Embora um lobo adulto não alcançasse a altura de um humano comum, ainda assim era uma fera imponente. Comparado a Oliver, aquele lobo era maior.

    Oliver ainda mantinha certa dificuldade em aceitar, intuitivamente, que uma alma pudesse feri-lo. Mas sabia que era possível.

    O espírito vingativo do orc já provara isso. E, de algum modo, aquele lobo espectral também deveria ser capaz de fazer o mesmo. Sua intuição lhe dizia isso com clareza.

    Ele se preparou para o impacto.

    O lobo avançou com velocidade assustadora, mas havia algo de profundamente errado em seu comportamento. Não parecia natural.

    A alma do animal era translúcida, quase imaterial, e sua corrida não deixava rastros nem perturbação alguma no chão.

    Quando ele se aproximou, Oliver desferiu um golpe com a [Lâmina das Sombras].

    A lâmina atravessou o corpo do lobo e deixou um corte negro, limpo e profundo.

    Mas não havia física real naquele choque entre a alma e Oliver.

    A alma simplesmente continuou avançando como se o próprio corte não tivesse importância. O lobo abaixou a cabeça e se chocou contra o peito de Oliver.

    Oliver estremeceu da cabeça aos pés.

    O impacto não era físico, mas sua alma havia sido atingida. A dor surgiu de forma imediata e avassaladora. Ele caiu no chão e, no mesmo instante, perdeu a concentração que sustentava a [Lâmina das Sombras].

    A arma se desfez.

    Segurando o peito, Oliver tentou respirar através da dor.

    Aquilo era absurdo.

    O lobo avançou sobre a lâmina sem o menor cuidado, como se tivesse se jogado deliberadamente sobre uma lança para empalar a si mesmo. Nenhum ser vivo faria aquilo. A autopreservação era um instinto básico da vida.

    Só então Oliver voltou os olhos para o lobo.

    A alma do animal estava em estado precário. O corte deixado pela Lâmina das Sombras não parecia apenas um ferimento simples. A partir da marca negra, a alma começou a colapsar sobre si mesma. Fragmentos translúcidos se soltavam em todas as direções, como se a própria existência do lobo estivesse se desfazendo.

    Em poucos instantes, a alma foi completamente destruída.

    Oliver ainda pressionava o peito, tentando amenizar a dor, quando ergueu os olhos e viu Orson sorrindo à distância.

    O velho começou a se aproximar enquanto explicava:

    “Ordenei que ele continuasse o ataque independentemente das consequências. Também ordenei que não mordesse, porque isso poderia ser fatal. Ferimentos na alma se curam de forma diferente dos ferimentos do corpo.”

    Quando chegou mais perto, o sorriso de Orson já havia desaparecido.

    “E essa dor que você está sentindo agora? Terrível, não é? Atacar a alma é algo brutal…”

    Havia uma tristeza discreta em sua voz ao dizer isso.

    Oliver ainda sofria com a dor. Talvez aquilo fosse o equivalente a receber um golpe físico muito forte, mas a sensação era muito mais excruciante. Ataques à alma pareciam cruéis de um jeito que beirava o maligno.

    Com esforço, ele foi direto ao ponto que realmente importava.

    “O que acontece com uma alma destruída dessa forma?”

    Orson hesitou antes de responder.

    “Essencialmente, a alma foi feita para ser algo intocável, algo que o ciclo natural da vida não deveria afetar diretamente. Quando uma alma é destruída, ela simplesmente deixa de existir. Não haverá reencarnação. Aquela existência é apagada para sempre.”

    Oliver ficou chocado.

    Aquilo era diferente de matar o corpo. Tirar a vida de alguém significava interromper suas funções biológicas. Quando a alma perdia o recipiente, ela retornava ao ciclo natural para reencarnar.

    Mas e quando a própria alma era destruída?

    Não havia reencarnação. Não havia continuidade. Era o encerramento definitivo da existência.

    Oliver olhou para as próprias mãos e começou a tremer.

    Ele havia extinguido, de forma definitiva, um ser vivo. Mesmo em sua vida passada, como militar, nunca lutara em uma guerra de verdade nem tirara a vida de ninguém. E agora tinha feito algo ainda mais extremo: destruiu uma alma.

    Depois de alguns segundos de silêncio, ele falou com voz baixa:

    “Tio Orson, isso parece um pouco demais para mim. Acho que vou para casa.”

    Orson assentiu sem insistir.

    “Tudo bem. Vá. Tire um tempo para refletir sobre isso.”

    Ele também não parecia contente. Havia solenidade em seu rosto, e Oliver conseguiu ver tristeza e preocupação em sua alma.

