Índice de Capítulo

    O som das ruas comerciais ainda entrava pelas frestas quando a mulher finalmente recuperou a consciência.

    A fumaça das ruas comerciais ainda entrava pelas frestas da janela quando a mulher finalmente recuperou a consciência.

    Primeiro veio a respiração irregular.

    Depois tensão muscular.

    Naira percebeu antes mesmo dos olhos abrirem e pressionou a lâmina curta contra a lateral do pescoço dela imediatamente.

    — Nem tenta.

    A mulher congelou.

    Sem impulso desesperado.

    Treinada.

    Maek já havia retirado a camisa de criado ensopada pelo suor e pela fuligem e agora vestia outra peça escura enquanto observava a cena com calma irritantemente casual.

    O silêncio da sala ficou pesado por alguns segundos.

    A mulher analisava o ambiente rápido.

    Pequeno depósito comercial adaptado.
    Caixas de especiarias.
    Tecidos empilhados.
    Ervas secas penduradas nas vigas.

    Subsolo.

    Saída principal atrás de Maek.
    Janela estreita demais para fuga rápida.
    Naira bloqueando aproximação física.

    — Você demorou mais do que eu esperava pra acordar — comentou ele enquanto ajustava a manga da roupa nova. — Comecei a considerar vender você como mobília.

    Os olhos dela voltaram imediatamente para ele.

    Ainda sem responder.

    Naira soltou uma risada curta.

    — Se fosse mobília pelo menos daria menos problema.

    A mulher ignorou completamente a provocação.

    Os olhos estreitaram devagar enquanto encaravam Maek.

    Tentando encaixar alguma memória.

    — Quem é você? — perguntou ela.

    — Hoje? — Ele puxou uma cadeira devagar e sentou de frente para ela. — Maek. Funcionário injustiçado da indústria de vinhos.

    — Ele mente profissionalmente — completou Naira. — Faz parte do charme irritante.

    — E você ameaça pessoas profissionalmente. Ninguém aqui é perfeito.

    Naira revirou os olhos.

    A mulher continuava séria.

    Observando ele direito agora.

    — Relaxa. Se eu quisesse matar você, teria deixado Mael terminar o trabalho.

    A expressão dela mudou pela primeira vez.

    Pouco.

    Mas mudou.

    Então ela conhecia a reputação dele também.

    Naira pressionou a lâmina um pouco mais.

    — Minha vez. Quem é você?

    Silêncio.

    Naira inclinou levemente a cabeça enquanto observava o rosto dela melhor agora sem o capuz escondendo tudo.

    Então parou.

    Reconhecimento lento.

    — …Espera.

    A mulher finalmente reagiu de verdade.

    Quase nada.

    Mas suficiente.

    Naira estreitou os olhos.

    — Não é possível.

    Maek observou as duas alternando olhares.

    Ah.

    Então as damas se conhecem.

    — Você trabalhava pro Ghorvan — disse Naira lentamente. — Distrito portuário do sul.

    O silêncio dela confirmou antes mesmo da resposta.

    — Você era uma das garotas de recado dele.

    A mulher desviou o olhar pela primeira vez.

    Incômodo real agora.

    Muito mais forte do que a faca no pescoço.

    Naira soltou uma risada desacreditada.

    — Olha só você agora. Manto bonito, infiltração em reunião real… subiu na vida.

    — As pessoas mudam.

    — Algumas trocam de roupa. Você trocou de tipo de criminoso.

    Maek apoiou o queixo na mão observando a conversa como alguém assistindo uma peça inesperadamente divertida.

    — Estou começando a gostar dessa reunião.

    A mulher ignorou ele outra vez.

    Mas agora parecia mais desconfortável com Naira do que com a situação inteira.

    Informação útil.

    — Ghorvan morreu faz anos — continuou Naira. — Então quem exatamente tá pagando você agora?

    Silêncio.

    Maek suspirou teatralmente.

    — Vou ser sincero, esse mistério todo perde bastante impacto depois que você quase foi frita por um lustre.

    Os olhos dela voltaram imediatamente para ele.

    — Você sabia da armadilha.

    — Claro. Quando um administrador rearranja guardas, fecha saída e deixa um ponto cego perfeito no teto, normalmente significa armadilha.

    — E mesmo assim você ficou.

    O sorriso dele veio torto.

    Mais afiado agora.

