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    O ser se lembrou do seu nome.

    Ela era Cassie, a Canção dos Caídos. Uma vidente cega destinada a testemunhar o destino…

    Ou pelo menos, ela tinha sido.

    Afinal, o Destino estava dilacerado e mutilado. Ela o havia mutilado. O Destino recebera um ferimento mortal das próprias criaturas que deveriam ser seus arautos, e agora se desfazia à medida que o futuro prometido deixava de existir.

    A Canção dos Caídos não era mais uma mera testemunha. Ela era, em vez disso, a arquiteta do que estava por vir. Destruição, salvação… não importava qual fim os aguardasse no futuro, ela o teria construído com suas próprias mãos frágeis.

    ‘Será que esse Nome Verdadeiro ainda me serve?’

    O ser — Cassie — observou mais uma vez a escuridão das memórias despedaçadas. Agora que sabia quem tinha sido, conseguia discernir melhor quais eram as suas próprias. Mas não o suficiente para obter clareza.

    Ela fora uma existência estranha, ao que parecia. Era alguém que vivera dezenas de vidas simultaneamente, experimentando o mundo através de inúmeros canais de seu Aspecto sutil. Aqueles que eram poderosos e aqueles que eram fracos; aqueles que a serviam e aqueles que não. Homens e mulheres, mundanos e Despertos, jovens e velhos…

    As memórias de suas vidas estavam entrelaçadas com as dela, inseparáveis. Mais do que isso, as memórias do passado estavam entrelaçadas com as memórias do futuro — um futuro que não se concretizaria, pelo menos não mais. Havia também memórias que ela não deveria possuir. Um vasto oceano delas, pesando sobre ela com o peso esmagador da eternidade… memórias de mundos que pereceram, de um passado remoto que fora apagado das páginas da história pela passagem do tempo.

    ‘O que aconteceu comigo?’

    Ela sabia quem tinha sido, mas quem era agora? Como ela foi parar nesse oceano de memórias? Qual era o propósito dela ali?

    Ela ficou ali parada até que uma súbita compreensão a atingiu.

    ‘Essas memórias… são eu.’

    Eles eram os alicerces que moldaram a personalidade de Cassie.

    Ela havia sido despedaçada e agora precisava se reconstruir a partir de seus fragmentos. Se a forma que ela criasse fosse verdadeira, uma mulher chamada Cassie continuaria a existir. Caso contrário… outra coisa tomaria o seu lugar.

    Se ela não conseguisse encaixar os fragmentos por completo, sua existência seria dispersa pelo vento.

    ‘Que irônico…’

    Parecia que ela precisava construir o Labirinto primeiro para poder escapar dele. Aquele homem, Asterion, a comparara a Ariadne. Mas ele estava enganado… A Canção dos Caídos não era apenas sobre Ariadne, a princesa traidora de Creta.

    Ela também era Minos, seu rei. Ela também era Dédalo, que construiu o Labirinto por ordem dele. Ela também era o Minotauro, que foi aprisionado na escuridão e forçado a comer carne humana. Ela também era Teseu, que matou tanto o irmão monstruoso quanto a irmã ingênua que lhe dera o fio que lhe salvara a vida.

    Por isso, não tê-la matado naquele dia foi um erro fatal, irreparável. A Criatura dos Sonhos era um inimigo terrível… tão terrível que dificilmente existia algum ser capaz de superar sua malícia insaciável.

    Portanto, o que o condenaria no final seria sua própria fome. Tentáculos da Vontade estendiam-se em direção ao mar de memórias, agarrando dezenas delas e puxando-as para perto.

    Primeiro, ela absorveu um fragmento minúsculo e insignificante. A lembrança podia ser vaga, mas era mais nítida e vívida do que quase qualquer outra. Seus contornos eram cruéis e cortantes.

    Naquela lembrança, ela era uma jovem assustada deitada sobre uma pedra fria enquanto os sons de um mar escuro a envolviam, enchendo seu coração de terror. O mundo era cruelmente escuro, desprovido de formas e cores. Ela era cega, fraca e inútil. Estava viva apenas graças à benevolência alheia, e mesmo que estivesse com muito medo para pensar nisso, sabia que a taça dessa benevolência poderia secar a qualquer momento.

    Seus companheiros estavam atrás dela agora, conversando em voz baixa. O som de suas vozes a havia despertado, e agora ela não conseguia voltar a dormir.

    “Como você sabia que eu sou uma Herdeira?” Essa era a voz de Nephis. Nephis foi quem a salvou, quando Cassie estava perdida na escuridão, derramando lágrimas enquanto esperava por uma morte solitária e cruel. Mesmo agora, ouvi-la falar fazia Cassie se sentir aquecida… Nephis era como um raio de sol solitário na escuridão que envolvia seu mundo, dando-lhe mais do que mero conforto. Dando-lhe esperança.

    “Simples. Ouvi Caster mencionar isso. Ele estava repreendendo outros Adormecidos para que te tratassem com respeito.”

    Aquela voz pertencia a Sunny, seu novo companheiro. Sunny era praticamente um estranho… mas para Cassie, ele era especial.

    Isso porque, em algum momento durante seus dias na Academia, ela teve uma visão do passado dele. Nessa visão, ele estava comemorando silenciosamente seu aniversário no dia do solstício de inverno, escondendo-se do vento cortante e da fumaça tóxica dos arredores em um contêiner enferrujado.

    Por causa daquela visão, ele era o único Adormecido cujo rosto Cassie reconhecia. Ela já estava cega quando chegou à Academia, então todos os outros — até mesmo Nephis — eram como vozes incorpóreas que a chamavam da escuridão.

    Mas Sunny tinha um rosto. Ouvir sua voz e saber como ele era fez Cassie se sentir humana novamente, e por isso, ela passou a valorizar muito a sua voz.

    “Posso fazer mais uma pergunta?”

    Cassie desistiu de tentar voltar a dormir e abriu os olhos na escuridão, curiosa para ouvir o que ele ia perguntar. Sunny falou num tom seco e indiferente: “Por que você está perdendo tempo com ela?” 

    Cassie congelou.

    Nephis pareceu ter dado um leve sorriso. “Por quê? Você não faria o mesmo?”

    Sua resposta veio após uma breve pausa, soando fria e descontente:

    “Não.”

    ‘Não.’

    ‘Ah…’

    Doía.

    Ela se desapegou da lembrança, sentindo como se suas arestas tivessem ferido sua vontade.

    Era curioso como, às vezes, muitas coisas podiam depender de uma única palavra. Aquela palavra havia tingido a impressão que ela tinha de Sunny com tons mais sombrios, e essa tonalidade mais escura, por sua vez, moldou muito do que aconteceria além daquela velha e escura lembrança.

    A história teria sido diferente se Sunny tivesse dado uma resposta diferente a Nephis naquela noite fria na Costa Esquecida? Se ele tivesse sido capaz de mentir? Teria mudado para melhor ou para pior?

    Ninguém sabia, e ninguém jamais viria a saber.

    Nem mesmo ela.

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