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    A fome que ele estava sentindo imediatamente diminuiu quando forçadamente engoliu o que estava em sua boca. Pegando uma das ‘empanadas’, olhou para o interior de forma estranha e com desconfiança.

    Isso realmente é o testículo de algum bicho? pensou.

    Vendo isso, a garota o olhou de forma estranha.

    “Espera, por acaso você… não sabia?” perguntou, quando um sorriso se abriu em seu rosto. “Hahaha, você é realmente esquisito.”

    Por que tem tanta comida estranha nesse mundo? indagou-se, lembrando do prato nojento de Moscas Aroga que viu ainda em Vento Amarelo.

    “O que é um Nimbus?” perguntou, olhando para ela.

    “Você não sabe nem isso?” A garota que ria parou por um momento ao ouvir a pergunta. “Isso é uma raça de corcéis alados. Normalmente, eles são usados como montarias e seu preço é muito alto, há alguns que também gostam de usá-los como alimento, já que sua carne é macia, suculenta e saborosa. Só existe um criadouro em toda Avalon, então é extremamente procurado. Mas, geralmente, partes menos desejadas de sua carne, como essa, são vendidas por um preço bem menor.” Ao responder, não pode evitar de deixar escapar mais uma risada.

    Fernando apenas olhou para a garota de cabelos azuis, que continuava rindo, quando apertou uma das sobrancelhas em irritação. Então, sem hesitação, deu mais uma mordida.

    “Comida é comida, se é só isso, então tanto faz”, afirmou, com a boca cheia e um semblante calmo, quando tornou a mastigar a coisa em plena normalidade.

    O humor de Wendy imediatamente diminuiu ao ver isso, sua expressão num misto de surpresa e um pouco de nojo.

    Mesmo tendo perdido parte do apetite, o Tenente fingiu não se importar. Além disso, pensou que não era tão ruim quanto parecia. Ele tinha que admitir que o prato de moscas era demais para ele, mas se era apenas carne equina, então não era grande coisa, mesmo que fosse uma parte estranha. Para alguém que viveu na pobreza, ele já havia comido coisas piores.

    A garota estava prestes a dizer algo, quando ambos, Fernando e Wendy, sentiram um calafrio em seus corpos e imediatamente olharam na mesma direção.

    A partir da entrada, um sujeito de cerca de quarenta anos, extremamente alto, magro, com olheiras escuras e olhos negros profundos, trajando uma roupa larga, que parecia cerimonial, adentrou no local. Atrás dele, havia uma mulher também em torno dos quarenta, cabelos castanhos, olhos azuis e uma pele branca que parecia brilhar, mesmo com claros sinais da idade, sua beleza era radiante.

    No peito do sujeito magro e alto, havia um emblema adornado, escrito Nº1, enquanto da mulher havia Nº2, esses eram os broches das Salas VIPs.

    Enquanto olhava para o homem e para a mulher, Fernando sentiu sua respiração pesar. Ambos estavam claramente emitindo uma pressão em todo o local de forma proposital, seu mana preenchendo todo o ambiente, com uma hostilidade furiosa.

    A garota de cabelos azuis também parecia levemente afetada, mas não tanto quanto o jovem Tenente. Ao vê-lo em dificuldades, ela parou por um momento, pensativa.

    Para alguém com o nível de força dele e de origem humilde, já era surpreendente que ele continuasse de pé mesmo ao sofrer esse tipo de ‘ataque’, mas ele estava até mesmo resistindo a isso de forma bruta!

    Esse cara é realmente estranho. Ele já passou pelo treinamento de alguma Grande Legião? pensou, em dúvida.

    Ao conhecer o superior do rapaz, ficou evidente que ele não pertencia a nenhuma grande organização, mesmo assim era capaz de lidar com esse tipo de situação, apesar de ser um mero Tenente, conforme havia estimado pela troca que tiveram e confirmado após ouvir o sujeito alto chamá-lo por sua patente.

    No mundo das Grandes Legiões, era comum os mais poderosos lançarem um ‘cumprimento hostil’, varrendo seu mana sobre todos no local. Aqueles indignos seriam imediatamente nocauteados, em alguns casos, se alguém fosse muito fraco, poderia até mesmo ser diretamente morto.

    Era por isso que, nos encontros das Grandes Legiões, os fracos simplesmente não tinham sequer o direito de frequentar, pois poderiam ser mortos sem sequer saberem como isso aconteceu.

    Obviamente, nem todos os membros das Grandes Legiões tinham esse tipo de atitude, afinal, lançar uma varredura de mana era extremamente desgastante e tinha um custo exorbitante, além, é claro, de parecer arrogante, mas já era um hábito tão comum nesse meio que Wendy já havia se adaptado.

    No entanto, para alguém que nunca havia sentido a presença furiosa de um General, a sensação brusca não era diferente de estar em alta velocidade e bater de frente com uma parede de concreto, ou estar num deserto quente e no momento seguinte surgir no meio de um campo nevado.

