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    Passado, Presente e Futuro – Parte V


    Rudolf, o Grande, fora um gigante literal, alguém que governava sobre todos com seu ar incomparavelmente intimidador. Seu sucessor mais civilizado, Sigismund I, era um tirano extremamente competente. Ele reprimiu unilateralmente a insurreição republicana, ao mesmo tempo em que mantinha uma administração governamental relativamente justa para aqueles “bons cidadãos” que o seguiam. Ele usou habilmente uma política de recompensa e punição para reforçar a pedra angular do Império estabelecida por seu avô. E embora o Imperador da terceira geração, Richard I, que o sucedeu, amasse mulheres bonitas, caça e música mais do que o governo, ele nunca ultrapassou seus limites como soberano. Ele levava uma vida cautelosa, caminhando por uma delicada corda bamba entre sua Imperatriz obstinada e sessenta concubinas, sem nunca cair no chão.

    O quarto Imperador, Ottfried I, era mais resoluto que seu pai, mas gozava de boa saúde, era austero e prosaico. Para quem o conhecia, ele era um chato total. Parecia que seu único objetivo na vida era cumprir uma rotina diária precisa, com o mínimo de variação possível.

    Sua total falta de interesse por música, artes plásticas ou literatura lhe rendeu o apelido de “Earl Grey”, pois sua vida era de fato monótona e sem graça. Dizem que os únicos livros que ele lia voluntariamente eram as memórias do pai fundador, Rudolf, o Grande, juntamente com alguns volumes aleatórios sobre medicina doméstica. Ele era um conservador solene que abominava qualquer tipo de mudança ou reforma como se fosse um vírus e se agarrava aos precedentes estabelecidos por Rudolf, o Grande, a quem tanto admirava.

    Certa vez, seguindo recomendações de seu médico e nutricionista, Ottfried havia terminado seu almoço composto por vegetais, laticínios e algas marinhas. Ele estava prestes a sair para sua caminhada de quinze minutos, bem na hora marcada, quando uma mensagem urgente o informou de que uma gigantesca explosão em uma base militar havia causado a morte de mais de dez mil soldados.

    O Imperador não pareceu impressionado com a notícia. “Este relatório não estava na agenda de hoje.”

    Para ele, a agenda onipotente era uma entidade inviolável — isso apesar do fato de que lhe faltava tanto a criatividade quanto a capacidade de planejamento para elaborá-la por conta própria.

    Tais deveres ele deixava a cargo do Secretário Particular Imperial, o Visconde Eckhart, cuja responsabilidade e autoridade aumentavam como a areia em uma ampulheta. Antes que alguém percebesse, Eckhart passou a ocupar os cargos duplos de Conselheiro Privado e Secretário-Geral do Palácio Imperial, onde também atuava como Secretário do Conselho Imperial. Como até mesmo aqueles com pouca perspicácia podiam ver, o Imperador pálido havia se tornado nada mais do que um autômato barato dançando ao som de qualquer melodia que o Visconde Eckhart tocasse para ele. Quando o Imperador morreu, ninguém se importou o suficiente para comemorar sua vida de forma significativa.

    Kaspar, filho de Ottfried, estava destinado a se tornar o quinto Imperador do Império Galáctico. Como Príncipe Imperial, demonstrava uma inteligência acima da média, mas essas qualidades foram se esvaindo à medida que amadurecia. É provável que ele tenha ocultado sua sabedoria como forma de rebelião contra as tendências despóticas de Eckhart.

    “Se o falecido Imperador era uma prosa enfadonha”, sussurravam seus ministros mais experientes, “então nosso atual soberano é uma poesia igualmente enfadonha”. De fato, ele se parecia muito mais com seu avô do que com seu pai, valorizando as artes e a beleza acima de todas as coisas. Só que ele era menos hábil em caminhar pela corda bamba que seu avô havia deixado intacta.

    O que chamou a atenção da Imperatriz viúva e dos ministros mais antigos foi a aparente falta de interesse do príncipe herdeiro pelo sexo oposto. Ele tinha uma predileção especial por um castrato do coro imperial. Castrados ainda jovens, os castrati há muito preservavam a tradição dos meninos-sopranos e continuavam sendo parte integrante dos coros imperiais e da igreja.

    Mesmo após a coroação de Kaspar, ele se apaixonou por um elegante cantor de quatorze anos chamado Florian, não dando ouvidos a nenhuma das propostas de casamento que a Imperatriz viúva lhe apresentava, por mais atraente que fosse a perspectiva.

