Capítulo 90: De Olhos Abertos
“Xu… Liunian.” Qi Xia assentiu de leve. “Muito poético.”
“Bonito, né?” Xu Liunian deu um leve sorriso, ainda dirigindo com os olhos fixos na rua. “Eu até achava que esse nome ia me transformar numa grande estrela, mas acabei dirigindo um táxi, haha.”
Qi Xia acompanhou a risada com um som fraco e sem energia, mas logo sua expressão escureceu.
“Xu Liunian, que tipo de piada você está fazendo comigo?”
“Como assim?”
Qi Xia estendeu a mão pálida e apontou para a licença de motorista pendurada bem na frente dele.
“A foto aqui… é realmente sua.”
“Sim, o carro é meu, então a minha licença fica pendurada aí. Qual o problema?” perguntou Xu Liunian, confusa.
“Não se faça de boba…” Qi Xia tossiu violentamente. Puxou o ar com força e continuou: “Se a licença está aí, quer dizer que este carro é mesmo seu… Então quem é você? Por que tem um carro que te pertence nesta cidade?”
“Não estou entendendo”, disse Xu Liunian, balançando a cabeça. “Moço, você sempre conversa assim com os outros?”
Como é possível que uma Participante seja trazida para cá junto com um carro?!
A mente de Qi Xia estava prestes a explodir.
Embora seja ridículo falar sobre “visão de mundo” num lugar bizarro como este, a existência dessa mulher bem na minha frente ultrapassa qualquer limite de compreensão.
Eu achava que os Nativos… aqueles mortos-vivos… eram antigos Participantes que enlouqueceram e se perderam por ficarem tempo demais aqui. Mas agora, bem diante dos meus olhos, tem alguém como a Xu Liunian.
O comportamento dela é bizarro, mas a mente está perfeitamente lúcida. Ela tem a própria propriedade no meio desta cidade.
“Sério, não estou entendendo”, repetiu Xu Liunian. “Se você só quer arrumar problema, moço, é melhor descer do carro logo.”
Qi Xia sacudiu a cabeça com força, tentando se manter acordado e provar a si mesmo que não estava tendo alucinações.
“Xu Liunian…” chamou ele.
“O que foi agora?” Ela já não tinha a mesma educação de antes; a voz soava carregada de impaciência.
“Dirigindo um táxi… quantos passageiros você pega por dia?” Qi Xia mudou de assunto de repente, fazendo uma pergunta corriqueira.
“Eu…” Ao ouvir isso, Xu Liunian travou. Parecia que nunca tinha parado para pensar naquilo. Ponderou por um bom tempo antes de responder: “Acho que você é o meu primeiro passageiro hoje…”
“E quantos passageiros você pega numa semana?” perguntou ele de novo.
Xu Liunian sentiu como se houvesse uma área escura, escondida em sua mente por muito tempo, que estava sendo rasgada pouco a pouco pelas perguntas desse homem.
Antes desse encontro, ela sentia que estava tudo bem. Mas agora, instigada por essas perguntas, lembranças dolorosas jorraram em sua cabeça como uma onda avassaladora.
“Acho que… não peguei nenhum passageiro a semana inteira…” A expressão dela ficou distante, os olhos movendo-se de um lado para o outro sem parar, tentando lembrar de algo.
Qi Xia percebeu que as perguntas estavam abalando ela e continuou pressionando:
“O que você comeu essa semana inteira? O que bebeu? Para onde você vai depois que encerra o expediente?”
“Eu… eu…” O pânico tomou conta do rosto de Xu Liunian, que parecia à beira de um colapso nervoso. “Faz muito tempo que não como nada… Quando não tem passageiro, eu só… fico parada no acostamento…”
“Faz quanto tempo… que você está parada no acostamento?” O tom de Qi Xia era calmo, mas todos os pelos do seu corpo se arrepiaram, com medo da resposta macabra que ouviria.
Screeech!
Um som agudo de pneus derrapando ecoou quando Xu Liunian cravou o pé no freio, parando o carro bruscamente no meio da rua.
Com os lábios trêmulos, ela encarou a estrada. O olhar tinha mudado: agora havia emoção nele, algo completamente diferente dos mortos-vivos vagando pelas calçadas.
“Eu fiquei parada no acostamento por dois anos!!!” gritou ela, a voz falhando antes de desabar num choro desesperado. “Meu Deus… O que está acontecendo comigo?!”
“Dois…” Qi Xia engoliu em seco, a garganta travada. “Você não come, não bebe e não dorme, e ficou parada no acostamento por dois anos?”
Ela estendeu as próprias mãos e olhou para elas, finalmente entendendo a realidade.
