Índice de Capítulo

    Alexander rompeu a nuvem de poeira e destroços criada pela própria técnica quase no mesmo instante em que voltou a enxergar a rua.

    O que viu do outro lado o fez travar por uma fração de segundo.

    Victor estava no chão.

    Não caído ou ferido, mas morto.

    O corpo jazia aos pés de Orson. O cajado do mago de tempo havia rolado alguns metros adiante. Seu pescoço torcido de forma grotesca não deixava qualquer espaço para dúvida.

    Orson olhava para Alexander com desdém.

    Completamente imóvel no centro da rua devastada, o necromante parecia encarar toda aquela destruição como se estivesse num passeio trivial, como se matar dois executores reais fosse só mais uma tarefa desagradável que precisava terminar antes do anoitecer.

    “Desgraçado…” Alexander murmurou baixinho.

    Executores reais não costumavam trabalhar em conjunto.

    Em circunstâncias normais, um único executor era poder suficiente para eliminar quase qualquer alvo designado pela coroa. Magos de 5º ciclo e artistas marciais de Rank 5 já eram raros por si só, mas os executores reais eram escolhidos entre os melhores desse grupo restrito. O reino possuía outros combatentes no mesmo nível. Ainda assim, apenas os mais poderosos, versáteis e letais eram chamados para serem executores reais.

    E mesmo entre aquela elite, missões em dupla eram incomuns.

    Isso só acontecia quando o alvo era perigoso demais para qualquer margem de erro.

    Desde o instante em que a missão contra Orson fora designada para ele e Victor juntos, Alexander entendeu o recado por trás da ordem.

    Orson nunca seria uma presa fácil.

    Alexander e Victor se conheciam há bastante tempo. Já haviam se encontrado em operações diferentes, treinado no mesmo ambiente militar em certos períodos e compartilhado informações mais de uma vez. Mas isso estava longe de significar proximidade real.

    Victor não era um amigo íntimo.

    Por isso, a morte dele não atingiu Alexander da forma como talvez atingisse outra pessoa.

    Não houve tristeza avassaladora.

    Não houve luto imediato.

    O que houve foi outra coisa.

    Alerta.

    Seu corpo inteiro ficou mais atento.

    Sua mente descartou qualquer resquício de subestimação.

    Se Victor havia sido morto daquela maneira, então qualquer erro, por menor que fosse, significaria o mesmo fim.

    Alexander nunca estivera realmente confiante de que conseguiria derrotar Victor em um combate direto. A escola do tempo não era conhecida por poder destrutivo puro, mas isso pouco importava. Um mago de 5º ciclo sempre tinha inúmeros truques na manga. Bastava um feitiço bem colocado, um atraso de percepção, uma distorção curta no ritmo da batalha, e um artista marcial podia se ver cortando ar enquanto a derrota se aproximava sem aviso.

    Orson também sabia disso.

    Por isso não deu a Victor nem um segundo de folga.

    Não permitira distância.

    Não permitira preparação.

    Não permitira que a maior vantagem de um mago florescesse.

    Agora só restava Alexander.

    Orson inclinou levemente a cabeça e os olhos rubros, profundos e brilhantes como duas gemas encharcadas de sangue, se fixaram nele.

    “Só restou você”, disse o necromante. “Não resista. Sua morte também será com o mínimo de dor possível.”

    Alexander tremeu no mesmo instante em que ouviu aquelas palavras.

    Não de covardia, mas por puro instinto.

    Uma reação involuntária do corpo diante de algo que reconhecia como ameaça extrema.

    Mas ele não recuou, ou tampouco fugiu.

    Aura amarela se espalhou por seu corpo em uma explosão brusca e violenta, percorrendo músculos, ossos e pele como uma corrente viva prestes a transbordar. O ar ao redor vibrou sob aquela liberação de energia. Pedras pequenas no chão estremeceram. Poeira se ergueu novamente em redemoinhos rasos.

    Alexander segurou a espada longa com as duas mãos.

    E atacou.

    O primeiro golpe foi limpo, direto e sem ornamentação. Nada de técnica nomeada. Nada de desperdício. Só velocidade, força e precisão acumuladas por anos de batalha real.

    Orson desviou inclinando o corpo para o lado.

    Alexander já vinha com o segundo ataque.

    Depois o terceiro.

    E o quarto.

