Capítulo 2734 - Escravo Capturado
Um homem estava sentado em uma cadeira de liga metálica barata no meio de uma sala vazia. Um círculo rúnico circundava a cadeira, e grilhões encantados prendiam seus pulsos. O círculo o impedia de invocar suas Memórias, enquanto os grilhões drenavam sua essência, dificultando a liberação de seu Aspecto.
Como era de se esperar, sua expressão era sombria e seus olhos estavam cheios de tensão.
A sala estava praticamente escura, com apenas metade dela iluminada pela luz das Memórias luminosas. Em frente ao círculo rúnico, outra cadeira estava de pé — esta ainda estava vazia, sugerindo que quem o havia sequestrado não planejava se livrar do prisioneiro tão cedo, pelo menos.
Ele se remexeu desconfortavelmente e então olhou para a pesada porta de metal.
“Tem… tem alguém aí? Não sei se vocês estão me ouvindo, mas saibam que sou um soldado da Legião da Chama Oriental. Meu desaparecimento não passará despercebido.”
Seu aviso foi recebido com silêncio. Então, porém, uma voz arrepiante ressoou na escuridão:
“Ah, sim… de fato, há alguém lá. Embora eu duvide que você fique feliz em enfrentá-lo, Desperto Yutra.”
O homem estremeceu, olhando freneticamente ao redor da sala. Ele estava disposto a jurar que não havia mais ninguém lá dentro, então de onde vinha aquela voz? Antes que ele pudesse dizer mais alguma coisa, porém, a porta se abriu e duas mulheres entraram.
Yutra congelou, os olhos arregalados, uma expressão de espanto atônito tomando conta de seu rosto. Ele literalmente se esqueceu de como respirar, o olhar fixo na mais alta das duas mulheres. Seu coração parecia prestes a explodir…
Afinal, não era todo dia que se encontrava uma deusa.
Diante dele, uma mulher que era como uma visão onírica de radiância celestial sentava-se graciosamente na cadeira vazia. Sua pele sedosa era da cor do marfim e impecavelmente lisa, seus cabelos prateados brilhavam na penumbra como uma cascata de luz solar pura. Seus impressionantes olhos cinzentos eram como dois lagos plácidos, fazendo-o sentir como se estivesse se afogando em suas profundezas sedutoras e insondáveis.
De repente, Yutra sentiu uma doce dor permeando seu peito. Ele se sentiu como um jovem ingênuo novamente, cheio de sonhos e desejos que ainda não haviam sido apagados pelos cruéis choques com a dureza do mundo. Era como se cada desejo e anseio que ele acalentava fosse reacendido com um fervor ardente, fazendo-o ansiar pelas coisas das quais havia desistido há muito tempo com uma intensidade quase irresistível.
Sua voz tremia.
“Madame Nephis?”
Ele sabia quem ela era, é claro. Não havia uma única pessoa no mundo que não conhecesse Nephis, do clã da Chama Imortal, a estrela guia da humanidade. Ele também sabia como ela era, tendo-a visto em inúmeras gravações. Mas nenhuma gravação poderia transmitir o brilho sublime e a presença divina de um Supremo vivo.
Seu choque foi tão grande que ele quase não percebeu a presença da segunda mulher, embora a beleza dela fosse tão delicada e encantadora que nenhuma palavra pudesse descrever sua formosura. Ela era Lady Cassie, Canção dos Caídos — uma Santa renomada que servia à Estrela da Mudança desde antes de seu Despertar.
De repente, Yutra se deu conta, com dolorosa consciência, de sua aparência externa. A deusa da humanidade parecia tão pura e maravilhosa, mesmo sentada naquela cela de liga metálica imunda… ele, por sua vez, havia sido sequestrado de sua cápsula de dormir no quartel militar durante uma longa e árdua campanha. Mesmo que a sujeira do campo de batalha não estivesse impregnada em seu corpo físico, ele ainda não estava em condições de ser apresentável.
