Capítulo 704 - Nimbus
Devido à traição da Legião Aurora, eles haviam sido completamente excluídos da divisão de espólios de guerra da campanha até Garância. Enquanto a Legião Salamandra, apesar de ter recebido sua parte, Kamal havia sido morto em batalha, com sua morte tendo levado à deserção do General Lauren e à consequente derrota do flanco esquerdo. Se não fossem pelas Balistas Explosivas, o sujeito teria arrastado todo o exército de reconquista para o túmulo com ele, tornando sua falha tão ruim quanto a de Lauren.
Fernando não pôde evitar pensar que Wayne e os demais haviam subtraído seus bens, incluindo seu Orbe do Mago, como punição pela sua derrota, mas, obviamente, deveriam ter alegado à Legião Salamandra que não puderam recuperar sua Pulseira de Armazenamento. Sendo assim, não poderiam simplesmente vendê-lo por meios convencionais, ou isso atrairia a atenção e rancor deles.
Mesmo tentado a pôr suas mãos nesse item, o jovem Tenente sabia que não poderia. Não só o Orbe havia sido trazido pelo próprio Oliver, o que o impediria de fazer um lance por seu cartão prateado, como também havia o fato de ele já ter gastado muito nesse leilão.
O jovem Tenente sabia que o Major estava de olho nele, se demonstrasse ainda mais riqueza, certamente afloraria suas suspeitas.
Também havia o fato de ele ter chegado a Yandou com mais de 151 moedas de ouro e agora só restarem 91 moedas. Mesmo que ainda fosse muito dinheiro, o rapaz sabia que, se continuasse gastando dessa forma, logo sua fortuna pessoal seria reduzida a nada.
Sala VIP 1, 36,5 moedas de ouro!
Sala VIP 3, 37 moedas de ouro!
Sala VIP 2, 40 moedas de ouro!
Após ultrapassar a marca das 30 moedas de ouro, as Salas Compartilhadas não se envolveram mais. Logo, a disputa silenciosa se resumiu a um enfrentamento das Salas VIPs, que ocorria de forma ininterrupta e frenética.
A plateia abaixo apenas observou os painéis luminosos de cada uma delas acendendo-se uma após a outra. Mesmo que parecesse algo bobo e monótono, ninguém se atrevia a fazer qualquer ruído. Não eram apenas simples lances, mas a briga entre três gigantes.
Vendo o Orbe chegar a 40 moedas, Oliver sorriu, jubilante. Esse já era o preço máximo fora do Mercado Negro, qualquer coisa além disso seria um lucro inesperado.
De repente, um lance inusitado surgiu.
Sala Compartilhada 15, participante 2, 50 moedas de ouro!
Essa ação fez todos ficarem chocados, alguém das Salas Compartilhadas realmente estava desafiando as VIPs!
Essa Sala 15 de novo. Otelo pensou, surpreso.
O sujeito não pôde deixar de fazer uma anotação mental para conferir quem eram os participantes. Essa sala sozinha havia despejado uma enorme montanha de moedas de ouro em sua Casa de Leilões de Yandou e ele deveria pelo menos fazer uma visita e tentar estabelecer alguma conexão com eles.
Dentro da sala 15, todos não puderam deixar de olhar para o velho de aparência bondosa e verruga no nariz, que apenas sorria fracamente.
“Espero que não se importe, mas vou ficar com isso”, declarou, olhando para Oliver.
O Major ficou boquiaberto, mas rapidamente voltou a seus sentidos.
“É claro que não me importo”, respondeu, quase sorrindo.
Por que eu me importaria em receber 10 moedas de ouro além do preço de mercado?! pensou, jubilante. Inicialmente, o sujeito estava desconfiado do velho e irritadiço de sua proximidade com o Tenente do Batalhão Zero, mas agora não pôde deixar de pensar na possibilidade de o homem ter feito uma boa oferta devido a isso.
De repente, Fernando recebeu uma mensagem:
“Podemos considerar isso como uma compensação por antes.”
O jovem Tenente virou o rosto, olhando para Niesttra de forma estranha.