    Rudolf, o Grande, que havia massacrado homossexuais em massa como poluentes que, de outra forma, contaminariam o futuro, agora havia gerado um homossexual entre seus descendentes. Se prestasse atenção, quase seria possível ouvir seus gritos de indignação vindos do além-túmulo.

    Enquanto isso, o verdadeiro poder político permanecia firmemente nas mãos de Eckhart. Tendo ascendido ao título de Conde, ele era agora um homem de influência incomparável, referido meio em tom de brincadeira como o “imperador parasita”. Ele transformou o tesouro nacional em seu playground pessoal, onde exercia o peso de um corpo corpulento desprovido de virilidade. À medida que esgotava seu senso de responsabilidade e habilidade como administrador político, sua sede de poder continuava a afligi-lo. Ele tentou oferecer sua própria filha como a nova Imperatriz, mas ela se parecia com o pai agora mais do que nunca.

    Eckhart procurou o Imperador na esperança de desviar a atenção de seu senhor de Florian, mas, embora o Imperador sempre tivesse seguido seus conselhos em outros assuntos, ele não se deixou persuadir nem coagir nessa questão. No momento em que Eckhart entrou na Sala das Rosas, foi baleado e morto por um bando sob o comando de um tal Barão Risner. Risner, que sempre detestara a tirania de Eckhart, recebera o consentimento do Imperador para executar esse “servo desleal”. Tudo bem, mas na sequência desse tumulto, o Imperador deixou uma declaração escrita de abdicação em seu trono e fugiu com Florian e, ainda por cima, com um punhado de joias. Isso aconteceu exatamente um ano depois dele ter assumido o trono.

    Após 140 dias de vácuo, o irmão mais novo do ex-Imperador Ottfried, o Arquiduque Julius, assumiu a coroa abandonada. Os ministros imperiais mais graduados, no entanto, tinham os olhos voltados para seu filho mais popular, Franz Otto.

    Na época de sua coroação, o Imperador Julius já tinha setenta e seis anos, mas gozava de excelente saúde para sua idade. Cinco dias após sua entronização, ele montou um harém de vinte belas concubinas e, um mês depois, acrescentou mais vinte.

    Coube ao príncipe herdeiro de meia-idade, o Arquiduque Franz Otto, satisfazer as necessidades da política nacional enquanto o Imperador satisfazia as de seu corpo ainda viril. Franz Otto corrigiu grande parte da corrupção herdada da era Eckhart, fez cumprir a lei e reduziu ligeiramente os impostos para os cidadãos comuns. Os ministros mais experientes estavam confiantes de que haviam feito a escolha certa. Mas Julius I, de quem esperavam que falecesse mais cedo ou mais tarde, manteve-se firme no trono até os oitenta, depois até os noventa anos.

    No fim, por uma estranha reviravolta do destino, quando o Imperador Julius tinha noventa e cinco anos, o “príncipe herdeiro mais velho da história da humanidade”, Sua Alteza o Arquiduque Franz Otto, morreu de doença aos setenta e quatro. E como os filhos do Arquiduque haviam morrido todos jovens, seu neto Karl tornou-se “bisneto herdeiro do trono imperial” aos vinte e quatro anos.

    Karl teria de esperar apenas alguns anos antes de colocar a coroa imperial, embora para ele parecia que o Imperador pudesse viver para sempre. Julius era um homem idoso desde que Karl se lembrava. Ele ainda era um homem idoso e continuaria a sê-lo por muitos anos. Será que esse “saco de ossos imortal”, ele ponderou, continuaria a sugar a força vital das gerações futuras, persistindo mesmo enquanto definhava naquele caixão incrustado de joias a que chamava de trono?

    Karl não era um jovem particularmente supersticioso, mas a superstição o levara a ver o Imperador através de lentes levemente tingidas de medo e ódio. Consequentemente, sua malícia para com o velho Imperador era, além de suas próprias ambições, no mínimo cultivada no adubo da autopreservação. Toda essa especulação e impaciência levaram ao primeiro parricídio em toda a história do Império Galáctico.

    Em 6 de abril, ano 144 do antigo Calendário Imperial, Julius I, de 96 anos, jantava com cinco de suas concubinas, cuja idade combinada ainda não chegava a igualar a expectativa de vida do próprio Imperador. Depois de devorar sua carne de veado com o apetite de um adolescente, ele estava finalizando a refeição com um pouco de vinho branco gelado quando começou a ter dificuldade para respirar. Ele vomitou a refeição e, momentos depois, morreu em um espasmo de agonia, com a toalha de mesa de seda branca ainda apertada na mão.

