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    — …Jaehwan?

    — …

    — Jaehwan!

    Levou um tempo para Jaehwan perceber que esteve perdido em pensamentos profundos. Runald já havia parado de chorar. Ao olhar para Runald, sentiu como se pudesse ouvir a voz de Andersen vinda de dentro.

    — Você não parece bem. É por causa dos ferimentos…

    — Não. Você não estava chorando agora há pouco?

    — Não consigo chorar por tanto tempo, não sou criança.

    Jaehwan tentou dizer algo a Runald, mas ele continuou: — Então não fique tão sombrio. Não é nada do seu feitio.

    Não era do feitio dele? Estavam juntos havia apenas dias. Não era tempo suficiente para dizer como ele era ou não.

    — Como eu sou, então?

    — Hmm… essa é uma pergunta difícil de responder, na verdade.

    Runald refletiu, mas logo continuou: — Você fica melhor quando age como uma criança teimosa de cinco anos.

    — …

    — Sabe, aqueles persistentes que sempre insistem em fazer o que querem?

    Era estranho ouvir aquilo de uma criança de verdade. Jaehwan se arrependeu até de ter perguntado, mas Runald continuou em um tom triste.

    — Andersen também era assim, agora que penso nisso.

    Ele soava tão triste que Jaehwan percebeu que o garoto queria falar sobre ela o tempo todo.

    — Andersen. Ela sempre fazia o que os outros diziam não. Acho que você também aprendeu isso, já que compartilhou o mundo dela por alguns dias.

    Andersen nunca compartilhava suas histórias, e Jaehwan nunca perguntava. Mas, assim como Andersen leu a memória de Jaehwan, Jaehwan também pôde ler a dela.

    — Todos abandonaram a Configuração [Nudez], mas ela foi a única que a manteve até o fim. Ela disse que, se houvesse ao menos um Seguidor que acreditasse naquele mundo, então o Deus precisava permanecer por aquele mundo.

    Enquanto Runald continuava, Jaehwan se lembrou do primeiro dia em que conheceu Andersen. Ela fez reclamações e comentários sobre o mundo árido de Jaehwan, mas nunca expressou que o mundo dele estava errado. Havia sempre um pouco de preocupação em suas palavras.

    Talvez ela soubesse disso o tempo todo. Por trilhar um caminho solitário, não queria que Jaehwan fizesse o mesmo.

    — Andersen então…

    Runald continuou falando sobre Andersen. Agia como se estivesse bem, mas parecia não conseguir superar. Jaehwan pensou: ‘Será que ele poderia ser um Deus melhor para Runald do que Andersen?’

    Não tinha tanta certeza. Não era do tipo que liderava pessoas. Foi assim quando liderou a equipe na Torre dos Pesadelos e quando se tornou um Mestre de Fortaleza no <Caos>. Fazia tudo sozinho e depois fazia todos os outros o seguirem.

    Isso causou muita oposição, e alguns até o traíram. Mas ele não se importava.

    Mesmo sem a ajuda de ninguém, sempre fez tudo sozinho.

    Sua vida tinha sido uma via de mão única. Ele corria e corria. Sempre desafiava o impossível e, por fim, conseguia superá-lo. Realizou grandes feitos. As pessoas que se opunham a ele ficavam maravilhadas, amedrontadas e se distanciavam dele.

    Mesmo assim, ele ainda corria e corria. E então chegou aqui.

    E, neste momento, após a morte de Andersen, ele finalmente percebeu algo.

    Havia falhado miseravelmente desta vez. Talvez o caminho que tomou estivesse errado.

    Runald ainda falava.

    — …Ah, acho que me desviei do assunto. Então, o que estou tentando dizer é que não é do seu feitio fazer esse tipo de cara. Especialmente essa cara de arrependimento que você está fazendo agora!

    — …

    — Volte com a sua cara imprudente e teimosa! Por favor!

    Com essas palavras, Jaehwan sentiu como se tivesse sido encharcado com água gelada. Era estranho. Era ele quem deveria simpatizar com o garoto, mas Runald o estava consolando.

    Sim, a afirmação de Runald de que Jaehwan não era ele mesmo estava correta. Não era nada do feitio de Jaehwan. Mesmo quando enfrentava muitas verdades, ainda havia fatos que não mudavam dentro dele.

    O fato de que ele não mudaria mesmo assim.

    O fato de que ele ainda correria imprudentemente.

    O fato de que ele ainda estaria sozinho.

    E seria solitário.

    Jaehwan conhecia todos esses fatos. Então se lembrou das últimas palavras de Andersen, esperando que Jaehwan fosse um bom Deus. Talvez Andersen estivesse errada sobre isso. Jaehwan olhou para Runald e o chamou: — Runald.

    — …Sim?

    — Não sou Andersen.

    Os olhos de Runald se arregalaram. Ele então olhou para baixo e respondeu com uma voz triste: — …Eu sei.

    — Não apenas isso, mas pode não ser uma boa ideia você vir comigo. Posso garantir que será muito ruim.

    Era uma declaração. O olhar de Runald ficou como o de um filhote esperando ser abandonado.

    — As pessoas vão te desprezar e até te odiar. Mesmo quando você não fizer nada, alguns tentarão te matar por ser meu Seguidor.

    — …

    — Você ainda virá comigo?

    Runald ergueu o olhar com os olhos vermelhos e marejados. Parecia que não queria mostrar as lágrimas, pois cobriu os olhos com a mão e sorriu ao responder: — Eu vou.

    Sua voz soou como se ele estivesse esperando para dizer isso há muito tempo.

    — Então vamos.

    Jaehwan colocou a mão na cabeça de Runald por um momento e depois se virou para andar. Runald tocou o local na cabeça onde a mão de Jaehwan esteve momentos antes e começou a seguir Jaehwan.

    — Espere por mim!

    Jaehwan pensou enquanto olhava de relance para Runald, que o seguia. Andersen estava errada. Não havia como Jaehwan se tornar um bom Deus. Mas…

    Talvez, só talvez. Ele pudesse se tornar um Deus fiel, pelo menos.

    Um homem e um garoto. Ambos que compartilhavam o único mundo começaram a caminhar em direção à Grande Floresta.

    Era para ser a visão da determinação, mas era um pouco estranho se outras pessoas vissem de longe. Karavan, o Subgerente de Ignis, que estava fazendo reconhecimento, viu os dois indo em sua direção e murmurou com uma expressão estranha: — …Qual é toda essa confusão? Seja o que for, não fica bem enquanto vocês estão nus…1

    Karavan balançou a cabeça em descrença.

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