CAPÍTULO 45 - VITÓRIA
“Tio Orson é um necromante?”
Orson era um mago especializado em almas. A magia da alma era uma subescola da necromancia, e a necromancia era proibida em Osteria.
Orson vivia escondido em uma pequena vila, fingindo ser mendigo. Possuía uma gaiola que aprisionava almas e havia capturado o espírito vingativo do orc com uma facilidade absurda.
Ele havia dito, no primeiro dia em que se encontrou com Oliver para uma aula de verdade: “elfos da alma sempre têm talento inato para magia da alma.” E, mais tarde: “não existe ninguém mais adequado para receber meu legado do que um elfo da alma.”
Se magia da alma era necromancia, e aprender magia da alma era aprender necromancia, então o que Orson estava fazendo era recrutar um aprendiz para uma prática ilegal. Numa vila pequena, às escondidas, sem que ninguém soubesse.
“Ele parece ser uma boa pessoa.” Esse pensamento atingiu Oliver de forma sutil. Por mais que criasse inúmeras teorias, a alma de Orson nunca havia mentido, e a intuição de Oliver dizia que ele não tinha intenções malignas. O velho genuinamente se importava com ele e genuinamente queria transmitir tudo o que sabia. Pelo menos, era isso que os sentidos de Oliver lhe diziam.
“Porém, sendo um necromante de almas, ele não saberia mascarar suas verdadeiras intenções de um elfo da alma?” Pensamentos desse tipo continuavam passando pela mente de Oliver, deixando-o distraído.
Archibald havia acabado a revisão de <Fundamentos da Teoria Arcana>, e agora eles iriam praticar no campo de treinamento. A prática, em si, seria um combate amistoso entre Oliver e Jonathan.
A alma de Jonathan tinha uma diferença sutil do habitual: havia uma camada extra de brilho dourado, indicando que o garoto estava confiante.
Oliver, porém, nem o considerava um desafio, dada a diferença absurda entre suas reservas de mana.
“Posicionem-se em lados opostos. Não haverá preparação de nenhum dos dois lados. Quando eu der o sinal, comecem. Não se preocupem em se machucar seriamente, eu estou aqui. A vida de vocês não corre perigo.” Archibald ordenou, e assim foi feito.
Quando ele baixou a mão, Jonathan e Oliver começaram a conjurar.
Oliver ainda estava um pouco distraído pensando em Orson, mas decidiu deixar isso de lado para se concentrar na luta.
Ele tinha quase certeza de que Jonathan usaria [Aprimoramento Básico] e lançaria um ataque devastador contra ele. Oliver também sabia que deveria responder à altura, sem lhe dar muitas chances.
No geral, a velocidade de conjuração de Jonathan ainda era inferior à de Oliver.
Archibald havia dito que o tempo padrão para conjurar a maioria das magias era de 5 segundos. Jonathan, entretanto, demorava algo em torno de 8 a 10 segundos. Esses instantes de diferença definiriam o rumo da batalha.
Se Oliver inaugurasse a luta utilizando [Relâmpago], perderia a vantagem, pois, sendo uma magia irregular, ela exigia mais de sua concentração. Ou seja, Oliver levaria praticamente o mesmo tempo que Jonathan para conjurá-la. Portanto, optou por usar a magia recém-aprendida do pergaminho que Lilian lhe dera.
[Mãos Flamejantes] era uma magia de ataque de 1º ciclo. Oliver percebeu que o verdadeiro potencial dela era afetar múltiplos alvos, algo que [Relâmpago] não conseguia. Além disso, era possível moldá-la durante a conjuração, optando por um ataque mais concentrado. Foi o que Oliver fez.
Ele terminou de conjurar a magia em 5 segundos, e um feixe de fogo voou na direção de Jonathan. Tanto o garoto quanto Archibald ficaram surpresos, pois Archibald não havia ensinado aquela magia.
Oliver tinha magias fora do repertório ensinado por Archibald, e essa era uma delas.
Jonathan reagiu rapidamente, conjurando um [Escudo de Força]. A barreira invisível surgiu a tempo, impedindo a rajada de chamas de atingi-lo.
Ao contrário do que Oliver esperava, Jonathan conseguiu completar a conjuração de sua própria magia e ainda se defender com um [Escudo de Força]. Ele havia presumido que o garoto não conseguiria fazer as duas coisas ao mesmo tempo.
“Parece que todo esse treinamento exclusivo que ele tem com Mestre Archibald não é em vão, afinal.”
