Capítulo 176 – Entre Nós e Eles
A rua estava escura. Apenas o brilho pálido da lua atravessava as nuvens em intervalos irregulares. Lívia movia-se pelo centro da via, seguindo o ritmo da garota que caminhava logo atrás, segurando o lençol comprido nos braços para impedir que ele tocasse o solo molhado.
O vento frio fez os braços de Lívia se arrepiarem. Ela soltou um espirro. Os tremores não demoraram a começar: primeiro os músculos das costas contraindo-se de forma involuntária, seguidos pelos antebraços.
Cali se aproximou.
— Você está tremendo.
Lívia olhou para ela por sobre os ombros.
— É o que o frio faz. — Ela ergueu os olhos para o céu. — Chove sem parar. Frio à noite e bestas nos caçando.
Cali a observou por alguns segundos.
— Onde você morava… era quente?
— Era…
A palavra morreu antes de ser concluída.
O vento pareceu desaparecer por um instante. Não existia floresta, nem chuva. Em sua mente, erguia-se uma tenda enorme, coberta por grossas peles costuradas umas às outras. O ar ali dentro era quente, pesado pelo cheiro de fumaça e gordura derretida. Meninas da sua idade permaneciam ajoelhadas em círculo, todas em silêncio. Uma velha deslizava entre elas. Suas mãos enrugadas seguravam uma pequena agulha de osso, mergulhada em uma tinta escura. Uma após a outra, ela marcava símbolos e linhas nos braços das aprendizes.
Quando chegou a sua vez…
O vento frio voltou com um sopro violento.
Lívia piscou. O coração havia acelerado sem motivo.
— Você está bem? — perguntou Cali.
Lívia levou alguns segundos para responder, fitando as próprias mãos como se esperasse encontrar alguma marca nelas.
— É só o frio. Quando chegarmos, faço uma fogueira.
Cali ajeitou o lençol e apressou o passo, mantendo os olhos fixos em Lívia. Reparou, especialmente, na saia improvisada dela, que se movia de uma forma um pouco pesada e estranha.
Não demorou para que chegassem à casa. Ainda era praticamente um barraco destruído, mas parte do teto agora estava remendada. Lívia entrou primeiro, verificando os cantos na ordem habitual: os dois ângulos mortos perto da porta, o espaço atrás do armário tombado e a janela pregada — que ainda tinha folga suficiente para alguém passar um braço.
No centro do cômodo, havia uma lareira improvisada com pedras. A lenha que Lívia deixara ali estava seca, protegida pela parede leste, que bloqueava a umidade melhor que o resto da estrutura. Usando a pederneira que havia encontrado no segundo dia de buscas pela vila — e que guardara sem mencionar a ninguém —, ela acendeu o fogo na segunda tentativa. Um fio de fumaça fina subiu em direção às ervas silvestres penduradas logo acima.
— Senta do outro lado da fogueira — instruiu Lívia, alimentando as chamas. — O vento ainda entra pela parede. Se não sentar a favor dele, a fumaça vai toda no seu rosto.
Cali obedeceu e sentou-se, observando em silêncio enquanto Lívia colocava um pouco de lenha molhada perto do calor para secar.
— Obrigada — disse Cali, baixinho.
Lívia levantou os olhos.
— Não me agradeça. Só cumpri minha parte do acordo.
Cali abaixou a cabeça, encarando as brasas.
Lívia levantou-se e saiu novamente da cabana, carregando um pequeno feixe de arame fino — que havia retirado de uma cerca quebrada perto do limite da vila —, algumas pedras e galhos secos. Cali apareceu na porta para observar.
— O que você está fazendo?
— Garantindo que a gente acorde.
Lívia amarrou a primeira linha de arame entre duas árvores baixas. Recuou alguns passos, pegou uma pedra do chão e a arremessou contra o fio. O impacto desmoronou uma pilha de pedras que ela havia escorado com precisão contra a parede externa. O som seco ecoou pela mata.