    A menos que alguém já tivesse experimentado isso antes, seria difícil continuar de pé ou manter seus pensamentos organizados, mas o rapaz, embora com alguma dificuldade, não parecia tão surpreso ou impressionado. Na verdade, mesmo que estivesse claramente incomodado, sua expressão estava calma e tranquila, como se isso não fosse nada para ele.

    Era como se ele realmente já tivesse enfrentado esse tipo de pressão inúmeras vezes antes, ou até mais forte! Mas, para isso, alguém precisaria, no mínimo, ter enfrentado a ira de um General.

    Quem é esse cara? A garota se perguntou, intrigada e confusa, com inúmeros pensamentos passando por sua mente.

    Após um breve instante de hesitação, ela colocou relutantemente a mão em seu ombro.

    Assim que Fernando sentiu um toque suave em seu ombro esquerdo, um mana suave, leve e ágil cobriu seu corpo. O rapaz olhou para a garota sem entender, com alguma desconfiança, mas como não parecia algo ruim ou prejudicial, não se opôs.

    Logo que o mana cobriu toda sua pele, sentiu como se um enorme peso tivesse sido tirado de seu corpo e finalmente pôde respirar corretamente.

    “O que você fez?” Fernando perguntou, surpreso.

    “Ao lidar com um mana hostil, você não deve tentar enfrentá-lo de frente, principalmente se for mais poderoso que o seu. Pense nele como um vento poderoso, tentar enfrentá-lo é inútil. Você precisa redirecionar essa energia para os lados”, Wendy explicou, com uma expressão calma e sem olhar diretamente para o rosto do rapaz pálido, como se estivesse envergonhada demais para fazê-lo.

    O jovem Tenente olhou para a garota de forma estranha, perguntando-se por que ela estava o ajudando e explicando sobre isso. Afinal, não fazia muito tempo que ela tinha literalmente tentado arrancar um de seus olhos.

    No entanto, mesmo pensando isso, fez como foi dito. No lugar de resistir à enxurrada de mana, criou uma pequena membrana fina e lisa em torno de seu corpo, fazendo todo o mana que a atingia ser rebatido. Era como usar uma capa de chuva que repelia as gotas que se chocavam contra a superfície lisa, ele ainda podia sentir a rajada de mana o atingindo, mas isso não mais o afetava tanto.

    Obviamente, para alguém como ele, que já sobreviveu a um Campeão Élfico, a Majores e a Generais, a pressão que estava sentindo não era nada além de um incômodo. Mas, mesmo já estando acostumado a enfrentar a hostilidade de outras pessoas e sentir que isso não era um grande problema, Fernando não pôde deixar de admirar essa técnica, já que tornava isso menos cansativo.

    Vendo que o rapaz não só havia entendido o conceito, como o aplicado instantaneamente após apenas algumas palavras, Wendy ficou chocada, quando apressadamente retirou seu próprio mana, deixando-o cuidar de si mesmo.

    Essa velocidade de aprendizado… Ele me lembra aquele cara, Wendy pensou, levemente assustada, se perguntando por que uma pessoa como essa não era membro de uma Grande Legião. Mesmo que atualmente ele fosse extremamente fraco, a garota sentiu que ele tinha um potencial latente muito alto.

    Alguns pensamentos sobre recrutá-lo para a Torre Branca passaram por sua mente, mas, lembrando-se das desavenças que tiveram antes, achou que seria inapropriado. Não só isso, como ela também não tinha certeza de qual tipo de organização o rapaz realmente vinha, afinal ele havia gasto uma quantia considerável no leilão. Alguém do seu nível não deveria possuir tanta riqueza.

    O homem alto e magro, com roupas largas cerimoniais, parou na entrada, observando todos os rostos fixados nele.

    “Vejo alguns rostos familiares”, disse, sorrindo, ao focar-se em Magnólia, apertando os olhos levemente ao vê-la ali, logo depois mudou para um velho barbudo com terno requintado, até finalmente parar em Niesttra, ficando um pouco surpreso ao vê-lo.

    A mulher logo atrás não perdeu tempo, avançou de forma dominadora.

    “Que incômodo, um entulho magrelo obstruindo o caminho”, declarou, ao ultrapassar o sujeito muito mais alto.

    “Melanie, você deveria ter cuidado com o que diz”, o sujeito disse, quando seu rosto virou levemente de lado, causando estranheza em todos que o viram.

    “Eu deveria? Por quê?” A mulher de cabelo castanho e olhos azuis perguntou em tom de ridículo, nenhum pouco intimidada.

    “Porque garotas más são punidas.”

    “Heh… Eu adoraria ser punida”, declarou, com seus olhos azuis claros brilhantes, ao lamber os lábios com uma sensualidade que fez muitos dos homens no local serem afetados. Então, ela o olhou de cima a baixo, quando fez uma careta: “Mas, lamentavelmente, não acho que alguém do seu tipo tenha a capacidade disso, Lehard.”

    O sujeito alto e magro não respondeu a isso, seu sorriso apenas se alargou mais, quando sua cabeça quase virou num ângulo de 90º.

    Vendo isso, a mulher sentiu um calafrio.

    “Ugh… Por que você tem que ser tão bizarro? Realmente é como uma coruja, que nojento. A Legião Karmalía deveria enviar pessoas normais em missões como essa.” Após dizer isso, a mulher foi em direção ao público, ignorando o sujeito.

