Capítulo 84: Meu nome é Li Shangwu
Meu nome é Li Shangwu.
Eu menti.
Em 22 de maio de 2010, eu e um colega recebemos a missão de fazer tocaia para um golpista.
O nome desse golpista era Zhang Huanan.
Ele era muito astuto e já tinha vários antecedentes criminais. Para piorar, possuía um instinto de contravigilância impressionante e já havia escapado de cercos policiais diversas vezes. Agora, neste novo caso de fraude, ele havia sido rapidamente listado como um dos suspeitos principais, o que nos levou a vigiá-lo dia e noite.
“Capitão Li, aceita um?”
Xiao Liu tirou do bolso o meu cigarro favorito, um Cordyceps. Ele não era nenhum ricaço, mas vivia carregando cigarros que custavam mais de cinquenta yuans. Ele mesmo não fumava, mas sempre me oferecia um à toa.
“Xiao Liu, quanto você ganha por mês?”
Não aceitei o cigarro. Em vez disso, tirei do meu próprio bolso um General Vermelho, a oito yuans o maço: barato e forte.
“Dois e setecentos”, respondeu Xiao Liu. “O senhor não sabia, Capitão Li?”
“Você ganha dois e setecentos por mês e fuma Cordyceps?” Coloquei um General na boca, e Xiao Liu logo se apressou em me oferecer fogo.
“Que isso, Capitão Li…” disse Xiao Liu, rindo sem graça. “Como eu teria coragem de fumar Cordyceps? É reserva pro senhor…”
Balancei a cabeça, resignado, e lhe avisei: “Nós somos investigadores. Quem consegue resolver o caso é que é foda. Pare de imitar essas malandragens de escritório.”
“Sim, sim… o senhor tem razão, Capitão Li.” Xiao Liu guardou o Cordyceps no peito e tirou um maço de Montanha Changbai de seis yuans1. “Não estou justamente aprendendo a resolver casos com o senhor?”
Para falar a verdade, Xiao Liu era muito inteligente e aprendia rápido. Dizem que ele sempre esteve entre os melhores na academia de polícia. Mas não sei como os pais dele o educaram, porque, mesmo tão novo, já tinha pegado todos esses vícios bajuladores da burocracia. Assim que entrou na força, deu dor de cabeça aos veteranos.
“Capitão Li, o senhor acha que a gente consegue pegar esse Zhang Huanan?”
“Bem…” pensei um pouco. “Por que se importa tanto? Os superiores mandaram a gente ficar de tocaia aqui, então a gente só cumpre as ordens.”
Estacionamos o carro do outro lado da rua da casa de Zhang Huanan, com os olhos fixos na única entrada e saída do prédio.
Esse tipo de vigia geralmente é feito em duplas, para que um possa descansar e revezar. Só que não sabíamos quanto tempo ficaríamos ali, e essa tortura invisível da incerteza só servia para alimentar o vício em nicotina.
“Se eu soubesse, teria trazido uma cueca…” disse Xiao Liu.
“Para quê? Você quer trocar de cueca aqui?”
“Haha!” Xiao Liu riu, sem dar importância. “É brincadeira, Capitão Li. Quer mais um?”
Fumamos um cigarro atrás do outro naquele espaço fechado. Como não ousávamos abrir as janelas, o interior do carro logo ficou coberto de fumaça. Xiao Liu ligava o ar-condicionado de tempos em tempos para trocar o ar, ou as chances de pegarmos câncer de pulmão chegariam a quase cem por cento naquele ambiente.
Um dia inteiro se passou, e nenhum de nós pregou o olho.
Eu sentia que ainda aguentava, já que estava acostumado a virar a noite, mas Xiao Liu já estava caindo de sono.
“Descanse um pouco”, falei. “Eu fico de olho sozinho.”
“Capitão Li… tem certeza? O senhor ainda não descansou, como eu posso dormir primeiro…” Ele estava bancando o durão, mas as pálpebras já brigavam para fechar.
“Não tem problema, durma. Eu te chamo à noite.”
“En-então tá… Vou cochilar por meia horinha…”
Em menos de vinte segundos, os roncos de Xiao Liu começaram. Parecia que o garoto estava exausto.
Depois de confirmar que ele estava dormindo pesado, tirei o celular do bolso devagar e chequei as mensagens não lidas. Três das quatro mensagens eram de Xuanxuan.
“Papai, você volta para jantar hoje?”
“Papai, a vovó disse que você saiu em missão esses dias. Tome cuidado!”
“Papai, sexta-feira que vem à tarde tem reunião de pais. Você vai poder vir?”
