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    O poderoso ataque de Lehard havia destruído muitos dos monstros e fez alguns dos Devoradores parecerem intimidados, quando recuaram para os becos laterais, escondendo-se.

    A cena brutal diante de seus olhos fez Fernando e os demais Guardas, que estavam relativamente próximos, pararem seus passos, completamente chocados. Ele realmente havia matado cinco pessoas sem sequer piscar!

    Mesmo os Magos que estavam no apoio, que não estavam particularmente preocupados com a sobrevivência de civis, ficaram sem reação.

    Oliver e Lerona também tinham expressões estranhas, enquanto observavam essa cena de suas posições.

    Vendo os olhos sem vida da mulher e dos outros homens, que ainda olhavam em sua direção, agora estirados no chão, sem vida, o jovem Tenente ficou paralisado por um instante, observando as costas da figura esguia vestida de preto, logo uma fúria inundou seu peito.

    O que esse filho da puta fez?! pensou, cheio de raiva.

    Apesar de muitas pessoas morrerem ali, com ele não podendo salvar a todos, eram mortes ocasionadas por Criaturas das Trevas. Mas esses cinco civis haviam morrido pelas mãos de alguém que deveria ser um aliado!

    Como se notasse o olhar dele, Lehard lentamente virou-se em sua direção. Seu par de olhos negros focando especificamente em Fernando.

    “Que pena, eles estavam no caminho”, falou, com um sorriso bizarro em seu rosto. “Pobres  avalonianos. Mas o fato de terem juntado tantos inimigos num único lugar já fez suas vidas valerem a pena.”

    Ouvindo isso, o jovem Tenente sentiu suas mãos tremerem, quando apertou seu punho com força. O sujeito estava claramente falando isso para ele, como se estivesse o provocando.

    Nesse momento, Fernando entendeu. Lehard já havia percebido que ele não era realmente relacionado a Niesttra e havia deliberadamente ajudado Wendy, da Torre Branca. Vendo seu esforço em salvar os civis, o homem havia matado essas pessoas propositalmente.

    O jovem Tenente o encarou em silêncio, com um rosto extremamente frio. Cada grama do seu corpo clamava para matá-lo, mas mesmo sentindo essa sensação abrasadora, forçou-se a respirar fundo.

    Fernando sabia que não era nem de longe capaz de sequer prejudicá-lo e, se tentasse, acabaria morrendo inutilmente. Além disso, poderia acabar envolvendo Oliver e Lerona, que certamente não ficariam parados.

    Sendo um poderoso General das Grandes Legiões, mesmo Oliver não seria páreo. Além disso, ele não faria outras pessoas arriscarem suas vidas apenas por causa dos seus sentimentos e convicções pessoais.

    No lugar de agir de forma impensada, como normalmente faria, Fernando parou e respirou fundo. Ele não poderia dar motivos para esse sujeito fazer algo contra ele, no lugar disso, decidiu optar por uma abordagem diferente.

    Olhando ao redor, o jovem Tenente viu que, devido ao grande número de Criaturas das Trevas mortas de uma única vez, as demais cessaram suas investidas, observando-os de longe com hesitação. Mesmo que fossem seres ‘mortos’ e sem amor a suas próprias existências, ainda conseguiam julgar uma situação desfavorável e não ousaram avançar.

    Aproveitando-se desse curto intervalo, Fernando deu um passo à frente, em direção a Lehard.

    “Senhor. Mesmo que sejam avalonianos, ainda são civis. Como militares, é nosso dever garantir a segurança dessas pessoas”, declarou, com um semblante impassível.

    Suas palavras não eram meramente da boca para fora. Apesar de considerar que foi praticamente obrigado a ser um militar em Avalon logo após chegar nesse mundo, isso não mudava suas obrigações. Se as Legiões não protegessem a população, quem o faria?

    Ele não estava realmente disposto a morrer por outros, mas ainda cumpriria com seus deveres.

    Lehard e mesmo os Guardas ao redor do jovem pálido ficaram surpresos com suas palavras repentinas.

    “Está me dizendo que cometi um erro?” O sujeito indagou, seus olhos negros focando-se nele. “Quem você pensa que é?” O sujeito esguio falou, com seus olhos negros presos ao rapaz como um predador observando uma galinha.

    Até os guardas atrás do rapaz pálido instintivamente recuaram um passo.

    O que ele pensa que está fazendo! Oliver pensou, ao ver a cena que ocorria não muito longe.

    Lerona, por outro lado, apenas suspirou.

    Vendo o sujeito o encarar de forma estranha, Fernando engoliu em seco, sabendo que, se antes Wendy era a presa principal desse maníaco, ele havia provavelmente saltado em sua lista de prioridades, o que o fez sentir algum receio. Apesar disso, não voltou atrás.

    O jovem Tenente sabia que não era capaz de fazê-lo pagar por isso, mas poderia ao menos ferir seu orgulho.

    “Absolutamente não, senhor. Apenas ouvi que esse era um dos decretos centrais do Conselho Superior, enfatizando o dever das Legiões na proteção dos civis, mas, aparentemente, eu estava enganado. Você, como um representante de uma das Dez Grandes Legiões, certamente é mais versado que eu.”

