga de preocupação na testa. Sunny surgiu das sombras atrás dela, caminhando até ficar ao seu lado.

    “Como foi?”

    Ela lançou-lhe um olhar rápido.

    “Tão bem quanto esperávamos.”

    A reação da população era importante — afinal, minar sua crença em Nephis e no Domínio Humano diminuiria sua imunidade à crescente influência da Criatura dos Sonhos. Contudo, nesses primeiros dias, foi a reação das figuras mais influentes da humanidade que teve maior peso.

    Os cidadãos comuns podiam ouvir falar do súbito desaparecimento de um culto estranho e sentir-se um pouco perturbados com isso, para depois seguirem com suas vidas como se nada tivesse acontecido — mas aqueles que detinham o poder real certamente seriam mais curiosos e mais capazes de ligar os pontos.

    Eles jamais ignorariam um ataque em larga escala que ocorreu simultaneamente em várias regiões tanto do Reino dos Sonhos quanto do mundo desperto, especialmente porque o clã da Chama Imortal não só falhou em repeli-lo, como também pareceu ter sido pego de surpresa, assim como todos os outros.

    Existiam pouquíssimas forças capazes de perpetrar um ato de violência tão chocante… na verdade, tal força sequer deveria existir. Naturalmente, os defensores da humanidade suspeitavam que algo sinistro estava acontecendo.

    As memórias terríveis do Skinwalker ainda estavam frescas na mente de todos, então, no mínimo, eles estariam receosos com o surgimento de uma nova Criatura do Pesadelo de poder semelhante, pronta para semear o caos pelo mundo. Aqueles que se tornariam cautelosos com uma Criatura do Pesadelo desconhecida eram como um presente para Sunny e Nephis. O verdadeiro problema eram aqueles que eram um pouco mais perspicazes e podiam supor que a única entidade capaz de desferir um golpe tão sinistro no Domínio Humano… era o clã da Chama Imortal e sua própria governante.

    Nephis suspirou.

    “Meus subordinados são muito inteligentes. Eu deveria estar muito contente com a perspicácia deles, na verdade.”

    Sunny colocou as mãos nos ombros dela, massageando-os suavemente.

    “O quê? Estavam te olhando de um jeito estranho?” Ela assentiu com a cabeça e deu um leve sorriso.

    “Sim. Seishan, Andarilho da Noite, Despertar da Ruína… até mesmo Morgan. E muitos outros. Era quase fascinante ver o quão perturbadas estavam suas expressões e o quão erráticos seus desejos se tornaram. Afinal, eles só conseguiam enxergar uma explicação razoável para o que aconteceu na noite passada… mas essa explicação era assustadora demais para ser aceita.”

    A explicação, é claro, era que Nephis — a governante indiscutível da humanidade — havia perpetrado um ataque cruel contra a humanidade sem nenhum motivo aparente e agora o estava acobertando friamente.

    Sunny suspirou.

    “Então, o que você fez?”

    Na verdade, ele sabia o que ela tinha feito… bem, pelo menos o que ela deveria ter feito. Eles já tinham combinado isso antes.

    Nephis deveria ter culpado Sunny por tudo — pelo menos diante daqueles que sabiam de sua existência. Diante daqueles que o consideravam morto, ela deveria fingir que não sabia de nada. Virando a cabeça, Nephis olhou para ele por cima do ombro. Ela hesitou por alguns instantes e então disse em tom calmo:

    “Ah. Você pode estar um pouco zangado comigo.”

    Sunny ergueu uma sobrancelha.

    O que isso queria dizer?

    “O quê? O que você fez?”

    Ela teria contrariado o plano?

    Nephis permaneceu em silêncio por alguns instantes, depois deu de ombros.

    “Eu simplesmente não queria difamá-lo. Parecia uma pena, especialmente quando já existe um bode expiatório perfeito que poderíamos usar.”

    Sua voz era uniforme e sua expressão permanecia neutra. No entanto, Sunny percebeu que havia um tom calmo, porém frio, em sua voz — um tom que não estava presente antes.

    Ele a observou por um instante.

    “Em primeiro lugar… o que você quer dizer com me difamar? Eu realmente sequestrei aquelas pessoas!”

    Sunny fez uma pausa e depois tossiu.

    “Ah, mas obrigado. Agradeço a lembrança.”

    Ele sorriu. 

    Existiam amigos dispostos a ajudar a esconder um corpo. E, como se descobriu, também havia uma namorada disposta a ajudar a encobrir o sequestro de milhares de pessoas.

    Não foi simplesmente doce demais? Sim… doce era a palavra certa para descrever…

    Sunny balançou a cabeça, tentando se concentrar. Em segundo lugar, que bode expiatório perfeito você é…

    Seus olhos se arregalaram um pouco.

    “Você não fez isso.”

    Nephis olhou para ele em silêncio por um tempo antes de responder.

    “Sim, eu fiz. Por que não faria? Tantas pessoas desapareceram sem deixar rastro no coração do Domínio Humano, e todos os nossos aliados estão se perguntando quem seria capaz de perpetrar um ato desses. Não há muitos candidatos, então…” Ela desviou o olhar, dando de ombros.

    “Eu coloquei toda a culpa em Mordret.”

    Sunny olhou para ela incrédulo.

    ‘Que!’

    Percebendo seu olhar, Nephis falou em tom pausado:

    “O Rei do Nada é poderoso o suficiente para realizar um ataque desses, e sinistro o bastante para ser responsabilizado por ele. Sua reputação é tão terrível que eu só precisei dar algumas dicas sutis para que todos presumissem que ele estava por trás de tudo.”

    Ao contemplar a vibrante paisagem de Bastion, Nephis sorriu.

    “A culpa é dele por ser tão imprevisível e perverso. Além disso… ele pode querer se esconder nas Montanhas Ocas e evitar completamente esse conflito, mas eu nunca prometi não arrastá-lo para a luta contra a Criatura dos Sonhos. De um jeito ou de outro, ele terá que se envolver. É justo que ele comece fazendo a sua parte, me permitindo usar o nome dele.”

    Sunny soltou um suspiro pesado. Usar Mordret como bode expiatório! Isso foi… isso foi tão…

    Astuto.

    Por que ele não tinha pensado nisso antes? De repente, Sunny sentiu uma pontada de prazer vingativo.

    “Duvido que ele fique feliz com isso, no entanto.”

    Nephis olhou para ele, hesitou por alguns instantes e então ergueu uma sobrancelha em sincera confusão. Sua resposta foi neutra.

    “Por que eu deveria me importar se ele está infeliz?”

    Sunny piscou algumas vezes. Ela tinha razão.

    Ele não conseguia argumentar contra a lógica.

    “Não há, de fato, nenhuma boa razão.”

    Eles precisavam fortalecer o moral do Domínio Humano, e nada unia melhor as pessoas do que um inimigo em comum. Asterion era esse inimigo, mas, por razões óbvias, Sunny e Nephis não podiam usá-lo como espantalho — afinal, a mera menção a ele aumentaria seu poder.

    Então, o mínimo que Mordret podia fazer era servir de espantalho para eles. Por dentro, Sunny estava rindo.

    Foi uma risada digna de vilão, sem dúvida.

    ‘Ah, como as coisas mudaram…’

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