— Essa funciona — assentiu Lívia.
Cali olhou surpresa.
— Você inventou isso?
— Não.
Lívia moveu-se mais alguns metros para montar a próxima. Dobrou um galho jovem até quase quebrá-lo, prendendo-o com um laço simples oculto sob folhas caídas.
— Sabe fazer muitas? — perguntou Cali, acompanhando cada movimento.
— Algumas. — Lívia amarrou um terceiro fio, este na entrada principal, baixo o suficiente para que qualquer coisa tropeçasse, mas alto o suficiente para ser evitado. — Essa segunda não faz barulho. Só faz o que quer que seja correr mais devagar.
— E se for uma besta grande?
— Então a gente corre.
— Para onde?
— Ainda não decidi. Por isso as armadilhas precisam nos dar tempo para pensar. — Lívia apontou para o fio na entrada. — Quando entrar, passa por baixo. Sempre por baixo. Nunca por cima.
Cali testou o movimento imediatamente.
— Tá bom.
De volta ao interior quente da cabana, os tremores nos ombros de Lívia finalmente cederam. Ela colocou algumas pedras ao redor do fogo e ergueu a mão, estendendo os dedos para enumerar:
— Já que vamos dividir o espaço, algumas regras. Primeiro: nunca chame outra pessoa para vir aqui. — Ela levantou o segundo dedo. — Se vir alguém ou algo estranho, me avisa.
Cali assentiu.
— E um último combinado. — Lívia apontou para o cômodo adjacente, onde repousava uma mesa tombada. — Eu vou dormir ali. Não entre naquele cômodo, mesmo se eu demorar ou se ouvir algum barulho estranho. Você dorme ali no feno.
Cali caminhou até o monte de feno no canto, ajeitou-se e cobriu-se com o lençol.
— Já vai dormir? — perguntou Lívia. — Não que seja da minha conta, mas… — Ela puxou um dos aglomerados de ervas que defumavam sobre o fogo com a ponta de um graveto. — Melhor para mim. Sobra mais.
Assim que ela rompeu o invólucro de folhas, um cheiro forte de carne assada invadiu o ambiente. O estômago de Cali roncou instantaneamente.
— Eu também quero! — A garota sentou-se num salto e arrastou-se para perto de Lívia.
— Você pegou uma ave também? Junto com o javali? — Cali piscou, incrédula. — Posso comer uma coxa?
Lívia franziu a testa e estendeu uma das aves inteiras para ela.
— Essa é sua.
Cali travou, segurando a peça quente entre as mãos.
— Minha? E você?
Lívia apontou para cima, onde a outra ave continuava pendurada.
— O meu está ali. Só prefiro mais defumado. — Ela abriu um sorriso convencido, aproximando-se de leve. — Garota… realmente achou que uma caçadora do meu nível ia entregar toda a carne que conseguiu no dia e deixar que os outros decidissem a divisão? No nosso mundo, confiança cega é recompensada com morte.
Cali saboreou a comida em silêncio. Comeram a carne e as poucas frutas silvestres que Lívia resgatara na mochila. Quando terminou, a garota lambeu os dedos, enrolou-se no cobertor e adormeceu em menos de dois minutos.
Lívia permaneceu acordada por mais algum tempo, os olhos fixos nas brasas.
Foi então que, vindo do outro lado da vila, muito distante mas nítido no silêncio da noite, o vento trouxe o cheiro de gordura e carne queimando em brasa.
Lívia fechou os olhos. Ela sabia o que aquilo significava.
O javali era grande demais para ser escondido.
Eli percebeu isso no instante em que os irmãos Tosk desdobraram o animal no centro do pátio, sob a luz vacilante das tochas. Havia mais carne ali do que a comunidade inteira vira reunida em semanas. A visão criou, de imediato, o tipo de problema que Eli deveria ter antecipado, mas estava cansado demais para prever.
