Índice de Capítulo

    Nas bordas do Pantano Negro, havia um rastro de lama putrida, levando até a floresta. No fim da trilha, uma figura encapuzada em manto negro repousava de bruços. Seu corpo estava repleto de ferimentos e cortes, completamente imóvel como um cadáver, não havia sequer sinal de uma respiração, por mais sutil que fosse.

    De repente, traços surgiram na parte de trás de sua mão direita, quando uma tatuagem negra apareceu em sua pele branca, formando uma caveira.

    Uma imagem vívida se formava enquanto seus globos oculares giravam de forma errática, em meio a um brilho roxo.

    “Messandra!” A tatuagem de caveira gritou quando se projetou para cima, como se algo estivesse prestes a sair de dentro de sua carne.

    Reagindo a isso, o corpo da mulher tremeu involuntariamente.

    “Ah!” gritou, quando acordou, em pânico, puxando enormes goles de ar e tossindo resquícios de um líquido negro.

    “Messandra! Você ainda vive?” A tatuagem de caveira na parte de trás da mão da mulher sussurrou, enquanto seus olhos roxos fixaram-se nela.

    A mulher encapuzada apoiou-se em seus cotovelos, então fincou uma de suas mãos na terra molhada, forçando-se a se levantar.

    “Eu… não estou morta!” falou, de forma brusca.

    Ouvindo isso, o brilho nos olhos da tatuagem de caveira diminuiu.

    “Ainda não é a hora determinada.” Ao dizer isso, o brilho lentamente se apagou, quando os traços da tatuagem em sua pele começaram a desaparecer, tornando-se novamente de uma cor branca quase acinzentada.

    Vendo isso, a mulher respirou fundo, aliviada, enquanto suava frio.

    Levantando-se com dificuldades, apoiou-se em uma árvore próxima, então puxou seu capuz, revelando uma cabeça lisa e sem um único fio de cabelo. Também não havia pelos em suas sobrancelhas ou cílios; somado à sua pele branca-acizentada, evidenciava uma aparência que causaria estranhamento em qualquer um que a visse.

    Como um Necropto, Messandra havia recentemente abdicado de parte de sua humanidade e o processo de deterioração de seu corpo havia começado, estando nas etapas iniciais de adaptação.

    Mesmo tendo avançado há pouco tempo, seu grande talento na Magia Negra garantiu-lhe o reconhecimento de Mayzor, tornando-a uma de suas servas mais próximas.

    Olhando para os vários cortes em sua pele e roupas, a mulher parecia assustada ao lembrar-se do que viu.

    Por que algo como isso estava aqui? Messandra perguntou-se, aterrorizada.

    Seu plano era acordar as Criaturas das Trevas no fundo do Pântano Negro e, mesmo que não pudesse controlá-las, pretendia direcioná-las para atacar a cidade. No entanto, ela acabou acordando uma existência que não deveria, algo imensamente poderoso, tão poderoso que, frente a isso, até seu próprio Mestre, Mayzor, não seria diferente de uma pequena formiga.

    Devido ao despertar desse ser colossal, as Criaturas das Trevas adormecidas no Pântano Negro haviam entrado em frenesi. Se não fosse pelo Cristal de Proteção que ela preparou previamente, teria provavelmente sido feita em pedaços pelos monstros, mal conseguindo fugir com vida.

    De repente, a Maga Negra lembrou-se de algo, quando apressadamente pegou um saco de pano amarrado à sua cintura, desembrulhando-o. Assim que o fez, revelou um coração negro, batendo.

    Vendo que não havia perdido aquilo, finalmente pôde se acalmar.

    “Preciso continuar minha missão!” A mulher falou consigo mesma, de forma resoluta; então, segurando o coração negro de Mayzor, apontou na direção da cidade e ele reagiu.

    Badum! Badum!

    As batidas eram inconstantes, mas fortes. Isso indicava que quem quer que estivesse com o Fragmento ainda estava vivo e se movendo.

    Ao apontar para o Oeste, percebeu que os batimentos estavam se intensificando. Notando isso, seus olhos se apertaram, pois sabia que essa era a direção que deveria seguir.