    Sua espada cortava o ar em arcos secos, alternando ângulos altos e baixos, mirando garganta, costelas, joelhos, flanco, cabeça. Cada golpe se encadeava no próximo sem deixar espaços evidentes. Era uma sequência dura, agressiva, moldada para esmagar a defesa do adversário pelo ritmo.

    Orson, no entanto, continuava desviando.

    Os passos do necromante eram mínimos.

    Um giro de ombro.

    Uma leve torção de quadril.

    Um recuo de meio passo.

    Cada movimento bastava para tirar o corpo do caminho da lâmina.

    Alexander apertou os dentes.

    Mesmo sem usar magia, mesmo sem conjurar qualquer feitiço ofensivo, Orson ainda era absurdo.

    Mas então Alexander mudou o ritmo.

    Até aquele momento, seus ataques haviam formado uma cadência relativamente constante, rápida o bastante para pressionar, porém ainda legível para alguém experiente. No instante seguinte, ele quebrou esse padrão de forma abrupta.

    Fingiu um corte diagonal na altura do pescoço.

    Orson inclinou o tronco para desviar da espada.

    Alexander soltou a mão esquerda da empunhadura e girou o corpo com violência, usando a própria rotação do quadril para disparar um chute lateral na costela do necromante.

    O impacto foi brutal.

    Orson foi lançado para trás como um projétil e atravessou a fachada já comprometida de uma casa próxima. Madeira, pedra e telhas explodiram para dentro do imóvel, seguidas pelo corpo do necromante, que esmagou parte da estrutura ao colidir contra a parede interna.

    O estrondo ecoou pela rua.

    Alexander expirou pelo nariz e ajustou a postura, mantendo a espada baixa ao lado do corpo por um instante.

    “Você ainda é um mago”, declarou com orgulho contido. “Não aja como se fosse um artista marcial só porque ganhou um pouco de força física.”

    Havia convicção real naquela fala.

    Artistas marciais passavam a vida inteira em combate.

    Aprendiam a distribuir força da sola dos pés até o último nó dos dedos. Refinavam postura, respiração, impulso, equilíbrio e leitura corporal até que cada músculo, cada osso e cada tendão se tornassem instrumentos moldados para matar e sobreviver. Não bastava ser forte. Era preciso saber usar a força. Era preciso compreender o instante do choque, o peso do próprio centro, a troca de distância, a intenção escondida no menor ajuste do oponente.

    Um mago que ganhasse força física de repente ainda continuava sendo, no fundo, alguém que não passara a vida esculpindo o corpo para luta direta.

    Na visão de Alexander, isso fazia toda a diferença.

    Com cautela, ele começou a andar na direção da casa destruída.

    Se Orson tivesse sofrido dano real, aquele era o momento de pressionar.

    Se não tivesse sofrido, então Alexander ao menos precisava confirmar isso antes que o inimigo saísse do entulho como se nada houvesse acontecido.

    Deu o primeiro passo.

    Depois o segundo.

    No terceiro, franziu a testa.

    Algo estava errado.

    Seu movimento ficou levemente mais lento.

    No quarto passo, a resistência aumentou.

    Era como avançar dentro d’água grossa, como se o próprio ar houvesse se tornado viscoso ao redor do corpo. Os músculos respondiam, mas com atraso. As articulações pareciam presas por uma força invisível que insistia em puxá-las para direções diferentes daquelas que sua vontade ordenava.

    Alexander parou imediatamente.

    Ou tentou parar.

    Seu corpo vacilou num meio-comando estranho, como se a decisão não lhe pertencesse por completo.

    Então ele ouviu a voz de Orson saindo do interior da casa demolida.

    [MAGIA DE 5º CICLO – MARIONETE DE SANGUE]

    O necromante emergiu dos destroços com passos tranquilos demais para alguém que acabara de ser arremessado contra uma construção. Havia poeira sobre os ombros e fragmentos de madeira presos entre as escamas dracônicas amareladas que cobriam partes do corpo, mas nenhum ferimento visível relevante.

    Sua mão direita estava erguida.

    Os dedos se moviam com delicadeza quase irritante, como alguém puxando fios invisíveis de uma marionete.

    A percepção de Alexander se encaixou na realidade num único instante desagradável.

    Magia de sangue.

    Necromancia de 5º ciclo.

    Uma técnica feita para invadir o corpo do alvo e reivindicar controle sobre aquilo que corria dentro dele.

    O sangue obedecia.

