Índice de Capítulo

    Plutarco entrou na cabana de administração.

    O espaço exibia prateleiras de madeira carregadas com rolos de papiro e tabuletas de argila.

    Lycomedes ocupava uma mesa maciça no centro do recinto. O homem manuseava um estilete de bronze com a mão de seis dedos e gravava registros em uma placa de cera. Ele interrompeu o trabalho por um instante e indicou um banco para o visitante.

    O escriba sentou-se e observou a organização meticulosa dos mapas sobre a mesa. 

    Lycomedes pressionou um selo de cera quente sobre um documento oficial. O administrador trabalhava em um ritmo constante, sem desvios ou hesitações.

    — A organização deste lugar é surpreendente — Plutarco comentou e buscou sua própria tabuleta. — Vocês estruturam algo muito complexo em apenas um ano.

    Lycomedes deixou o selo de lado e enrolou o pergaminho. Então, encarou o mapa do Peloponeso e apontou para os portos vizinhos com o indicador extra.

    — Diga-me, Plutarco. O que acha deste mapa?

    O escriba se esticou no banco e fitou a Grécia de cima.

    — Bonito, e marcado por muitos xizes vermelhos.

    Lycomedes riu.

    — Nós somos um problema para os mercadores, Plutarco. Para os homens de negócios em Corinto ou Esparta, Nova Arcádia é apenas um refúgio de escravos fugitivos. Eles temem que o exemplo de liberdade daqui contamine suas próprias minas e campos. 

    Seu dedo indicador vagueou sobre as cruzes no mapa.

    — Estas marcações em vermelho estão sobre as Pólis que negaram qualquer relação conosco. É difícil manter uma cidade de pé apenas com ideais.

    Plutarco marcou em sua tabuleta uma anotação. Achara particularmente interessante como soava a última frase.

    Lycomedes suspirou, e isso o fez parar e perceber que sua atitude era rude. O escriba tossiu.

    — Certamente parece uma barreira difícil de romper. Vocês precisariam fornecer um bônus grande o suficiente para compensar o ônus de seus antecedentes.

    — Exato. — Lycomedes recostou-se na cadeira. — Temos sobrevivido como mercenários. Theo e Calixto lideram expedições para proteger caravanas ou realizar tarefas que as milícias oficiais das Pólis evitam.

    Plutarco olhou para as anotações sobre as taxas de câmbio na mesa.

    — Isso certamente não deve ajudar com a imagem de Cidade-Estado em ascenção. — Coçou o nariz. — O trabalho mercenário é um alicerce frágil, pois depende da desordem dos outros para prosperar.

    O velho administrador sorriu e assentiu.

    — Diga-me, o que acha da guerra que está por vir?

    Plutarco coçou a ponta do nariz mais uma vez e se debruçou um pouco mais sobre o mapa.

    — A ameaça de guerra cresce a cada dia. — Indicou o sul. — Sem um aliado de peso, Nova Arcádia será esmagada ou, no melhor dos casos, ignorada. Parece-me fundamental que passem a ser vistos como uma força política legitima antes disso.

    Lycomedes assentia em silêncio, até que Plutarco, um pouco constrangido pela própria fala, recuasse da mesa.

    — Não se envergonhe de dizer a verdade. É a mais pura verdade.

    O escriba sorriu e voltou a se sentar.

    — No entanto, me parece pela sua expressão que faltou algo em minha análise.

    Com um sorriso curto, Lycomedes se levantou do banco e caminhou até o outro lado da mesa, ao lado de Plutarco.

    — Precisamos de algo capaz de mudar a visão sobre nós em outros reinos. Algo que faça nossos nomes sair dos becos para alcançar os palácios. Que saia dos balbuceios de bêbados para integrar as canções dos poetas.

    Plutarco franziu o cenho e se recolheu um pouco mais sobre o banco.

    — Algo assim… — O escriba mostrou um sorriso amarelo, antes de engolir em seco. — Parece-me meio mitológico.

    Lycomedes soltou uma lufada pelo nariz. Sua mão subiu e se apoiou sobre o ombro do homem sentado. Seus olhos perspicazes atravessavam mesmo a mais dura defesa.