    De repente, três Carniçais surgiram da floresta, pareciam estar seguindo seu rastro. Assim que viram a mulher, as três coisas não hesitaram e partiram para cima, suas enormes bocas cheias de dentes abertas, salivando.

    Apesar de Magos Negros e Criaturas das Trevas usarem da Corrupção e da Morte, eles não eram iguais ou sequer se reconheciam como aliados. Enquanto um o usava a seu favor, o outro era a própria Corrupção, formado da essência da Morte.

    Para Criaturas das Trevas, Magos Negros não eram nada além de petiscos extremamente atraentes e saborosos, cheios de Mana de Corrupção para se fartarem.

    Mesmo ferida, Messandra não se deixou abalar. Tocando a Pulseira de Armazenamento que Mayzor lhe entregou, moveu levemente o pulso.

    Um gigantesco corpo morto surgiu atrás dela, pertencente a uma Víbora Negra. Mesmo tendo sido morto há muito tempo, o corpo da criatura parecia relativamente conservado.

    Os três Carniçais se atiraram em direção à mulher, mas ela se manteve imóvel, quando seus olhos piscaram levemente com um fulgor roxo.

    Siiii!

    Swish!

    Um vulto negro passou por Messandra, atingindo em cheio dois dos Carniçais, jogando-os longe, enquanto o terceiro foi abocanhado por algo.

    A outrora morta Víbora Negra agora estava engolindo a coisa, com facilidade. Seus olhos brilhando em roxo intenso.

    Os olhos da Víbora e os de Messandra pareciam ser um e o mesmo.

    Por meio da enorme Víbora Negra, que ergueu seu corpo acima das árvores, Messandra pôde ver claramente o Nidhogg empoleirado nas muralhas de Yandou e o corpo de ambas tremeu.

    O mana de morte e poder puro emanando daquele ser monstruoso era vasto e aterrador. Mesmo sendo uma Necropto, um ser senciente, aquilo fazia-a querer instintivamente se curvar ao ser maligno. No entanto, a mulher e a Víbora resistiram.

    “P-preciso recuperar o Fragmento do Mestre e avisá-lo. O segundo Rei… ainda vive!”

    Dentro da casa de leilões de Yandou, Fernando e Lerona se apressaram para os pisos inferiores. Assim que chegaram lá, depararam-se com uma multidão ocupando os corredores, bem como o auditório.

    Bam! Bam!

    Toda a casa de Leilão começou a tremer quando os sons e urros das Criaturas das Trevas do lado de fora soavam cada vez mais perto.

    “Ah!”

    “Socorro!

    De repente, gritos foram ouvidos a partir da entrada, assim como a correria de pessoas que se iniciou.

    Um mar de Criaturas das Trevas começou a invadir o lugar pelo grande portão de entrada, espalhando-se por todos os lugares, saltando sobre os civis, atacando-os e rasgando sua carne, causando uma verdadeira onda de pânico.

    “Capitã Lerona!” Fernando gritou.

    Mesmo sem explicar nada, a mulher ruiva sabia o que ele queria quando sacou sua lança. Eles precisavam selar a entrada a qualquer custo!

    BOOM!

    Swish!

    O jovem pálido e a Capitã ruiva avançaram lado a lado em alta velocidade pelo grande saguão, Fernando usando seus Passos Tirânicos, enquanto a mulher usava Passos de Mercúrio. Apenas a pós-imagem de ambos foi deixada para trás, quando passaram pelas Criaturas das Trevas, deixando para trás inúmeros corpos destroçados.

    A lança de Lerona era como uma serpente, seu estilo ágil e preciso, perfurando cada inimigo em seu caminho de forma certeira, desviando precisamente das pessoas que fugiam.

    Fernando, por outro lado, tinha um estilo mais bruto e menos delicado.

    BOOM! BOOM! BOOM!

    A cada impulso de seus pés, o chão abaixo se rachava, enquanto o jovem Tenente aparecia e desaparecia, num rastro de névoa vermelha, deixando para trás corpos completamente destruídos de Carniçais e Murmuradores.