Franzi levemente a testa e, mesmo assim, respondi.
“Daqui a dois dias eu volto para casa. Coma direito.”
Após enviar a resposta, abri a quarta mensagem. O número desconhecido enviara apenas três palavras: “Ainda na tocaia?”
Dei mais uma olhada para Xiao Liu dormindo ao meu lado, me encostei um pouco mais na porta e respondi rápido: “Não enche o saco, porra. Fica escondido.”
Depois disso, guardei o celular e reclinei o banco devagar, preparando-me para tirar um cochilo também. O carro novo descaracterizado que a delegacia comprou era até que bem chique. O banco elétrico descia sem pressa, em vez de cair em soquinhos como nos carros antigos e dar aquele mau jeito nas costas.
Quanto a ficar de tocaia para Zhang Huanan… conta outra. Comigo aqui, ele nunca vai aparecer.
Não sei quanto tempo se passou, mas de repente fui acordado por um sacolejo violento.
Abri os olhos num susto e vi Xiao Liu me encarando tenso. “Capitão Li!! Como o senhor dormiu também?!”
“Hã?” Acordar tão de repente me deixou atordoado, e levei um tempinho para entender o que estava acontecendo. “Ah… você acordou?”
“Ferrou! Capitão Li, nós dois caímos no sono. E se aquele cara, o Zhang Huanan, tiver aparecido?”
“Relaxa, ele não vai fugir.” Esfreguei os olhos e voltei o banco para a posição normal.
“Não vai fugir?”
“Ah… Quero dizer, eu acabei de fechar os olhos, não ia ser tanta coincidência assim…”
“Ai…” Xiao Liu ainda parecia preocupado. Ele deu uns tapinhas fortes nas próprias bochechas e murmurou: “Eu disse que não devia ter dormido. Agora ferrou, cometi um erro logo na primeira missão.”
“Esquenta não, garoto.” Bati no ombro dele. “Se der merda, eu assumo.”
O mais estranho é que, a partir desse momento, Xiao Liu parecia ter tomado uma injeção de adrenalina e ficou dois dias seguidos sem fechar os olhos. Nesse meio tempo, eu tirei vários cochilos, mas toda vez que acordava, via o moleque encarando fixamente o prédio do outro lado.
“Você quer morrer de infarto, garoto?” perguntei, com um fundo de preocupação. “Eu tô acordado agora, vai dormir um pouco.”
“Não rola.” As olheiras de Xiao Liu estavam bem escuras, e ele já parecia abatido. “Capitão Li, eu não vou descansar de jeito nenhum agora. Tenho que esperar o Zhang Huanan dar as caras.”
Bem nessa hora, o celular no meu bolso tocou de novo.
Mesmo sendo um Nokia 6300, a bateria já estava nas últimas.
Quando abri o celular para olhar, aquele cara, o Zhang Huanan, tinha me mandado outra mensagem.
Me virei com discrição, tentando ver o que ele tinha escrito, mas Xiao Liu soltou de repente atrás de mim: “Ordens da delegacia?”
“Ah, não.” Dei um sorriso leve, escondendo o celular na mão e me encolhendo para o lado.
“Não é da delegacia? Então quem mandou?” Ele ficou encarando o celular na minha mão com um olhar aéreo.
Eu sabia que alguém normal nunca faria uma pergunta indelicada dessas, mas Xiao Liu estava ficando avoado por conta da falta de sono. Ao ver o estado dele, tive uma ideia na hora.
Enfiei a mão no bolso da calça, tirei os cigarros de dentro do maço e os soltei lá no fundo. Depois, puxei a caixa vazia e a sacudi na frente dele.
“Xiao Liu, vai comprar um maço de cigarro.”
“Comprar cigarro? Não tem nenhuma lojinha por aqui”, disse ele, meio pego de surpresa.
“Mas eu já estou zerado.” Guardei o maço vazio e o celular no paletó. “Se não tem perto, vai mais longe. Não dá para virar tantas noites sem cigarro. Além disso, a água e o pão no carro estão acabando, já aproveita e compra um pouco.”
Ele pensou por um instante, ainda aturdido, e acabou assentindo. “Tá bom, Capitão Li. Eu vou e já volto.”
- Cordyceps (Dongchong Xiacao), General Vermelho (Hong Jiangjun) e Montanha Changbai (Changbaishan) são marcas reais de cigarros na China. O Cordyceps é conhecido no país por ser uma marca de luxo, de alto custo, enquanto as outras duas são opções consideravelmente mais baratas e populares.[↩]

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