Capítulo 716 - A seus serviços
No topo do prédio de Yandou, Otelo Billiark tinha um olhar calmo, enquanto observava todos os Magos se reunindo.
Não demorou muito para que aqueles na rua lateral, liderados por Melanie, bem como os da rua central, por Lehard, chegassem.
“Tem certeza de que pegaram tudo?” Otelo perguntou, em direção ao seu funcionário de confiança.
“Sim, senhor. Quase tudo que poderia ser transportado.”
Ouvindo isso, o sujeito assentiu. Mesmo que parte dos bens da Casa de Leilões, incluindo objetos com Matrizes complexas que não poderiam ser movidos, fosse deixada para trás, ainda era um prejuízo aceitável. Ele estava confiante de que, contanto que tivessem bens suficientes para recomeçar, as três empresas comerciais logo obteriam tudo que perderam nesse dia de volta.
“E quanto aos refugiados?” O leiloeiro indagou, com uma expressão calma.
“Está um pouco caótico lá dentro, mas tem quase duas mil pessoas.”
Ao ouvir isso, um sorriso confiante se formou em seu rosto.
“Senhores”, Otelo falou, em voz alta, chamando a atenção para si. “Nosso comboio está pronto na parte de trás, estaremos saindo agora. Conforme combinado, o pagamento será feito assim que estivermos fora da cidade.”
Muitos dos presentes não pareciam contentes ao ouvir isso.
“Você planeja sair a pé?” Um homem idoso indagou, enquanto franzia a testa.
“Infelizmente, sim. Temos algumas Caixas de Transporte, com itens delicados.”
“Foda-se seus itens. Se quer morrer, é problema seu, mas nos pague primeiro!” Um homem em torno dos quarenta falou, irritado.
Otelo forçou um sorriso em seu rosto.
“O acordado era que o pagamento seria feito quando eu e meus homens estivéssemos fora da cidade.”
“Tem um maldito exército de Criaturas das Trevas chegando. Você está louco se pensa que iremos lutar até a morte por suas malditas moedas de ouro!”
“Isso mesmo! Nenhum ouro vale uma morte certa!”
Muitas pessoas expressaram sua revolta, furiosas.
Nesse momento, Fernando, Oliver e Lerona, que estavam atrasados, chegaram ao terraço do prédio, apenas a tempo de ouvirem a última parte.
Ao ver todos parados ali, conversando e perdendo tempo, enquanto tantos homens e mulheres haviam ficado para trás para segurar as Criaturas das Trevas, o rosto do jovem Tenente ficou escuro.
“Não se preocupem, senhores. Não estou pedindo que sacrifiquem suas vidas; eu tenho um plano”, Otelo disse, quando caminhou lentamente em direção ao parapeito do terraço. Vendo o mar de Criaturas das Trevas que se aproximava, seus olhos se estreitaram. “Criaturas das Trevas são seres intrigantes e assustadores, mas simplórios. Com tanto que tenham comida farta à sua frente, a maioria delas não costuma pensar muito.”
“Comida? Do que você está falando?”
Otelo sorriu, quando se virou para as pessoas, então, abrindo ambos os braços, seus polegares se voltaram para baixo.
“Bem aqui, em nossa Casa de Leilões de Yandou. Abaixo de nós, em seu interior, há em torno de duas mil pessoas reunidas. O que vocês acham que as Criaturas irão escolher? Perseguir um punhado de Humanos, ou parar e se fartar com milhares de presas dóceis e indefesas? Nossa saída da cidade será sem riscos, eu garanto!”
Ao ouvirem isso, todos no local ficaram completamente pasmos. Mesmo Lehard, que não se importava muito com a vida de civis e até havia matado alguns, ficou chocado com essas palavras ousadas.
Isso não se tratava apenas de um mero assassinato; isso era praticamente um genocídio!
A expressão de Fernando era completamente lívida. Ele não estava com raiva ou muito menos zangado, mas assustado com o nível de crueldade que essa pessoa tinha.
Esse maldito… Ele não deveria ser uma das pessoas que protegem Yandou? Por que ele está falando tão casualmente em sacrificar milhares delas?!
Mesmo Oliver e Lerona estavam atordoados, não imaginando que o leiloeiro e membro dos Biliark iria propor tal maluquice.