    — Não fui eu que fiquei inconsciente.

    Silêncio.

    Ponto pra ele.

    Ela sustentou o olhar dele por alguns segundos antes de perguntar:

    — Como você evitou a armadilha?

    Maek inclinou levemente a cabeça.

    — Se eu começar a explicar meus truques, perde a graça.

    Naira bufou.

    A mulher continuou olhando para ele.

    Mais atenta agora.

    Não para o humor.
    Nem para o disfarce.

    O jeito que ele se movia.
    O tempo exato das respostas.
    A ausência completa de tensão depois da descarga rúnica.

    Então algo encaixou.

    Os olhos dela estreitaram.

    — …Você estava em Sal-Reth.

    Naira franziu a testa imediatamente.

    — Espera.

    A mulher não desviou os olhos de Maek.

    — Você é o mago que ajudou a Guardiã a destruir a cidade.

    O silêncio durou um segundo.

    Então Maek pendeu levemente a cabeça para o lado.

    O sorriso dele apareceu pequeno.

    Perigoso.

    — Olha só. Temos uma observadora.

    Ele deu dois passos antes de puxar uma cadeira de madeira e sentar nela com o encosto pela frente. colocando uma mão sobre a outra no apoio.

    — Então… qual o seu nome?

    Naira ainda mantinha a lâmina próxima do pescoço da mulher.

    Maek permanecia sentado de frente para ela, com o queixo apoiado nas mãos, observando.

    Esperando.

    A mulher respirou fundo uma vez antes de falar.

    — Meu nome é Z—

    Naira ergueu a faca imediatamente.

    — Não. Não quero o nome que você usa agora… Quero o verdadeiro.

    A mulher hesitou.

    — Certo — murmurou Maek. — Então já começamos mentindo. Clima excelente.

    Ela ignorou o comentário.

    Mas o corpo dela havia ficado mais rígido.

    — Eu não trabalho contra vocês.

    — Quase fui eletrocutado num teto por sua causa — respondeu ele. — Então talvez redefina “contra”.

    — Eu não sabia da armadilha.

    — Isso já ficou claro para todo mundo.

    Naira soltou uma risada curta pelo nariz.

    A mulher fechou a expressão.

    Irritada agora.

    — Escuta com atenção — disse Naira dessa vez, abaixando o tom. — Você apareceu infiltrada numa reunião real, no meio de uma crise, depois de Sal-Reth. Então agora você tem duas opções:

    Naira tirou a faca do pescoço dela aumentando a pressão das rochas que prendiam as mão e pés.
    — Ou começa a ser útil, ou vira um problema.

    Silêncio.

    A mulher olhou primeiro para a faca.

    Depois para Maek.

    O mais perigoso dos dois não parecia ser quem estava armado.

    Ela soltou o ar devagar.

    Decidindo.

    — …O submundo vai continuar colapsando junto com os reinos conforme se fragmentam.

    Naira não reagiu.

    Maek inclinou levemente a cabeça.

    Finalmente.

    Agora ficou interessante.

    — Os pequenos grupos não conseguem sobreviver a crises longas — continuou ela. — Cada organização controla uma rota, uma doca, um bairro, uma cidade… e todas dependem das estruturas dos próprios reinos.

    — Naturalmente — respondeu Maek. — Parasitas costumam morrer quando o hospedeiro entra em decomposição.

    Ela sustentou o olhar dele.

    — Não se eu controlar o corpo antes.

    Silêncio curto.

    Boa resposta.

    — Eu ouvi direito?! — Maek falou em meio a um riso.

    — Continue — disse Naira.

    A mulher apoiou lentamente as costas na parede.

    Ainda tensa.

    Ainda calculando.

    — Depois que voces fizeram o ataque em Sal-Reth eu percebi uma coisa, os reinos estavam reagindo errado.

    — Que observação rara — comentou Maek.

    Ela ignorou de novo.

    — Todo mundo focou na destruição imediata.
    — Ninguém percebeu o que aconteceria depois.

    Os olhos dela passaram brevemente pelas caixas de especiarias do depósito.

    — Rotas quebradas. Estoques queimados. Caravanas interrompidas. Mercados entrando em pânico. — Ela levantou um dedo para cada ponto.

    Naira começou a entender antes mesmo dela terminar.

    — Então foi você.