    — Mitológico. Sim. — Sua voz se tornou uma espécie de sussurro entoante. — Como um herói que derrota monstros e salva donzelas…

    Plutarco arregalou os olhos e mais uma vez buscou recuar no banco, mas a mão de Lycomedes o manteve parado no lugar. Seu sorriso agora parecia mais sorrateiro.

    O velho regente sustentou o olhar. Seu pragmatismo encontrou a curiosidade do escriba em um ponto de comum e estarrecedor entendimento.

    Então, afagou o ombro do colega com um sorriso mais brando e com um tapinha, deu-lhe as costas. Deu a volta na mesa e voltou à sua cadeira.

    — Um herói é um símbolo poderoso — Lycomedes admitiu. — Ele transforma uma rebelião em uma epopeia.

    Plutarco se levantou com um olhar estreito. Desafiador.

    Em resposta, Lycomedes relaxou na cadeira e desviou o olhar para o mapa com um sorriso que não alcançava os olhos..

    — Pense bem no que eu acabei de te dizer, meu caro cronista.

    — Não se preocupe.

    Com o rosto tenso e a mente cheia, o escriba atravessou os portais do salão.


    Silvo puxou as rédeas e interrompeu a marcha de sua montaria.

    Letônio e os patrulheiros desceram de suas selas logo em seguida. Um silêncio denso preenchia o espaço sob as copas das árvores. Nenhum pássaro emitia som e as folhas permaneciam imóveis.

    Silvo avançou a pé até a margem lamacenta de um riacho estreito. Abaixou o corpo e inspecionou as depressões escavadas na terra úmida. Letônio posicionou-se logo atrás.

    A lama exibia depressões violentas. Cascos gigantescos romperam a superfície macia e partiram raízes grossas pela metade. O diâmetro de cada marca superava as patas de um cavalo de guerra com imensa facilidade.

    Silvo mediu a profundidade de um dos buracos com a ponta dos dedos. Elevou a cabeça e seguiu a trilha de destruição até onde a visão alcançava entre os troncos.

    — Marchavam para o oeste. — A voz perdeu a tensão e soou aliviada. — Seguem direto para o fundo do vale montanhoso. O problema não é nosso.

    Os outros batedores relaxaram os ombros e começaram a preparar a volta. Letônio, no entanto, manteve o corpo rígido. Ele perscrutou a escuridão da mata com olhos ansiosos.

    — Senhor, o problema não é nosso hoje. — Os olhos recaíram sobre ele como pesos sobre os ombros — Deveríamos fixar uma patrulha nesta margem pelos próximos três dias. Apenas por segurança.

    Silvo levantou-se e limpou a terra das mãos. Balançou a cabeça em recusa. 

    — Nós não temos homens para luxos preventivos. Calixto exige o nosso grupo inteiro nas expedições de amanhã e depois. Não posso prender batedores aqui para vigiar a lama. Sinto muito Leto.

    Caminhou até o cavalo e puxou as rédeas. 

    Letônio permaneceu estático e lançou uma última olhada prolongada para o corredor de árvores esmagadas. Um vento frio soprou entre as árvores e esvoaçou os seus cabelos.

    — Vamos, Letônio! Monte no cavalo! — Silvo ordenou com o pé já no estribo.

    — Deixe-me fazer essa patrulha sozinho. — Letônio virou o rosto para o comandante. 

    Silvo estreitou o olhar, autoritário. A teimosia endureceu as feições do colega e a preocupação marcou cada palavra:

    — Eu cubro a margem à noite. Eu não acho nada agradável a ideia de uma manada de bisões gigantes nos surpreender durante o sono.

    Silvo encarou a apreensão real do amigo e estalou a língua.

    — Bisões gigantes que marcham em formação perfeita. Tch. — Silvo virou a montaria para a estrada principal de retorno. — Faça a patrulha noturna se isso acalma sua mente. Mas esteja pronto para a expedição.

    Letônio sorriu e assentiu em silêncio. Ele montou no cavalo e acompanhou o grupo de volta ao assentamento, e levou consigo o peso da suspeita que a floresta silenciosa lhe plantou na mente.

    Lá atrás, entre as sombras das árvores, uma clâmide negra esvoaçava, presa ao pescoço de uma misteriosa figura. Com um sorriso que escapava da cobertura de sua capa, ela partiu, mata a dentro.

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