    Uma semana se passou antes que Oliver voltasse a ter outra aula com Archibald.

    Durante esses dias, ele seguiu a rotina normalmente, com uma exceção importante: parou de frequentar as aulas com Orson.

    Começava a entender, pela primeira vez, a verdadeira complexidade por trás da magia da alma.

    No tempo extra que ganhou, decidiu se dedicar à magia contida no pergaminho que Lilian lhe dera.

    Lilian era uma das aventureiras do grupo do orc Groak. Ela tentou recrutar Oliver e, como recompensa por ele ter guiado o grupo pela cidade, entregou-lhe um pergaminho com instruções para uma magia de fogo.

    A magia pertencia à Escola de Ataque. Ela concentrava fogo nas mãos do usuário, permitindo que ele o manipulasse como quisesse. Era possível espalhar as chamas por uma área ampla ou condensá-las em algo parecido com um raio concentrado.

    Agora, o repertório de Oliver era o seguinte:

    [ Relâmpago ], [ Armadura Arcana ], [ Escudo de Força ], [ Invocar Espírito ], [ Vigor Efêmero ], [ Mísseis Mágicos ], [ Lâmina das Sombras ] e [ Mãos Flamejantes ].

    No total, eram oito magias. Uma delas era irregular, então Oliver não precisava memorizar gestos nem cânticos para utilizá-la. Ainda assim, ele começava a perceber como era difícil manter tantas magias organizadas na mente. Em pouco tempo, mais 1 ou 2 seriam suficientes para levá-lo ao limite.

    “É por isso que magos anotam suas magias em livros…”

    Oliver enfim compreendia aquilo. Archibald tinha um livro onde mantinha o passo a passo de suas magias registrado, para consultar sempre que fosse necessário. Era um jeito muito mais seguro de preservar conhecimento do que simplesmente confiar na própria memória.

    Na prática, qualquer livro serviria para isso. O problema era que livros eram caros. Tinta também.

    Oliver ainda estava aprendendo e não sabia exatamente que tipo de trabalho poderia fazer para arrecadar dinheiro suficiente para comprar livro e tinta. Mesmo assim, já começava a pensar em algumas possibilidades. Mais cedo ou mais tarde, pretendia perguntar a Archibald quais tipos de serviço seriam mais rentáveis para um mago iniciante.

    “Mesmo que não respeitem um mago abaixo do 3º ciclo como deveriam, ainda devo conseguir ganhar o suficiente para me mudar de cidade com a minha mãe.”

    Oliver não pretendia passar a vida inteira em uma vila pacata como Corval. Também não pretendia permitir que sua mãe continuasse prestando o tipo de serviço que prestava. Se conseguisse dinheiro suficiente, os dois poderiam ir embora e Eliandris teria a chance de construir outra vida.

    Quando chegou à casa dos Venn, foi recebido por Sebastian, como de costume. Logo depois, sentou-se na sala de estudos, onde Archibald e Jonathan já o aguardavam.

    Archibald disse que naquele dia teriam mais aulas práticas. Por isso, revisaram apenas uma parte do conteúdo de <Fundamentos da Teoria Arcana> antes de seguirem diretamente para o campo de treinamento.

    Entretanto havia uma dúvida específica martelando a mente de Oliver há dias.

    Naquela manhã, ele decidiu usar a fonte de conhecimento em que mais confiava: Archibald.

    “Mestre Archibald, ouvi alguns aventureiros conversando no Arsenal do Viajante. Eles falaram sobre uma tal escola de magia das almas. O que é isso? Nunca vi nenhuma menção no livro <Fundamentos da Teoria Arcana>.”

    Oliver queria entender melhor a magia da alma, mas sentia que Orson escondia certas informações de propósito. Então resolveu arriscar a pergunta ao outro mestre.

    Archibald respondeu com naturalidade, como se aquilo não tivesse nada de particularmente alarmante.

    “Magia da alma? Esse é um nome bonito. Na verdade, trata-se de necromancia. Alma não é uma Escola propriamente dita. É uma sub-escola da necromancia. O livro <Fundamentos da Teoria Arcana> não entra em detalhes sobre sub-escolas. E eu espero que esses aventureiros não estejam mexendo com nada inadequado, porque necromancia é proibida neste país.”

    A resposta atingiu Oliver em cheio.

    Necromancia era a escola ligada ao estudo da vida e da morte. E, em sua cabeça, necromantes eram justamente o tipo de pessoa que matava indiscriminadamente para se fortalecer com magias sombrias e proibidas.

    O pensamento surgiu com força imediata, martelando em sua mente sem dar trégua:

    “Tio Orson é um necromante?”

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