    “Senhorita Melanie, é um prazer reencontrá-la nessa cidade!” Um homem das Salas Compartilhadas falou, ao se aproximar, com um largo sorriso.

    “Ouvi muito falar da senhora, que honra ver a Eterna Donzela da Legião Falcon com meus próprios olhos”, um outro sujeito disse, de forma bajuladora.

    “Eu nunca imaginaria que tal pessoa elevada estava na Sala VIP 2. É como um anjo, olhá-la é como experimentar um pequeno pedacinho do paraíso.”

    Uma série de comentários lisonjeiros e alguns até ‘apaixonados’ soaram um após o outro.

    Em resposta a isso, a mulher apenas sorriu de forma brincalhona, aceitando-os.

    “Vocês exageram, não é para tanto”, Melanie respondeu, com uma risadinha.

    Enquanto a mulher era rodeada de homens, alguns dos outros membros das Salas Compartilhadas tentaram se aproximar do sujeito chamado Lehard.

    “Lehard, a Coruja, ouvi muito falar do senhor. Eu gostaria de…” Um homem tentou falar com o sujeito, mas, enquanto encarado por aqueles olhos negros profundos, junto àquele rosto sorridente que não parecia estar realmente sorrindo, não pôde evitar dar um passo para trás, recuando. “E-eu lembrei de algo importante que esqueci na minha sala…” Ao dizer isso, o homem apressou-se em direção à saída, desaparecendo e não retornando.

    Vendo aquelas duas pessoas extravagantes, Fernando não pôde deixar de estreitar as sobrancelhas.

    Que gente estranha, pensou.

    Ao lado dele, a garota de cabelos azuis estava apreensiva, seu olhar fixado naquelas duas pessoas, com alguma desconfiança.

    De repente, os olhos da garota se cruzaram com os de Magnólia, a velha também parecia assustada, principalmente após ver Lehard, ela claramente não esperava encontrar um ‘monstro’ como esse naquele lugar.

    Wendy não precisou de muito para entender, o olhar da velha claramente dizia para ela manter distância dele a qualquer custo!

    Vendo isso, a respiração da garota acelerou. Ela já tinha deduzido quem era aquele homem, mas estava em dúvida se Magnólia era ou não capaz de protegê-la dele, mas agora entendeu que não.

    A Legião Karmalía e a Torre Branca nunca tiveram boas relações, mesmo que não fossem inimigos declarados, tinham um grande senso de inimizade. Havia até alguns boatos sobre assassinatos, emboscadas e sequestros ocorrendo entre as duas legiões.

    Em especial, aquela pessoa, Lehard, a Coruja, era alguém famoso nesse aspecto. Mesmo possuindo a patente de General, não atuava em campos de batalha, mas realizando operações secretas. Ele era conhecido como o ‘caçador de Karmalía’, especializado em rastrear e capturar os inimigos da Legião.

    No entanto, o que era mais notável sobre ele não era sua força ou suas especializações, mas os boatos ruins que o envolviam.

    Era dito que na Terra ele havia sido um famoso serial killer que gostava de capturar mulheres atraentes e torturá-las por diversão e não havia perdido totalmente tais hábitos mesmo após sua chegada em Avalon.

    Apesar de ser um tema sensível e abominável, Karmalía sempre sufocava tais boatos, protegendo-o, alegando serem infundados. Mas, para aqueles das Grandes Legiões, eles sabiam que isso definitivamente era real. Karmalía entendia bem que tipo de pessoa ele era, mas o mantinha por perto, como um cão de caça.

    Ciente disso, a garota de cabelos azuis sabia que, se alguém assim descobrisse que ela, um talento oculto da Torre Branca, estava ali, ao alcance de suas mãos, longe de toda a proteção da Legião, era impossível saber o que essa aberração faria com ela!

    Assustada, Wendy olhou para os lados, pensando em sair dali imediatamente, mas lembrou-se de que o sujeito já havia visto seu rosto e ‘a Coruja’ nunca esquecia um quando o visse. Se ela tentasse sair abruptamente, isso certamente chamaria sua atenção.

    De repente, ao ver o rapaz pálido parado ao seu lado, uma ideia maluca veio à sua mente, quando, de forma abrupta, ela envolveu seu braço ao dele, apertando sua mão com força.

    Fernando, que estava parado observando aquelas pessoas, foi pego de surpresa com isso.

    “Ei… me larga”, o rapaz disse, franzindo o cenho, mas a garota não respondeu, apenas olhando para o outro lado. Isso o irritou, afinal, ela era uma maluca que falou sobre matá-lo antes. Além disso, ele era casado, não poderia permitir-se ficar tão próximo de outra mulher. “Eu disse me larg-”

    Quando o jovem Tenente estava prestes a puxar seu braço, a voz de Wendy soou.

    “Por favor… só finge que me conhece, por favor!”

    De repente, Fernando notou algo. O braço da garota estava trêmulo, sua mão estava suando frio e sua respiração instável. Ela estava completamente aterrorizada!

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