As pessoas começaram a aparecer.
Não de uma vez. Foi um processo gradual: porta por porta, janela por janela. Moradores que haviam ido deitar dez minutos antes de repente encontraram justificativas urgentes para cruzar o pátio.
Os mais velhos chegaram primeiro. Os debilitados limitaram-se a observar das soleiras, mas os três que costumavam ocupar a varanda já se aglomeravam ao redor do bicho. Até a velha da janela do fundo, que passara o dia inteiro imóvel, moveu-se com uma agilidade que sugeria que sua invalidez recente era puramente opcional. As crianças vieram em seguida, atraídas pelo aroma antes mesmo que qualquer adulto as chamasse.
Eli estava no meio do processo de curtir o couro quando se deu conta de que havia perdido o controle da situação.
— Espera — disse ele.
Ninguém ouviu. Um dos velhos já se aproximava do traseiro do javali empunhando uma faca gasta. Um menino tentava arrancar uma costela com as próprias mãos, enquanto a senhora do fundo empurrava um pedaço de madeira sob o lombo, tentando usá-lo como alavanca para algo que não precisava ser alavancado.
— Espera! — ordenou Eli, desta vez projetando a voz.
Alguns pararam. Outros ignoraram.
Eli largou o couro, ergueu-se e permaneceu parado no centro do pátio, sustentando a faca de curtume em punho até que o silêncio ao redor fosse absoluto.
— Vamos fazer isso direito ou vamos estragar metade da carne.
O velho com a faca própria ergueu os olhos, desafiador.
— Já fiz isso antes.
— Eu sei — retrucou Eli, sem paciência para discussões. — Você corta o traseiro. Jorim pega o dianteiro. Mais ninguém mexe até eu mandar.
Houve um momento de tensão silenciosa enquanto vários ali calculavam se valia a pena peitar a autoridade de Eli. Ninguém se moveu.
O trabalho finalmente começou de forma organizada — menos do que Eli gostaria, mas o suficiente para evitar o caos. Logo, porém, surgiram as disputas.
A primeira foi pelas vísceras. Dois idosos reivindicavam partes diferentes do mesmo órgão, cada um desenterrando favores e trabalhos prestados à vila durante a semana para justificar o direito. A discussão corria baixa, mas persistente.
Eli aproximou-se e cortou o pedaço ao meio. Ambos ficaram insatisfeitos, mas calaram-se.
Depois veio a disputa pela gordura. Depois, sobre qual parte iria primeiro para o fogo. Em seguida, sobre quem assumiria os turnos de vigília enquanto os demais dormiam. Cada impasse era resolvido por Eli com aquela mistura exata de autoridade e exaustão que se tornara seu método de sobrevivência ali.
Quando os primeiros cortes tocaram as brasas, o cheiro forte de gordura tostada tomou o pátio.
As crianças pararam de ajudar. Os velhos interromperam os resmungos. Por um instante, o pátio inteiro congelou, hipnotizado pelo fogo.
Eli entregou a lâmina de curtume para o irmão mais novo dos Tosk.
— Termina de separar. Guarde as partes menores para secar amanhã.
O rapaz aceitou a ferramenta sem questionar.
Eli caminhou até a janela onde Arlen permanecera o tempo todo. O velho estava acordado, fitando a escuridão além da paliçada.
— Você fica de olho? — perguntou Eli.
— Já estou de olho.
— Esse cheiro de carne assada vai longe. O vento está soprando forte.
— Eu sei.
— Se ouvir qualquer ruído do lado de fora da barricada…
— Eu te acordo, Eli.
Eli sustentou o olhar do sogro por um momento. Arlen tinha a expressão de quem carregava aquele peso há muito tempo — não a vigília em si, mas a responsabilidade que sobra quando todas as outras opções falham.
— Obrigado.
— Vá deitar — disse o velho, sem desviar os olhos da mata escura. — Antes que você caia de pé.

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