    Os músculos seguiam.

    E o corpo, pouco a pouco, deixava de ser propriedade da própria vítima.

    “Se eu não puder ganhar de você em um confronto direto”, Orson declarou enquanto flexionava os dedos com suavidade, “basta fazer com que você não se mexa.”

    Alexander rangeu os dentes com tanta força que sentiu a mandíbula doer.

    Aura explodiu outra vez ao redor dele, mais feroz, mais densa, reverberando em ondas curtas enquanto tentava retomar domínio sobre o próprio corpo. Os músculos de seus braços saltaram. As veias do pescoço se destacaram. Sua mão direita apertou a empunhadura da espada até os dedos embranquecerem.

    Por um momento, pareceu funcionar.

    Seu braço conseguiu se mover alguns centímetros fora do trajeto imposto.

    Sua perna esquerda estremeceu e resistiu.

    Seu tronco permaneceu parcialmente alinhado para combate.

    Mas só parcialmente.

    O controle ainda não era dele.

    Alexander sentiu um frio real percorrer a espinha.

    A ideia de enfrentar um mago que não possuía a fraqueza habitual em combate físico já era terrível por si só. Agora, diante dele, estava exatamente esse tipo de aberração: alguém que podia trocar golpes como um monstro e, ao menor espaço, impor ainda por cima uma magia de 5º ciclo voltada para controle absoluto.

    Aquilo era aterrorizante.

    Pior do que isso, Alexander percebeu algo que não queria admitir.

    Ele não sabia como resistir diretamente àquela magia.

    Podia lutar contra os efeitos.

    Podia atrasar o domínio.

    Podia forçar o próprio corpo até o limite.

    Mas romper a técnica?

    Naquele instante, não parecia possível.

    Seus dedos começaram a abrir contra a vontade.

    A espada escorregou de sua mão e caiu no chão com um som metálico seco.

    “Droga…”

    A palavra saiu baixa, entre os dentes.

    Alexander tentou recuar.

    Seu corpo avançou.

    O primeiro passo foi torto.

    O segundo, ainda pior.

    Era um caminhar desengonçado, antinatural, composto por ordens conflitantes entre a própria vontade e os fios invisíveis que Orson puxava através do sangue em suas veias. Seus músculos tremiam. O joelho travava e destravava em ângulos errados. O ombro direito se contraía numa rigidez espasmódica enquanto o pescoço lutava para não baixar.

    Ainda assim, ele seguia andando na direção do necromante.

    Resistindo.

    Forçando o corpo para trás enquanto o corpo avançava para frente.

    Orson observava aquilo calmamente.

    “Impressionante”, comentou. “Você está oferecendo mais resistência do que eu esperava.”

    Alexander não respondeu.

    Não desperdiçaria fôlego com um homem que já o tratava como morto.

    Seu esforço inteiro foi concentrado em uma única tarefa: não ceder completamente.

    Mas não importava quanta força colocasse nisso.

    Não importava quantas fibras do próprio corpo tentasse arrancar do comando inimigo.

    Não importava quanta aura despejasse nos músculos para fazê-los obedecer.

    Passo após passo, a distância entre os dois diminuía.

    Até desaparecer.

    Alexander parou bem diante de Orson.

    Ou melhor, foi obrigado a parar.

    Suas pernas estremeceram.

    Então dobraram.

    O artista marcial caiu de joelhos sobre o chão rachado da rua destruída, incapaz de impedir o próprio corpo de assumir uma posição humilhante diante do inimigo. Seus braços ficaram rígidos ao lado do tronco. O peito subia e descia em respirações pesadas. Os olhos, cheios de fúria, permaneciam fixos no rosto de Orson.

    Todos os movimentos dele estavam sendo controlados.

    Como os de um boneco.

    Orson se aproximou um passo final e ficou acima dele.

    As garras espectrais se alongaram sobre os dedos outra vez, finas e letais, brilhando com um tom rubro amarelado sob a luz trêmula dos incêndios espalhados pela vila.

    “Você resistiu bem”, disse o necromante.

    Seu tom quase soava elogioso.

    O que o tornava ainda pior.

    “Adeus.”

    E então Orson desceu as garras na direção do pescoço de Alexander, visando matá-lo.

    Regras dos Comentários

    • Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • Comentários ofensivos serão removidos.

    Para receber notificações, ative o sininho ao lado do botão de Publicar.

    Nota