Do que ele está falando? pensou, confuso. Ele não lembrava de nada que o velho tivesse feito para ele precisar pagar a mais por isso ou compensá-lo de alguma forma. No entanto, logo um estalo surgiu em sua mente. Pode ser que ele…
Com um olhar arregalado, o rapaz focou-se no velho, engolindo em seco. A única coisa que o sujeito havia feito por ele era arrematar o Cristal de Carga. Não havia sentido em pedir desculpas por isso, a não ser que ele próprio fosse o dono daquilo!
Ao pensar em como o sujeito havia lhe entregado um Brasão de Armazenamento com informações sobre como produzir Cristais de Carga, uma conclusão sombria pairou em sua mente.
Inicialmente, ele sequer cogitou essa possibilidade, já que acreditava que seria proibido fazer lances por seus próprios itens, mas ao parar para pensar, não havia motivos para ser. Mesmo que alguém arrematasse o próprio item, a casa de leilões ainda ganharia sua comissão e o único que perderia com isso seria o próprio dono.
Fernando respirou fundo, tentando se acalmar, ligar o velhinho bondoso ao seu lado às explicações que ele próprio havia dado sobre o quão brutal e desumana era a produção dessas coisas lhe causou arrepios. Talvez ele não estivesse contando histórias das quais ouviu falar, mas de coisas que ele próprio havia feito?
É melhor eu apenas esquecer sobre isso… Fernando pensou, suando frio.
Mesmo se suas conclusões fossem reais, não havia sentido em ser moralista quando se é fraco. Além disso, essa pessoa não era um velho qualquer, mas Niesttra Domus! Alguém influente não só dentro da cúpula dos Leões Dourados, mas também entre as Grandes Legiões!
Enquanto Fernando pensava nisso, as pessoas abaixo ficaram cheias de expectativas, aguardando o próximo movimento das Salas VIPs, mas mesmo após esperarem por um longo tempo, nada ocorreu.
Após alguns momentos, Otelo Biliark, que também estava ansioso, suspirou, entendendo o recado. Eles haviam desistido.
“O Orbe do Mago foi vendido para o participante 2 da Sala Compartilhada 15!” O sujeito falou.
No fim, Oliver havia lucrado 108 moedas de ouro, uma moeda a mais que o valor total de mercado dos itens. Mesmo com a comissão de 5% da casa de leilões, o sujeito sentiu que havia feito um bom negócio e que Wayne ficaria satisfeito com isso.
Nesse momento, Otelo, que estava suado, levantou sua voz mais uma vez.
“Faremos uma pequena pausa para manejo dos próximos lotes. A próxima sessão começará em quarenta minutos! Para os convidados da plateia, temos uma área de buffet seguindo à direita e, para aqueles nos pisos superiores, há um espaço reservado no fim do corredor para quem quiser aproveitar uma boa refeição.”
Com a pausa dada, Wendy levantou-se.
“Vamos indo.”
Magnólia e Eduardo seguiram a garota, enquanto Niesttra também levantou-se.
“Bem, acho que seria interessante dar uma olhada por aí”, o velho falou, de forma convidativa, ao olhar para Fernando, mas o rapaz apenas fingiu não ouvir.
Se o sujeito realmente fosse um fabricante de Cristais de Carga, alguém que capturava Humanos e os usava de baterias vivas, então seria melhor cortar relações. Mesmo que não pudesse fazer nada quanto aos seus atos, poderia escolher não se associar.
Vendo isso, o velho Alquimista apenas deu um sorriso e seguiu seu caminho.
No fim, todos saíram, restando apenas Oliver, Lerona e Fernando. O rapaz pálido olhou na direção do Major, esperando que ele dissesse algo. Eles já estavam ali há algumas horas e seu estômago começou a roncar ao ouvir sobre comida.
O sujeito gigante apenas ignorou os dois, recostando-se na cadeira, cruzando os braços e fechando os olhos. Sua missão naquela cidade estava acabada e ele não tinha mais negócios a tratar ali.
