Capítulo 91: Bilhete de Loteria
“Moço!” chamou uma voz arrastada. “Acorda aí!”
Qi Xia abriu os olhos devagar. Percebeu que ainda estava sentado no táxi, voando por uma rodovia.
Sentou-se, confuso. Ao olhar para o céu azul-celeste, um choque incontrolável tomou conta de si.
“Moço, o que foi?” continuou a voz ao lado.
Qi Xia ignorou a pergunta e levou a mão ao próprio ombro. Não havia ferimento algum.
Apressou-se em baixar o vidro do carro.
Um ar doce e fresco invadiu suas narinas de forma avassaladora, enquanto o vento forte da alta velocidade batia no seu rosto.
Era ar puro, um vento refrescante.
“Eu consegui fugir?!” gritou ele, perdendo o controle, com uma alegria impossível de conter estampada na expressão.
Será que este táxi é a chave para quebrar as regras?
Ele é como o Barco do Rio Estige, capaz de levar as pessoas para dentro e para fora daquela bizarra Terra do Fim livremente. E a Xu Liunian é como Caronte, o barqueiro do submundo… Ela é responsável por transportar os passageiros de volta ao mundo dos vivos…
Qi Xia virou o rosto e paralisou.
Onde está a Xu Liunian?
No banco do motorista, havia um brutamontes de óculos escuros. Devido à profissão, a pele dele estava queimada de sol, escura e brilhante.
“Moço, por que essa empolgação toda?” O Brutamontes o olhou com um pingo de medo. “Você não usou droga, né?”
“Você… eu…”
Eu já vi esse cara, pensou Qi Xia, mas por mais que tentasse, não conseguia se lembrar.
“Para onde nós estamos indo?” perguntou.
“Moço, não me assusta.” O motorista podia ser imenso, mas ainda assim engoliu em seco, tenso. “Não foi você quem pediu corrida até Jinan? A gente já rodou quase trezentos quilômetros, não me venha com amnésia agora.”
O homem apontou para o taxímetro, que já marcava mais de novecentos yuans.
“O quê?!” Qi Xia olhou em choque para a placa na rodovia. O carro estava mesmo prestes a entrar em Jinan.
Lembrou-se de tudo num instante: ele realmente já tinha visto esse motorista.
Porque, no dia anterior ao terremoto, foi exatamente nesse carro que ele entrou, indo para Jinan sem olhar para trás.
“Voltei para o dia anterior?” murmurou Qi Xia, enfiando a mão no bolso e puxando o celular. Deu uma olhada rápida na tela e franziu a testa. “Vinte e sete de setembro… É mesmo o dia antes do ‘terremoto’… O que está acontecendo?”
Com isso em mente, levou a mão rapidamente ao bolso do peito. Havia um pequeno pedaço de papel ali.
Ainda bem… continua aqui.
“Moço… o que deu em você…?” O motorista já não sabia o que fazer. Tateou o próprio celular no bolso, mantendo o polegar pronto no botão de emergência.
“Amigo, combinamos dois mil yuans de ida e volta, e eu vou te pagar até o último centavo”, disse Qi Xia, começando a relaxar. Embora não fizesse ideia do que de fato tinha acontecido, tudo parecia ter recomeçado.
“Sério?” Vendo que Qi Xia parecia mais estável, o motorista também baixou a guarda. “Você tá tão pilhado, meu jovem, que achei mesmo que tava drogado…”
“Não, eu só tive um pesadelo horrível”, respondeu Qi Xia, mantendo a janela aberta para deixar a brisa de setembro bater em seu rosto. Sentia-se incrivelmente leve. “Ainda bem que já acordei.”
“Ah, vocês jovens adoram virar a noite, né?” comentou o motorista, soando experiente. “Não dormem de noite, aí apagam de dia. Como vão ter sonho bom?”
“Você tem razão”, concordou Qi Xia, distraído.
É uma segunda chance. Embora o terremoto vá chegar ao meio-dia de amanhã, minha prioridade agora é pegar o dinheiro. Afinal, hoje é o “prazo final”.