    A expressão de Lehard mudou ao ouvir isso, as palavras do rapaz eram como um enorme tapa em seu rosto. Uma declaração velada de que o sujeito era um criminoso perante as leis do próprio Conselho Superior.

    Aqueles entre os Magos, com ouvidos apurados, também ouviram; afinal, Fernando havia feito questão de falar suficientemente alto.

    Lerona e Oliver, que estavam à esquerda e à direita, ficaram sem palavras diante da ousadia do jovem Tenente. Ele realmente estava acusando um General de uma Grande Legião de cometer crimes!

    “Ei, aquele garoto está certo. O Coruja não está indo longe demais?” Uma voz masculina soou, parecendo incomodada.

    “Tsk, esses membros das Grandes Legiões sempre quebrando as próprias leis…” outro disse, descontente.

    “Ele realmente matou aquelas pessoas a troco de nada… Não que eu me importe, mas mesmo assim…”

    Apesar de as pessoas apenas murmurarem entre si, Lehard, com seu Físico apurado, pôde ouvi-los com clareza.

    Mesmo que ele não se importasse com a opinião dessas pessoas ou com sua própria reputação, o sujeito sabia que não estava ali apenas como Lehard, a Coruja, mas como um representante de Karmalía.

    Investigações sobre a morte de civis dificilmente eram apuradas, principalmente se tratando de avalonianos de uma cidade no fronte durante a invasão de Criaturas das Trevas. Porém, havia muitas testemunhas. Se essas pessoas saíssem falando demais, seria problemático e poderia manchar a reputação de Karmalía, que já vinha enfrentando dificuldades de aceitação entre a população.

    Sabendo disso, Lehard não atacou Fernando ou o repreendeu, apenas forçou um sorriso em seu rosto.

    “Não, você está certo quanto a isso. É nosso dever proteger os civis. No entanto, eles surgiram de repente na área de ataque de forma abrupta; não havia muito que eu pudesse fazer a respeito. Foi uma infeliz fatalidade.”

    Fernando olhou seriamente para o sujeito, a raiva coçando em seu peito. O sujeito realmente se atrevia a mentir de forma tão descarada!

    De repente, as Criaturas das Trevas, que haviam brevemente recuado, começaram a se acumular mais uma vez no fim da rua principal, com ainda mais delas vindas da região Sul. Uma verdadeira horda estava se formando, sendo possível ver um mar negro avançando em direção à casa de leilões.

    Todos imediatamente voltaram suas atenções para isso, assustados.

    O jovem Tenente queria continuar sua discussão com o sujeito, mas cerrou os dentes. Eles simplesmente não tinham tempo para isso!

    Olhando para trás, Fernando notou que os Magos no ar e em pontos estratégicos já começaram a mostrar sinais de que abandonariam suas posições e mesmo os Guardas ao seu redor tinham olhares assustados.

    BOOM!

    No topo do prédio, um dos Generais da Casa de Leilões de Yandou explodiu uma bola de fogo para o alto; esse era um sinal de que sua missão estava concluída e eles deveriam se preparar para recuar!

    “Merda, já era hora!” Um velho Mago, um dos membros das Salas Compartilhadas, exclamou, quando não perdeu um segundo, levantando voo em direção ao prédio. Muitos outros seguiram o exemplo.

    Lehard tinha um olhar fixo nessas pessoas, seus olhos negros guardando os rostos daqueles que saíram primeiro. Mesmo que ele fosse o ‘comandante’, nenhum deles pediu sua autorização para sair; isso significava que eles sequer respeitavam sua autoridade.

    No entanto, muitos pareciam ser ex-militares ou membros de Legiões, cientes das regras e costumes, aguardaram em silêncio a ordem do sujeito.

    “Recuar!” Lehard gritou quando, antes de voar, deu uma última olhada em Fernando. Seus olhos negros focados no rapaz, quando um sorriso sinistro surgiu em seu rosto. Então levantou a palma da mão, apontando para o jovem Tenente e os Guardas ao seu redor.

    Fernando congelou no lugar, assim como as pessoas em seu entorno.

    Esse desgraçado, ele quer me matar aqui mesmo?! perguntou-se, completamente chocado. Sem hesitar, ativou seu Disparo Neural ao máximo, ao mesmo tempo em que procurou o Pergaminho de Defesa que comprou da Eterna Viajante em sua Pulseira e se preparou para um contra-ataque. Ele não sabia se seria capaz de sobreviver ao ataque de um monstro como esse, que havia aniquilado tantas Criaturas das Trevas com facilidade, mas precisava tentar!

    Pisca!

    Uma figura gigante surgiu bem à frente do rapaz, ficando entre os dois. Este era Oliver!

    Lehard ficou surpreso por um momento, quando seu sorriso lentamente diminuiu. Ambos os homens se encararam, com o Major permanecendo ali parado, em completo silêncio, como uma muralha sólida e inabalável.

    Era claro que o sujeito não tinha chances de vencê-lo, mas sua expressão dizia que, mesmo que perdesse essa luta, lhe causaria algum prejuízo.