    A morte repentina do velho Imperador chocou seus ministros mais graduados, menos por suspeita do que pelo próprio alívio de que o velho finalmente tivesse perecido. Na verdade, seus ministros, quase sem exceção, estavam entediados com ele. O Arquiduque Karl presidiu um funeral grandioso, embora sem emoção. Todos os ministros mais graduados esperavam que o jovem novo Imperador implementasse uma nova administração após o período de luto obrigatório. O povo não esperava nada. Carecendo de qualquer autoridade política , eles faziam o melhor que podiam, levando uma vida de trabalho árduo e prazeres simples. Mas em 1º de maio, dia da coroação, o público ficou tão surpreso quanto os ministros mais antigos quando não foi o Arquiduque Karl, mas o segundo filho do ex-Arquiduque

    Franz Otto e primo de Karl, o Marquês Sigismund von Brauner, que aceitou solenemente a coroa imperial.

    As razões por trás da entronização de Sigismund II, é claro, nunca foram tornadas públicas. Agora, mais de três mil anos depois, os arquivos finalmente revelaram a verdade por trás dessa mudança de última hora. Após a morte repentina do velho Imperador, as cinco concubinas que estavam sentadas à sua mesa foram forçadas pelo Arquiduque Karl a seguir seu senhor até a sepultura. Tendo servido ao velho Imperador com tanta fidelidade, naquele momento de crise entraram em pânico, recusando-se a transferir seus deveres para o reinado seguinte. Por esse crime, foram condenadas a tirar suas próprias vidas.

    As cinco concubinas foram confinadas a um quarto situado na parte de trás do palácio, onde foram forçadas a beber veneno. Pouco antes de tomar aquela dose fatal, uma das concubinas escreveu a verdade com batom no interior de sua pulseira e mandou-a enviar ao irmão mais velho, um oficial da brigada imperial. Ao ler a mensagem, o irmão descobriu que o Arquiduque Karl havia revestido o interior da taça de vinho de Julius com um veneno que, uma vez absorvido pelo revestimento do estômago, diminuía rapidamente a capacidade dos glóbulos vermelhos de absorver oxigênio. Sua irmã mais nova, a concubina, havia sido subornada por Karl para ser sua cúmplice. O irmão decidiu naquele momento vingar a morte da irmã. Ele apresentou as provas a Sigismund, segundo na linha de sucessão ao trono. Sigismund ficou agradavelmente surpreso por ter um motivo justo para destituir Karl e, após algumas manobras dentro do palácio, conseguiu forçar Karl a renunciar à sua sucessão ao trono imperial. Ele não conseguiu divulgar o fato de que o Imperador havia sido envenenado por seu próprio bisneto e, assim, realizou seu próprio pequeno golpe de Estado a portas fechadas.

    Depois de ser confinado no palácio, Karl foi transferido para uma instituição psiquiátrica nos arredores da capital imperial. Lá, atrás de paredes grossas, ele foi tratado bem o suficiente para viver uma vida longa, superando seu bisavô ao falecer aos noventa e sete anos. Na época de sua morte, os reinados de Sigismund II e Ottfried II haviam dado lugar à era de Otto Heinz I. Não havia mais ninguém na corte que se lembrasse do nome do velho que não conseguiu assumir o trono mais de setenta anos antes. Entre a morte de Karl no ano 217 do Calendário Imperial e a Batalha de Dagon, vencida pela Aliança dos Planetas Livres em 331, a Dinastia Goldenbaum teria mais oito imperadores, dando origem às suas próprias histórias em um espectro que abrangia o bem e o mal.


    Enquanto percorria com os olhos esse relatório provisório não oficial que lhe fora apresentado pelo Ministério das Artes e da Cultura, Reinhard se pegou, por vezes, sorrindo com desdém, em outros, parando para mergulhar em pensamentos profundos. Embora não tivesse a paixão de Yang Wen-li pela história, aqueles que tinham planos para o futuro não poderiam alcançá-los sem conhecer os projetos do passado.

    Não que todos os indicadores pudessem ser encontrados no que já havia acontecido. Reinhard não era do tipo que seguia o caminho de outra pessoa. 

    Porque agora, todos estavam seguindo o dele.

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