Oliver conjurou novamente [Mãos Flamejantes], visando um ataque concentrado em Jonathan. Porém, Jonathan avançou em sua direção e bloqueou mais uma vez a magia de Oliver com um [Escudo de Força].
“O que diabos está acontecendo? Ele não tinha somente 3 pontos de mana?” Oliver olhou, incrédulo, para o que estava presenciando. Naquele ponto da luta, Jonathan normalmente já teria caído no chão, depois de esgotar sua mana por completo, mas não foi o que aconteceu.
Jonathan conseguiu fechar a distância entre os dois e desferiu um golpe, mudando a característica reforçada pela magia de velocidade para força. O ataque que se seguiu foi devastador. Oliver o defendeu com um [Escudo de Força], mas os golpes continuaram vindo. Ele não podia fazer nada além de tentar se defender. Sempre que um [Escudo de Força] era conjurado, Jonathan dava a volta e tentava atacar o ponto sem proteção da magia. A velocidade com que fazia isso era grande demais, não dando tempo para Oliver conjurar outro escudo.
Eventualmente, Oliver perderia. É claro, se fosse uma luta de vida ou morte, ele não estaria indefeso, pois conjuraria a [Lâmina das Sombras] para se defender. Ainda assim, gostaria de evitar usar esse feitiço, devido à sua natureza extremamente letal e brutal.
“Eu me rendo.” Oliver levantou as mãos, indicando sua rendição. Ele não sabia como, mas, de alguma forma, a reserva de mana de Jonathan havia aumentado. Isso permitiu que ele resistisse às primeiras magias de Oliver, conjurando diversos [Escudos de Força]. Quando a luta se transformou em uma batalha corpo a corpo, Oliver estava fadado à derrota, pois, diferentemente de Jonathan, ele não conhecia a magia [Aprimoramento Básico], o que o tornava inapto para esse tipo de combate. É claro que, se Oliver soubesse essa magia, ou se Jonathan não a soubesse, ele provavelmente se destacaria, pois ainda se lembrava das técnicas de combate militar de sua vida passada. Mesmo sem muita experiência prática em combate real, tais técnicas eram avançadas e pegariam qualquer pessoa daquele mundo de surpresa.
Archibald se aproximou e falou. Havia um certo ar de decepção em sua voz, e Oliver também percebeu esse sentimento na alma dele.
“Luta encerrada, a vitória é de Jonathan.”
Jonathan comemorou. Foi a primeira vez que venceu Oliver de verdade, e, mesmo sendo um combate amistoso, aquilo significava muito para ele.
A razão de sua vitória foi o uso de poções que aumentavam a mana. Archibald tinha duas delas consigo, porém eram as versões mais básicas, que elevavam a mana até o limite de 5 pontos. Por isso, não foi necessário encomendá-las da capital. É claro que Balthazar pagou o devido valor por elas. Assim, atualmente, Jonathan tinha 5 pontos de mana. Esses 2 pontos a mais foram suficientes para pegar Oliver desprevenido e derrotá-lo.
Jonathan olhou para a janela do primeiro andar, de onde seu pai costumava observar os treinamentos. O vidro tinha um tratamento especial, que impedia as pessoas do lado de fora de verem para dentro, enquanto quem estava do lado de dentro conseguia ver o exterior.
“Você viu isso, pai? Eu consegui! Eu ganhei!” Jonathan estava orgulhoso.
No passado, ele teria achado aquilo normal, mas agora sabia que ganhar de Oliver estava longe de ser algo superficial. O garoto era muito talentoso com magia. Jonathan já não o via mais como alguém inferior, e sim como um rival a ser superado. Esse foi o primeiro passo rumo a seu objetivo.
“Oliver sempre me surpreende com magias irregulares em situações desesperadoras. Acho que esperei demais dele dessa vez. Afinal, não é simples conceber magias irregulares.” Esse era o motivo da decepção de Archibald: ele esperava muito de Oliver.
“A aula de hoje está encerrada, estão dispensados.” Archibald declarou, e todos se dispersaram.
…
No caminho de volta para casa, Oliver ainda pensava na situação de Orson quando esbarrou, sem querer, em uma pessoa.
“Droga, estou distraído hoje.”
Ao olhar para o homem com quem havia esbarrado, ficou paralisado, pois havia nele uma intenção assassina profunda, direcionada diretamente para ele.
“Eu vou morrer?” Oliver tinha certeza disso. Nunca havia visto uma intenção de matar tão pura e verdadeira, nem mesmo quando foi caçado por lobos.

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