Ele tossiu, constrangido, e então se obrigou a olhar para Estrela da Mudança sem se deixar cegar por sua maravilhosa aparência. Ela o estudou calmamente por alguns longos e surreais momentos, e então disse com uma voz que fez seu coração palpitar como um pássaro preso: “Desperta Yutra, presumo? Gostaria que tivéssemos nos conhecido em outras circunstâncias.”
“Sim. Ah? Quer dizer… sim.”
Foi só então que Yutra se lembrou de que fora aprisionado em uma cela peculiar após ser sequestrado. Uma expressão de profunda confusão surgiu em seu rosto.
“Peço seu perdão, Madame Nephis. Mas por que a senhora está aqui?”
Por um instante, ele cogitou a possibilidade de a deusa da humanidade estar ali para resgatá-lo pessoalmente.
‘Será possível um milagre desses?’
Yutra hesitou por um instante, depois perguntou em tom baixo:
“Não, melhor dizendo, por que estou aqui?”
***
‘Por que estou aqui?’
Sunny sentiu-se aliviado por estar escondido nas sombras, tornando-se uma delas em vez de manter a forma humana. Isso porque, se alguém o visse agora, perceberia uma expressão de completo espanto em seu rosto.
‘Que diabos?’
De todas as reações que ele esperava que o fascínio de Asterion aparecesse, essa definitivamente não era uma delas. O homem parecia… completamente apaixonado. Ele parecia um crente devoto que, um dia, abrira os olhos e se deparara com sua deusa e sua alta sacerdotisa bem diante de si.
Tal reação, é claro, era natural para a maioria das pessoas do Domínio Humano — mesmo desconsiderando a presença inerente dos Supremos e Transcendentes, Nephis e Cassie eram amplamente renomadas. Sua fama não tinha rival, então era de se esperar que pessoas comuns ficassem deslumbradas ao vê-las. Desperto Yutra, no entanto, não era um homem comum.
Ele era um agente de Asterion e, portanto, tanto Nephis quanto Cassie eram seus inimigos. Ou o homem era um dos melhores atores do mundo, ou não sabia que seu mestre e o clã da Chama Imortal estavam em conflito… o que seria estranho, considerando que nenhuma guerra poderia ser vencida sem que os soldados soubessem quem era o inimigo. Nephis permaneceu em silêncio por um instante, depois perguntou em tom calmo:
“Desperto Yutra, você realmente não sabe o motivo de estar aqui?”
O homem olhou para ela por um instante, depois pigarreou timidamente.
“Não, minha senhora. Eu realmente não faço ideia.”
Cassie, que estava atrás do ombro de Nephis, não se moveu. Sua expressão também não mudou — no entanto, sua voz ressoou na mente de Sunny, soando um pouco cautelosa:
[Ele está dizendo a verdade.]
Cassie, é claro, era o elo mental que os conectava a Kai, que estava do lado de fora da cela, ouvindo o interrogatório. Por um instante, Sunny ficou inseguro.
Será que… prenderam mesmo o cara errado? No entanto, no instante seguinte, Nephis dissipou suas dúvidas, cruzando as pernas enquanto lançava um olhar gélido ao prisioneiro. “Que estranho. Porque eu consigo sentir um desejo terrivelmente forte dentro de você.”
Mesmo que o homem não fizesse mais parte de seu Domínio, ela ainda podia sentir seu anseio agora que estavam frente a frente. Os cantos de sua boca se curvaram levemente para cima.
“O desejo de servir a alguém além de mim. De seguir a vontade da Criatura dos Sonhos.”
Tendo sido acusado de trair o Domínio Humano, Yutra — o mesmo homem que fora deslumbrado e apaixonado pelo aparecimento de Estrela da Mudança e Canção dos Caídos — deu-lhes um sorriso sincero e encantado.
Sua voz revelava uma profunda sensação de entusiasmo:
“Ah, Lorde Asterion! Sim, minha senhora, é claro. Servi-lo bem é o meu maior desejo!”

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