No entanto, apesar da crueldade em sua fala, muitos dos presentes começaram a considerar seriamente a proposta. Eles já haviam lutado e não queriam gastar mais mana e muito menos arriscar suas vidas. Se outros tivessem que sofrer em seu lugar, parecia algo razoável.
“Quem garante que essas coisas irão parar aqui e não seguir nosso comboio?” Um homem velho perguntou.
Otelo sorriu em resposta a isso.
“As Criaturas das Trevas sentem o cheiro da vida. Num lugar com tanta gente reunida, é claro que eles serão atraídos até lá como mariposas em direção à luz. Além disso, eu selei a entrada principal e as saídas de emergência foram fechadas, para garantir que nossas iscas permaneçam onde estão. Então, tudo que resta é que entrem lá e se alimentem. Isso nos dará tempo suficiente. Todos aqui concordam?”
Um silêncio estranho, indiferente e até gelado, permeou entre todos os presentes. Mesmo que ninguém houvesse dito nada, apenas se entreolhando e se encarando, seu silêncio parecia ser resposta suficiente.
Vendo aquilo, com todos concordando em matar quase duas mil pessoas apenas para ganhar um punhado de ouro e alguns minutos, Fernando tinha um olhar gelado em seu rosto.
Ele encheu seu peito de ar e estava prestes a dizer algo, mas uma mão pesada pousou em seu ombro. Era Oliver, que fez um sinal de negativo com a cabeça. Lerona, que estava ao seu lado, pareceu dizer o mesmo com seu olhar.
Atualmente, eles estavam cercados de pessoas de nível Capitão, Major e até Generais. O que aconteceria com um simples Tenente que tentasse contrariá-los? A resposta para isso era simples e Fernando sabia bem disso.
Apertando as mandíbulas com força, assim como os punhos, o jovem Tenente não teve escolha senão se calar.
Mesmo sendo tão fortes, mesmo tendo a força necessária, esses desgraçados só pensam em si próprios! Legiões e Grandes Legiões que defendem as pessoas? Para o inferno com isso, não passam de desgraçados egoístas! pensou, cheio de ira.
Fernando sempre soube que aqueles no poder dificilmente agiam em prol dos fracos, mas quase sempre, quando há ganhos ou perdas para si. Essa sempre foi a lei que regia o mundo na Terra e era ainda mais verdadeira e cruel em Avalon.
No entanto, mesmo sabendo disso, no fundo, ele ainda tinha vagas esperanças de que, dentre as Legiões ou mesmo Grandes Legiões, ainda haveria aqueles que pensariam nas pessoas comuns, gente simples como ele já fora um dia.
Mas o silêncio cruel e seus rostos indiferentes provaram mais uma vez que ele estava errado em ter esperanças.
“Se esse é o plano, então vamos logo com isso. Não tenho o dia todo!” Melanie, a Eterna Donzela dos Falcon, falou.
Com o aval de um dos membros das Grandes Legiões, todos se voltaram para Lehard.
“Tanto faz”, o sujeito murmurou, sem se importar. Mesmo que a morte de duas mil pessoas fosse algo que tivesse lhe pegado de surpresa, não era como se fosse uma ideia ruim de seu ponto de vista.
Clap!
Batendo com as duas mãos, Otelo sorriu.
“Então estamos acertados, vamos indo! O comboio está parado no lado norte!”
Não demorou muito para que todos começassem a ir na direção indicada.
Enquanto todos se apressavam, Fernando ficou parado no local, hesitante.
Não só Raul não havia aparecido até aquele momento, o que provavelmente significava que ele já estava morto, como havia deixado os Guardas para morrer e agora teria que abandonar duas mil pessoas para a morte.
O jovem Tenente sabia que isso estava muito além do seu controle e que ele próprio não tinha qualquer responsabilidade quanto a isso. Ele era meramente um indivíduo fraco que mal podia sobreviver sozinho, quanto mais salvar outros.
Todavia, mesmo sabendo disso, não pôde evitar sentir um mal-estar agonizante em seu peito. Ele sabia que, quanto mais tempo passasse, se continuasse a se omitir, mais e mais seria como essas pessoas, como o tipo de gente que mais odiava.