    No entanto, conforme avançavam em direção ao portão de entrada, mais estreito o caminho se tornava. Lerona, com seus Passos de Mercúrio, uma Habilidade de Movimento do tipo Agilidade, ainda conseguia manter o ritmo e desviar com facilidade dos civis, mas Fernando, por outro lado, viu-se sem opções além de desacelerar. Ao contrário da Habilidade de Lerona, seus Passos Tirânicos não permitiam muita manobrabilidade. Se ele insistisse, acabaria esbarrando na multidão e, com seu poderoso corpo, acabaria os matando na hora.

    “Senhor, me salve! Eu não quero morrer!” Uma mulher gorda e bem vestida gritou quando se jogou aos pés do jovem Tenente, segurando sua perna. Claramente era uma das participantes do leilão.

    “Saia do caminho!” gritou, enquanto empunhava sua Espada Formek.

    “N-não! Você é um soldado, proteja-me! Me tire daqui! Eu vou te pagar, eu juro!”

    Fernando franziu a testa quando puxou sua perna, mas a mulher continuava a se agarrar a ele, recusando-se a soltá-lo. Pessoas estavam morrendo a cada segundo, mas essa mulher continuava a atrapalhá-lo! Por que ela achava que sua vida era mais importante que a dos outros?

    Vendo um Carniçal derrubando um grupo de pessoas à frente e rasgando-as ainda vivas, ele sentiu seu sangue ferver.

    Droga! Você pediu por isso! pensou, furioso.

    Sem escolhas, o rapaz fechou o punho e acertou o rosto da mulher em cheio, fazendo-a cair desacordada, finalmente soltando-o. Ele havia feito seu melhor para pegar leve no golpe, mas não tinha certeza de qual seria seu estado quando acordasse.

    “N-não! Não!” Um homem gritava, enquanto tentava segurar a cabeça do Carniçal, que se afundou em suas entranhas, rasgando-o e mordendo-o por dentro, devorando suas vísceras com ele ainda vivo.

    Sem o impulso de seus Passos Tirânicos, Fernando estava incerto sobre matar a coisa em um único golpe, então balançou sua Espada Formek, ativando sua Habilidade de Vibração, ao mesmo tempo que ativou Fúria, aumentando seu Físico.

    Ziiii! Swish!

    Mesmo sentindo a carne dura da coisa, a espada a perfurou, decepando sua cabeça num movimento limpo, fazendo o corpo desabar sobre o homem, que exalava seus últimos suspiros.

    “M-me mata…” O sujeito clamou, com uma voz trêmula, sua voz embebida em dor e agonia.

    Fernando viu isso e rangeu os dentes, mas apenas o ignorou. Logo à frente já havia outro Carniçal e um Chakal. Ele simplesmente não tinha tempo para ser benevolente!

    Se ele não fechasse o portão da Casa de Leilões, todo aquele lugar seria tomado por Criaturas das Trevas! Se isso acontecesse, mesmo ele não sairia vivo dali!

    Enquanto o jovem Tenente havia ficado para trás, matando as criaturas que passaram pela Capitã, Lerona continuava avançando sem impedimentos, mas, quanto mais perto chegava do portão, mais e mais Criaturas das Trevas entravam em seu caminho.

    Swish! Swish!

    Dois Espreitadores Sombrios estavam entre as Criaturas à frente, lançando espinhos em sua direção, um deles mirando seu torso, enquanto outro vinha em direção ao seu rosto.

    A Capitã ruiva torceu o quadril levemente, ao mesmo tempo em que inclinou o rosto para o lado, deixando que os projéteis passassem por ela. Mesmo que ela fosse uma Capitã, se um único desses espinhos a ferisse, ela definitivamente estaria morta!

    Após desviar dos projéteis, ela brandiu sua lança para frente, sem nunca parar de avançar, girou sua arma e atingiu a cabeça de um dos pequenos cães, esmagando-o.

