Índice de Capítulo

    O interrogatório continuou por um bom tempo, produzindo as mesmas respostas sem sentido.

    Desperto Yutra era um homem íntegro. Talvez não fosse um homem poderoso, mas, considerando o modesto talento e as oportunidades que lhe foram concedidas, ele era excepcional.

    Ele era um marido e pai amoroso, um amigo leal para seus companheiros Despertos e um valente soldado do Domínio Humano. Tudo o que ele lhes contou sobre si mesmo coincidia perfeitamente com as informações que haviam reunido previamente, e Kai também não percebeu nenhuma mentira no que o homem dizia.

    Ele era um homem bom e leal. Exceto, é claro, pelo fato de que, na mente de Yutra, não havia agora nada mais importante do que Lorde Asterion, seu suposto bem maior.

    Sua devoção à Criatura dos Sonhos era absoluta, sobrepondo-se a todos os outros valores e princípios. Ele não era um homem imoral — muito pelo contrário —, mas sua moralidade abria uma exceção para tudo que estivesse ligado a Asterion. Ele também não era um homem irracional, mas sua razão falhava sempre que Asterion era mencionado, e ele sequer era capaz de perceber que seus pensamentos e opiniões eram descabidos.

    Foi perturbador… precisamente porque Yutra era, fora isso, uma pessoa perfeitamente sã e racional.

    Ao ser questionado sobre assuntos mais detalhados, ele ficava momentaneamente confuso, mas logo em seguida improvisava respostas que se encaixavam em sua visão distorcida do mundo. Yutra não sabia muito sobre o assunto de sua estranha devoção, embora ele próprio não se desse conta disso.

    Ele parecia saber vagamente que Asterion era um Supremo, mas não como a Criatura dos Sonhos havia alcançado a Supremacia ou quais poderes ele detinha. Yutra não se lembrava exatamente de como havia se tornado devoto a Asterion, ou quando. Acima de tudo, ele não tinha a menor ideia de quais eram os planos de Asterion, ou qual seria o seu papel em concretizá-los.

    Tudo o que ele conseguia fazer era sorrir de forma sinistra e repetir palavras incompreensíveis: “União… comunhão… salvação para todos!”

    Ele também não sabia a identidade dos outros servos de Asterion. Claro que não sabia — afinal, nem ele mesmo tinha consciência de estar enfeitiçado. Ao contrário, parecia presumir que todos compartilhavam de suas crenças, como se fosse a coisa mais natural do mundo.

    Nada do que disseram ou fizeram conseguiu abalar minimamente sua devoção.

    Por fim, deixaram Yutra em paz e saíram da câmara.

    Kai os encontrou do lado de fora da cela, com uma expressão perturbada em seu belo rosto. “Ele é completamente louco.”

    Eles ficaram perturbados pela conversa bizarra com Yutra, mas Kai deve ter sofrido muito mais, considerando que pressentiu que tudo o que o servo disse era verdade — ou pelo menos que ele acreditava sinceramente que fosse verdade.

    Sunny assumiu uma forma humana e lançou um longo olhar ao amigo.

    “Se ele fosse louco, não teria problema. O problema é que ele é são demais.”

    Nephis assentiu com a cabeça.

    “Suas faculdades mentais estão todas intactas. O problema é que… os dados originais foram substituídos.” A complexa máquina da mente de Yurta funcionava como deveria. No entanto, a base sobre a qual foi construída — suas crenças e princípios — havia sido adulterada. Portanto, todo o resultado estava completamente contaminado.

    Nephis permaneceu em silêncio por um tempo, franzindo a testa. Por fim, ela disse apenas uma palavra.

    “Problemático.”

    Sunny tendia a concordar.

    “Ele está completamente manipulado… o que é um tipo de problema novo, pelo menos na minha infeliz experiência.”

    Ele suspirou.

    Os ataques mentais sempre foram os mais insidiosos, e os inimigos capazes de utilizá-los sempre foram os mais perigosos. Contudo, ele nunca havia se deparado com esse nível de manipulação mental… geralmente, os servos eram ou desprovidos de mente ou controlados diretamente por seus mestres.

    Yutra, no entanto, não era nem irracional nem controlado. Asterion não o manipulava… não havia necessidade, pois Yutra não era um fantoche. Ele era um indivíduo completamente livre e independente — uma pessoa que ainda possuía sua própria vontade e escolheu servir à Criatura dos Sonhos simplesmente porque acreditava que era isso que estava certo.

    Mesmo que suas crenças tivessem sido corrompidas por manipulação insidiosa.

    “Já nos deparamos com um problema semelhante antes. Vocês também sabem.”

    A voz de Cassie era calma, mas sombria. Sunny olhou para ela surpreso.

    “Já?”

    Ela assentiu com a cabeça.

    “Quando Nephis e eu éramos Adormecidos, fomos enfeitiçadas por uma árvore profana. Ela distorceu nossas crenças, embora não de uma maneira tão sofisticada quanto a que a Criatura dos Sonhos fez… o resultado foi igualmente eficaz, no entanto. Você queimou aquela árvore enquanto explorava a Costa Esquecida anos depois. Portanto, esse problema não é totalmente novo.”

    Os olhos de Sunny se arregalaram um pouco.

    “Ah. Você tem razão. Aquela árvore possuía um tipo semelhante de poder, de fato.”

    Nephis inclinou ligeiramente a cabeça.

    “A Devoradora de Almas devia ser uma muda corrompida da árvore sagrada do Deus do Coração. A Criatura dos Sonhos também herdou a linhagem do Deus do Coração. Que conexão curiosa.”

    Sunny ergueu uma sobrancelha.

    ‘Deus do Coração. O deus das almas, das emoções, do crescimento, das memórias… e da fome.’

    Kai olhou para Nephis e então perguntou em tom contemplativo:

    “Como vocês duas escaparam da maldição mental, tantos anos atrás?”

    Nephis olhou para Cassie, permaneceu em silêncio por um instante e depois baixou o olhar.

    “… Não me lembro bem.”

    Nephis e Cassie talvez não se lembrassem, mas Sunny se lembrava.

    Como eles escaparam da Devoradora de Almas? Através de uma combinação predestinada do aviso profético de Cassie, da teimosia de Nephis, da maldade implacável de Sunny e de uma gota do sangue de Weaver.

    Ele não acreditava que o destino os salvaria novamente. Tanto porque Asterion era incalculavelmente mais poderoso do que a Devoradora de Almas jamais fora, quanto porque ele não estava mais predestinado.

    “Não me lembro bem…”

    Sunny olhou para Cassie, estudou-a por um instante e então perguntou em tom casual: “Considerando que a Criatura dos Sonhos colocou dados corrompidos na cabeça de Yutra… você não pode simplesmente apagá-los?”

    Cassie permaneceu em silêncio por um momento.

    “Você quer que eu altere as memórias dele?”

    Sunny assentiu com a cabeça.

    “Quero que você acabe com a lavagem cerebral dele. Não é como se não tivéssemos considerado essa opção antes. O verdadeiro poder de Asterion se espalha através do conhecimento, e um de nós pode apagar o conhecimento da mente das pessoas. Não seria tolice não tentar usar isso a nosso favor?”

    Cassie virou a cabeça para encará-lo e franziu ligeiramente a testa.

    “O único problema é que serei exposta ao mesmo conhecimento enquanto tento apagá-lo.”

    Ela ficou ali por um breve instante, depois deu de ombros.

    “O que eu quero dizer é… vale a pena tentar.”

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