    — Parte.
    — Eu garanti que os ataques continuassem causando dano depois que terminassem.

    Ela observou a reação de Maek e da Guardiã antes de continuar.

    — As cidades de seiva caíram graças a vocês. Então eu ataquei armazenamento. As caravanas pararam, então comecei a controlar os intermediários.

    Ela abriu um sorriso curto.
    — Os comerciantes ficaram desesperados. Então comecei a comprar.

    Maek soltou uma risada baixa.

    — Ah… Você não quer dinheiro.

    Ela finalmente voltou os olhos diretamente pra ele.

    — Dinheiro perde valor em crise. Distribuição não.

    Naira cruzou os braços lentamente.

    — Você tá tentando monopolizar o mercado ilegal.

    — Não apenas… Estou tentando monopolizar o mercado quando o legal parar de funcionar.

    O silêncio pesou outra vez.

    Ela continuou:

    — Os nobres ainda acreditam que governam porque possuem soldados. Mas soldados não comem ouro, não curam infecção nem atravessam desertos sem caravanas.

    A voz dela ficou mais firme agora.

    Menos defensiva.

    — Quem controlar comida, remédios, especiarias e informação vai controlar o continente quando os reinos começarem a quebrar.

    Maek tirou o queixo das mãos observando com atenção.

    Não impressionado.

    Mas avaliando.

    — E você acha que consegue isso sozinha?

    — Não conseguiria.

    Honesta.

    Boa escolha de resposta.

    — Por isso comecei a unir grupos menores. Contrabandistas, intermediários, transportadores, informantes.

    Ela olhou para Maek nos olhos.
    — Gente que entende que os reinos estão entrando em colapso lento.

    Naira franziu levemente a testa.

    — Isso explica os contatos nômades.

    A mulher assentiu.

    — Os comerciantes do deserto já não confiam mais em Elandor. Confiam em quem continua pagando, quem consegue manter as rotas funcionando.

    Maek observou ela em silêncio por alguns segundos.

    Então sorriu torto.

    — Então deixa eu ver se entendi.

    Ele coçou a cabeça.
    — Você viu o continente pegar fogo… e decidiu abrir um negócio.

    — Eu decidi sobreviver.

    — Não.
    — Sobreviver é o que comerciantes fazem, você quer construir um reino sem bandeira.

    Ela não respondeu.

    O que já era resposta suficiente.

    Naira trocou um olhar rápido com ele.

    Agora entendendo o tamanho real da ambição dela.

    E talvez o problema real também.

    Porque aquilo podia funcionar.

    A mulher percebeu o instante exato em que os dois chegaram nessa conclusão.

    Então aproveitou.

    — Vocês dois já estão envolvidos nisso.

    Maek ergueu uma sobrancelha.

    — Que notícia desagradável.

    — Elandor vai caçar vocês depois de hoje. Principalmente você.

    Ela olhou diretamente pra ele.

    — Mael não vai esquecer alguém que escapou daquela armadilha.

    O sorriso dele aumentou um pouco.

    Menos humor agora.

    Mais interesse.

    — Quase um flerte vindo dele.

    — E vocês precisam de recursos, informação. Esconderijos.

    Naira estreitou os olhos.

    — E você precisa de proteção.

    — Preciso de gente capaz.

    Silêncio.

    Ela deixou a última parte cair devagar.

    Calculada.

    — Então vou fazer uma proposta.

    O silêncio que veio depois durou um segundo.

    Maek ficou olhando para ela sem responder.

    Então soltou um pequeno som pelo nariz.

    Quase nada.

    A mulher franziu levemente a testa.

    E então ele começou a rir.

    Baixo primeiro.

    Depois a risada aumentou.

    Escapando antes que ele tentasse controlar.

    Maek apoiou a mão no rosto, curvando levemente o corpo na cadeira enquanto a crise piorava sozinho, ele pontou para Naira enquanto tentava controlar o riso.

    Naira fechou os olhos por um instante.

    — Ah, não…

    A mulher olhou entre os dois sem entender.

    — O quê?

    Isso só fez a risada dele aumentar.

    Agora genuína.

    Descontrolada.

    Naira passou a mão no rosto devagar, ainda segurando a faca com a outra.

    — Você realmente não faz ideia de pra quem acabou de propor isso…

    Maek tentou responder alguma coisa.

    Não conseguiu.

    Outra risada escapou antes.

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