Cerca de uma hora depois, o táxi finalmente chegou à área urbana de Jinan.
O motorista ligou o GPS em direção à Avenida Erhuan Leste, no distrito de Lixia.
“Rapaz… esse lugar pra onde você vai…” O homem olhou bem para o mapa. “Parece o centro estadual de loteria?”
“Só dirija, amigo”, pediu Qi Xia, fechando os olhos para descansar de novo.
Pouco tempo depois, o carro estacionou em frente ao centro lotérico. Qi Xia contou mil yuans do bolso.
“Espera por mim aqui, por favor. Se quiser voltar sem passageiro, não me importo”, disse, entregando o dinheiro ao motorista.
“Que isso… claro que vou te esperar.”
Qi Xia caminhou até a entrada do prédio, onde um funcionário já o aguardava.
“Senhor Qi, certo?”
“Sou eu”, confirmou.
“Estou esperando o senhor há um bom tempo. Por aqui, por favor.” O funcionário gesticulou, guiando-o até o saguão. Após alguns passos, explicou com cortesia: “O processo de retirada do prêmio foi simplificado. Daqui a pouco, alguém vai verificar a autenticidade do seu bilhete. Se estiver tudo certo, emitiremos um cheque bancário na mesma hora. Aguarde só um instante.”
“Estou com pressa, então agilize o máximo possível”, solicitou Qi Xia, acompanhando o homem até o balcão de verificação.
“Hã… o senhor poderia me entregar o bilhete?” pediu o funcionário.
Qi Xia tirou o pedaço de papel amassado do bolso do peito e o entregou, e o funcionário imediatamente o repassou para o verificador atrás do vidro.
O verificador tratou o assunto com total seriedade, iniciando a análise na mesma hora.
“Prêmio de um milhão e novecentos mil. Aguarde um instante”, avisou, pegando o aparelho para escanear os números.
Qi Xia esperava em silêncio ao lado, o que deixou o funcionário que o guiou confuso: “Senhor Qi, por que o senhor não parece feliz?”
“Feliz?”
“É, o senhor acabou de ganhar quase dois milhões. Devia estar radiante.”
“Talvez”, respondeu, dando de ombros.
“Sabe, outro dia uma pessoa ganhou um milhão e, mesmo sendo pleno agosto, apareceu aqui de casaco de neve e com uma máscara gigante. Fala sério, hoje em dia quem ainda trata um milhão como se fosse um tesouro?” O próprio funcionário gargalhou da piada. Já Qi Xia não esboçou reação alguma, o que deixou o clima bem constrangedor.
“Falta muito?” perguntou.
“É… não precisa ter pressa…” O funcionário balançou as mãos. “Temos tido vários casos de golpes com bilhetes falsos ultimamente, então precisamos fazer uma checagem rigorosa.”
“O que quer dizer com isso?” perguntou Qi Xia, franzindo a testa ao encará-lo.
“Ei, não me entenda mal…” O homem abriu um sorriso amarelo na mesma hora. “Não estou dizendo que o seu bilhete é falso. O senhor não tem cara de quem daria um golpe.”
Ele não respondeu, apenas continuou esperando.
Pouco tempo depois, o verificador guardou a máquina e sorriu: “Tudo certo. O bilhete é autêntico, já podemos emitir o cheque.”
Qi Xia deu uma risada fria por dentro.
Claro que o bilhete é autêntico.
Comprei este bilhete premiado de um milhão e novecentos mil por dois milhões em dinheiro vivo. É um prêmio de verdade. Embora eu perca trezentos e oitenta mil de imposto, o dinheiro restante fica “limpo”.
Para legalizar dois milhões adquiridos com fraude, esse é um dos métodos mais simples.
“Meus parabéns, Senhor Qi…”, continuou o funcionário de forma amigável. “Vou pedir para emitirem o cheque agora mesmo. O senhor gostaria de fazer uma doação?”
“Doação? É obrigatório?” perguntou Qi Xia.
“Não mesmo, é que a maioria dos ganhadores costuma doar uma parte.”
“Se não é obrigatório, então não vou doar um centavo sequer.”

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