    O General de Karmalía continuou encarando-o por alguns segundos, quando lentamente desceu seu braço, parecendo desapontado. Então, sem dizer uma única palavra, levantou voo.

    Fernando suspirou, aliviado.

    “Major Oliver, eu…”

    Bam!

    Antes que o rapaz pálido pudesse dizer qualquer coisa, um soco o atingiu em cheio no rosto, fazendo-o cambalear e cuspir um bocado de sangue.

    “Já estou farto da sua insubordinação, Tenente Fernando. Eu pude tolerar, no caso com o General Herin, pois suas contribuições foram maiores que seus erros, mas, se continuar agindo dessa forma, eu mesmo o matarei!”

    Fernando, que mal havia se recuperado do golpe, balançou a cabeça, levemente atordoado, tentando recuperar o equilíbrio, quando olhou para Oliver. Seu rosto inexpressivo, mesmo diante da agressão repentina. O jovem Tenente sabia que o sujeito claramente havia pegado leve nesse soco.

    “Sim, senhor!” respondeu, com uma voz calma, enquanto levava o punho ao peito, em uma saudação militar.

    Esse garoto… Oliver pensou, irritado.

    A ação do rapaz parecia ser apenas uma ação de subordinação e acato, mas, na verdade, tratava-se de uma leve alfinetada. Era como se estivesse dizendo que, como militar, ele estava fazendo valer as leis do Conselho Superior e apenas havia apontado isso.

    “Temos que ir!” Apesar da irritação, o Major sabia que não poderiam perder mais tempo quando levantou voo. Mas o jovem Tenente continuou em solo, observando-o. “O que está fazendo?”

    Fernando o olhou por um momento e então para os Guardas ao seu redor, que tinham olhares de pânico em seus rostos ao verem todos partindo com Magia de Levitação. Obviamente, nenhum deles tinha capacidade de voar!

    “Vou seguir com os demais a pé, o senhor pode ir na frente”, declarou.

    Vários dos homens ao redor, incluindo os três que lutaram desde o início ao lado dele, ficaram emocionados ao ouvirem isso. Eles sabiam que não passavam de buchas de carne para os Magos e há muito tempo tinham entendido que eventualmente seriam deixados para trás. Mas, mesmo sabendo disso, a maioria havia optado por lutar até aquele momento.

    Mesmo sendo tropas particulares que serviam às três empresas comerciais, comparáveis a mercenários sem qualquer dever institucional, todos eles haviam se estabelecido em Yandou, formado famílias ali e tomado aquele lugar como seu lar.

    Como Guardas de Yandou, suas residências ficavam na região Norte. Eles sabiam que, se deixassem de bloquear a rua central, logo as Criaturas das Trevas inundariam o restante da cidade. Seu objetivo ali era ganhar tempo para que a população, mais especificamente para suas próprias famílias, tivessem uma chance de escapar.

    “Senhor, eu sou grato por isso, mas você deve ir”, um dos homens, aquele que Fernando havia derrubado, disse em sua direção, com uma expressão séria, quando se voltou para a avalanche de Criaturas das Trevas que avançava e logo chegaria até a sua posição. “Nós manteremos essa posição!”

    O jovem pálido ficou sem palavras ao ouvir isso, achando loucura, mas logo sua expressão mudou ao ver os rostos resolutos desses homens, acalmando-se.

    Essas pessoas sabiam que seriam mortas, mas mesmo assim optaram por manter suas posições, para que todos pudessem fugir. Isso não era um ato impensado, mas uma decisão que haviam tomado há algum tempo!

    “N-não, eu não vou ficar, nunca concordei com isso!” Um dos homens gritou, em pânico. Diferente dos demais, que tinham famílias constituídas e viviam ali há anos, ele era solteiro e só recentemente havia se juntado à Guarda da cidade. “Eu vou emb-”

    Perfura! Perfura!

    Antes que pudesse continuar, outros dois ao redor o seguraram, cada um de um lado, quando os outros ao redor o esfaquearam sem piedade. Seu corpo caiu no chão, enquanto ele desesperadamente se agarrava à perna de um deles, com uma expressão desesperada, como se perguntasse o porquê daquilo.

    O Guarda que falava com Fernando apenas olhou para isso de forma calma, quando seu olhar mais uma vez pousou no rapaz pálido.

    “Como eu disse, nós vamos ficar. Você deve ir. Essa não é a sua cidade, não faz sentido que morra conosco.”

    O jovem Tenente tinha uma expressão complicada. Ele encarou os homens por um momento, com um rosto inexpressivo, então começou lentamente a levitar, indo de encontro ao Major Oliver.

    Antes de partir, ele deu uma última olhada para os homens abaixo. Em resposta a isso, todos imediatamente levaram o punho ao peito, saudando-o.

    Mesmo que não fossem militares, sentiram que o rapaz que os manteve vivos até aquele momento era digno de sua primeira e última saudação.

    O jovem Tenente hesitou por um momento, quando assentiu em silêncio, partindo para os céus, sem olhar para trás.

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