    O outro pequeno cão tentou fugir, mas um brilho multicolorido o perseguiu, perfurando-o como um raio. Lerona havia lançado sua lança contra a criatura, ficando-a no chão!

    Sem perder tempo, moveu o pulso, retirando outra lança de sua Pulseira de Armazenamento, quando varreu em direção aos Carniçais, Murmuradores, Chakais e todos os tipos de aberrações que vinham em sua direção.

    Swish! Corta! Perfura!

    Quanto mais ela avançava, mais seu corpo era banhado de resquícios de sangue pútrido e mais apertado era o saguão, sobrando cada vez menos espaço para desviar ou balançar sua longa arma. Além disso, mais e mais criaturas entravam a cada segundo.

    Rosna!

    Shaa!

    “Ajuda!”

    A multidão aglomerada de seres das trevas emitia todo tipo de ruído bizarro e aterrador.

    Vendo aquela cena assustadora, mesmo Lerona começou a ficar assustada e a hesitar, perguntando-se se seria capaz de sequer chegar à entrada. Nesse ritmo, ela logo estaria cercada e vencida!

    Apesar disso, a Lança Boreal sabia que não havia mais retorno e nem como retroceder. Sendo assim, tudo que poderia fazer era continuar avançando!

    Swish! Perfura! Corta!

    Como um vendaval, Lerona continuou avançando, o brilho de sua Magia de Luz acendendo-se e apagando-se a cada movimento, em flashes intensos, derrubando um inimigo após o outro.

    Swish!

    A garra de um Carniçal passou de raspão em suas costas, rasgando a armadura e a ferindo levemente. Felizmente, ela havia ativado sua Habilidade de Pele de Aço no último instante, impedindo um ataque fatal. No entanto, ela não dominava a habilidade totalmente e só conseguia ativá-la em pequenas partes do corpo, uma de cada vez, então os ferimentos logo começaram a se acumular.

    Ativando a Respiração Contínua, um vapor denso escapou da boca de Lerona, enquanto ela fazia seu melhor para continuar cortando e fatiando qualquer coisa em seu caminho. Nesse momento, havia tantas Criaturas das Trevas ao seu redor que, se ela parasse de se mover um segundo sequer, seria desmembrada em instantes.

    Fernando, que havia ficado para trás, estava desesperadamente tentando chegar até ela, mas, mesmo que não houvesse mais tantos civis à frente, dezenas de Criaturas das Trevas estavam entre ele e Lerona, impedindo-o de usar Passos Tirânicos.

    Vendo a mulher ficando cada vez mais encurralada, seu coração acelerou.

    Merda, se eu não fizer algo, a Capitã Lerona vai morrer! pensou, em pânico.

    Enquanto Lerona cortava, perfurava e varria com sua lança em movimentos insanamente rápidos, cortes e perfurações estavam surgindo em todo seu corpo.

    Sem escolhas, Fernando avançou de forma imprudente, quebrando e cortando os Carniçais e Chakais à frente na força bruta, quando, num movimento errático com sua Espada Formek, um tilintar soou; a Vibração falhou e a espada ficou presa na pele de um Carniçal!

    Merda! 

    A garra da coisa se levantou contra seu rosto, quando ele reflexivamente puxou com todas as suas forças para se defender, apenas a tempo de aparar o ataque, mas a força da criatura foi tão grande que a base da espada chocou-se contra seu rosto, atingindo-o e fazendo sangue jorrar por suas narinas.

    O jovem Tenente viu tudo girar e estava fazendo seu melhor para abrir os olhos e recuperar seu equilíbrio para se defender, mas sua visão estava nublada e confusa, simplesmente não havia como!

    Fuuuu!

    Nesse exato momento, uma brisa suave tocou as costas de Fernando e, antes que ele pudesse notar, longos cabelos azuis bateram contra seu rosto.

    Quando sua visão retornou ao normal, Wendy Ana, a jovem gênio da Torre Branca, estava parada à sua frente, erguendo uma Barreira de Vento, impedindo que os Carniçais e Chakais o atacassem, deixando-o completamente surpreso.

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