Enquanto todos saíam, Oliver deu um passo à frente.
“Devemos ir também.”
No entanto, Fernando colocou uma mão à frente de seu peito, segurando-o.
Vendo isso, o sujeito gigante franziu o cenho.
“O que está fazendo, Tenente?”
“Eu cubro a oferta”, declarou, com uma voz baixa, mas fria.
“Oferta? Do que está falando?” O sujeito falou, impaciente, ao ver que só restavam os três no terraço.
“Você aceitou proteger esses da casa de leilões por 20 moedas de ouro. Eu te pago o dobro disso se me ajudar em algo.”
Ouvindo isso, o Major ficou surpreso, mas logo sua expressão escureceu.
“Que tipo de porcaria você está falando, Tenente? Por acaso perdeu a razão de vez?”
Em resposta a isso, o jovem Tenente moveu o pulso.
Plim! Plim! Plim!
Dezenas e dezenas de moedas de ouro caíram ao chão, como uma chuva.
Vendo isso, não só Oliver, mas mesmo Lerona, que sabia que o rapaz tinha algum dinheiro e havia gasto uma quantia considerável com a Eterna Viajante e no leilão, ficaram completamente atordoados.
Mas que porra… está acontecendo? Oliver pensou, chocado. Como exatamente um Tenente tem tanto dinheiro?!
Antes, na Casa de Leilões, ele já tinha ficado desconfiado do rapaz, mas seus gastos ainda eram compatíveis. Havia a divisão de saque da Batalha de Belai, mais as recompensas pelas Balistas Explosivas, seu salário e outras coisas somadas poderiam dar em torno daquele valor. Além disso, até então, não descartava a possibilidade de Dimitri ter lhe patrocinado. Mas agora, vendo as dezenas de moedas de ouro esparramadas pelo chão, sabia que isso era impossível! Mesmo um General com antiguidade não teria tais fundos guardados tão facilmente e, se tivesse, não cederia isso a um Tenente.
Com outro movimento de pulso, Fernando rapidamente recolheu tudo mais uma vez.
“Sim ou não, Major.”
Com um olhar sério para o rapaz, Oliver teve uma mudança de expressão.
À primeira vista, ele só se interessou por Fernando devido aos seus feitos na batalha de retomada de Garância e pelo especialista em Runas sob seu comando. Mas, quanto mais conhecia desse estranho Tenente, mais percebia que ele não era alguém normal.
Voltando sua atenção para Lerona, o gigante a questionou:
“Capitã Lerona, você não deveria ser a superior dele nessa missão? Qual é a sua opinião sobre isso?”
A mulher ruiva foi pega de surpresa com o questionamento, mas seu rosto não vacilou. Inicialmente, ela também tinha suas dúvidas sobre Fernando, mas elas haviam sido completamente extirpadas nessa visita a Yandou.
Erguendo sua mão direita, Lerona retirou sua lança e então a bateu com firmeza contra o chão.
“Lamento, Major. Meu dever nessa missão é meramente ser a protetora do Tenente. Sendo assim, eu apenas o seguirei onde ele for.”
Ouvindo isso, o sujeito alto ficou completamente sem palavras.
Dimitri enviou a Lança Boreal apenas para proteger esse cara? pensou, extasiado, achando isso absurdo. Mas, ao pensar com cuidado, sentiu que era realmente estranha a presença deles em Yandou, principalmente de um mero Tenente sendo enviado para um lugar tão perigoso junto a dois Capitães. O que aquele velhote tem em mente?
Depois de hesitar por um momento, Oliver olhou fixamente para o jovem pálido, então esticou a mão direita.
“Não sei que porra você tem errado com você, mas eu tenho que admitir que eu não desgosto totalmente disso”, o sujeito gigante falou, quando sorriu com brutalidade. “Temos um acordo, então!”
Fernando olhou para a enorme palma do sujeito, então esticou sua própria, apertando-a. A mão de Oliver cobriu a sua totalmente, com facilidade.
“Muito bem. Você tem a mim, Oliver, o Arrogante, a seu serviço. Qual é a missão, afinal?”
O jovem Tenente tinha uma expressão indiferente em seu rosto, mas que carregava uma frieza profunda.
“Vamos matar alguns desgraçados.”

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