“Se querem sair, podem ir, mas não esqueçam onde estamos. Nesse lugar tem muita gente perigosa. Por mim, eu iria embora agora, porém eles não permitem a saída antes do fim do leilão, então partiremos assim que isso acabar”, falou, então abriu um dos olhos, focando especialmente no jovem Tenente. “Então não causem problemas, eu não vou limpar a merda de vocês, entenderam?”
Fernando entendeu que o aviso era destinado a ele, apesar de não concordar com isso, assentiu.
Lerona ao seu lado, não sabia o que dizer, já que sentiu que estava sendo tratada como uma criança apenas por estar ao lado do rapaz pálido. Mas, ao pensar com cuidado e lembrar do trabalho que o jovem Tenente sempre lhe causava, pensou que até uma criança birrenta seria mais fácil de lidar.
Logo os dois partiram, seguindo na direção indicada. O rapaz pálido e a Capitã ruiva avançaram pelos corredores até uma área luxuosa e bem iluminada. Assim que entraram, viram várias enormes mesas, repletas de inúmeros tipos de comida.
O grupo de Wendy já estava no local, assim como Niesttra, cada um já estava conversando com outras pessoas bem vestidas como se fosse uma festa comum e não um leilão do submundo.
Lerona que viu aquilo, franziu o cenho. Como uma militar, ela não estava familiarizada com esse tipo de ambiente
“Eu vou ao banheiro”, a mulher ruiva falou, saindo, deixando o rapaz pálido sozinho no local.
O jovem Tenente olhou em volta e numa das mesas viu pequenas tortinhas redondas, que lembravam vagamente empanadas de frango. Sua boca encheu-se de saliva, enquanto seu estômago reagiu, roncando.
Ele não havia tido uma única refeição decente nos últimos tempos, então só de imaginar saborear algo que havia comido na infância, tendo provado em festas de aniversário de colegas de escola com melhores condições financeiras, não pôde resistir.
Sem hesitação, pegou uma delas. Mordendo-a, pôde sentir um turbilhão de sabores em sua boca.
Porra, isso é muito bom! Sendo um lugar tão luxuoso, o rapaz sabia que tudo ali deveria ser de primeira, mas não esperava uma iguaria tão boa.
Apesar de não ser o sabor que esperava e não ter ideia do que era feito, apenas sentindo uma leve textura de algum tipo de carne macia e levemente porosa, pensou que ainda era algo completamente delicioso.
A garota de cabelos azuis, Wendy, ao ver o rapaz sozinho e ver Magnólia conversando com um velho de uma Pequena Legião que a reconheceu, caminhou em sua direção.
Eduardo, que estava ao seu lado, também havia notado a chegada do rapaz e o olhou cheio de raiva, mas ao notar a intenção da garota, assustou-se.
“Senhorita, você não deve se envol-”
“Cale a boca”, a garota ordenou, sem sequer virar seu rosto, fazendo o sujeito simplesmente travar no lugar, sem ousar interferir.
Caminhando calmamente, logo chegou ao seu lado, olhando para o bufê.
“Você realmente é estranho”, Wendy declarou, encarando o rapaz, que enfiava uma empanada após a outra na boca, suas bochechas mal podendo compactar a comida sendo mastigada.
Percebendo a garota, o jovem Tenente diminuiu o ritmo de mastigação, quando apertou as sobrancelhas levemente. A garota havia dito para ele não cruzar seu caminho novamente, mas agora ela mesma tinha vindo até ele.
Forçando-se a engolir parte do que estava em sua boca, logo respondeu a ela:
“Só porque comprei as Poções Instáveis? Ou por que comprei o Cristal que sua protetora queria?” O rapaz perguntou, com um rosto indiferente, não interessado em se envolver com essa menina mimada e louca.
Ouvindo isso, a garota ficou um pouco confusa, quando balançou a cabeça, em negação.
“Não, eu me refiro a isso”, disse, apontando para a mesa, cheia de empanadas. “Nunca vi ninguém comer mini tortas de testículos de Nimbus com tanta vontade.”
Quando Fernando ouviu isso, sua expressão travou no lugar, assim como sua mandíbula.

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