“É por causa deste carro… Quando vi este carro na cidade, foi como se eu estivesse enfeitiçada…”
“Tem alguma coisa estranha com este carro?” perguntou ele.
“Como é possível eu ter encontrado o meu carro aqui… Eu nem sequer…” Xu Liunian virou a cabeça de repente, só então reparando nas roupas de Qi Xia encharcadas de sangue. “Você está machucado?”
“Não é nada…” Qi Xia balançou a cabeça. “Esses ferimentos não importam… Você está lúcida agora?”
Com as mãos trêmulas, Xu Liunian examinou o estado dele e percebeu que a superfície do ferimento tinha sido tratada de forma bruta. A carne estava queimada, derretida pelo calor extremo; embora o sangramento estivesse estancado, as marcas da queimadura eram gravíssimas.
“Você está tão machucado… Se não achar remédio rápido…” Ela soluçou no meio da frase. “Quase esqueci. É impossível encontrar remédios num lugar como este…”
“Sim, este lugar simplesmente não tem as condições para nos manter vivos”, disse Qi Xia, olhando desolado para o horizonte. “Xu Liunian, eu não tenho muito tempo. Você poderia me fazer um último favor?”
“P-pode falar.”
“Continue dirigindo.” Ele a encarou. “Eu quero fugir daqui. Quero ver a fronteira desta cidade.”
Xu Liunian o olhou com tristeza. Sabia que o simples fato de ele ainda estar consciente era praticamente um milagre.
“Tudo bem, eu levo você até o limite da cidade. Aguente firme.”
Ela engatou a marcha de novo e, tremendo, fez o carro voltar a andar.
Qi Xia encostou a cabeça na janela, observando a paisagem passar cada vez mais rápido do lado de fora.
Tossiu fraco duas vezes, sentindo algo na garganta pressionar a traqueia. Puxar o ar era um sacrifício enorme.
Com a sua vida entrando em contagem regressiva, Qi Xia não viu o filme da sua vida passar pelos olhos. Em vez disso, viu os prédios em ruínas ficando rapidamente para trás.
Lembrou-se daquele dia em que também entrou num táxi, indo em direção a outra cidade sem olhar para trás.
Achei que, voltando pra nossa cidade natal, a Yu Nian’an e eu teríamos uma vida boa… Nunca imaginei que…
Nas ruas desertas, Xu Liunian pisou fundo no acelerador, enquanto Qi Xia mordia a própria língua com força para não apagar.
Em pouco tempo, a boca se encheu de sangue. Ele abriu a janela e cuspiu um bocado do líquido escuro para fora.
“V-você está bem?” perguntou Xu Liunian, ansiosa.
“Estou bem.” Qi Xia limpou a boca, a voz fraca. “Na verdade, me sinto ótimo agora. Não preciso mais me preocupar em ‘sobreviver’… Nunca me senti tão relaxado em todos estes dias.”
Avançaram a toda velocidade em silêncio, e o táxi rodou por quase meia hora.
“Ei… você ainda está vivo?” Xu Liunian reduziu a velocidade e esticou o braço direito, sacudindo Qi Xia repetidas vezes. “Chegamos ao limite da cidade. Como você quer fugir daqui?”
Qi Xia usou todas as forças que lhe restavam para virar o rosto e abrir os olhos, forçando-se a olhar para a frente. Segundos depois, as pupilas dilataram.
Bem ali na frente, erguia-se um pedágio de rodovia. A placa de sinalização no alto estava coberta de ferrugem, tornando impossível ler qualquer palavra.
Olhando através dos portões do pedágio, pistas largas se estendiam até onde a vista alcançava.
As estradas se cruzavam e se espalhavam em todas as direções, sem fim à vista.
E muito, muito longe dali, mais prédios altos despontavam vagamente no horizonte.
“Então este lugar não tem fronteira nenhuma…” Os lábios de Qi Xia se moveram de leve. A visão diante dele destruiu suas últimas esperanças.
As palavras do Bode Humano ecoaram devagar nos ouvidos de Qi Xia: “Nós somos muito mais grandiosos do que uma ‘religião’. Nós temos o nosso próprio ‘mundo’!”
Exato. Se este lugar não é apenas uma cidade, mas sim um mundo inteiro… como alguém conseguiria fugir?
“Para onde vamos agora?”
Xu Liunian virou o rosto para Qi Xia, apenas para descobrir que ele estava esparramado no banco, sem qualquer sinal de vida.
O olhar carregava um traço de confusão, um de ressentimento e outro de inconformidade. Ele tinha morrido de olhos abertos.

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