Capítulo 172: Ruptura (8)
Era uma voz calma. Tão calma que era difícil de aceitar.
— Entendo? É tudo o que tem a dizer sobre isso?
— Eu não tinha mais nada a dizer.
Não tinha mais nada a dizer? Yoonhwan tentou falar algo, mas parou. Havia alguém chorando à distância.
Soldados reuniam prisioneiros. Eram os Perdidos, aqueles que haviam abandonado seus Deuses. Eram os que tremiam de medo da morte. Eram espíritos fracos, com meros 50 e poucos de poder mundial. Yoonhwan falou enquanto observava.
— Eu vi isso todos os dias durante os últimos 3 meses.
— …
— Acreditei que o que estou fazendo é o certo. Tudo ficará bem no final. Se eu esperar e esperar… então o fim do qual todos poderão se orgulhar chegará.
— Você fez.
— Mas um dia isso me veio à mente.
Um prisioneiro estava sendo pisoteado por um soldado. Duas mãos indefesas tremiam. Enquanto observava, Yoonhwan disse: — Que tudo isso era o verdadeiro “fim”.
— …
— E com tudo isso acontecendo, nunca haverá um “final” que eu deseje ver.
Yoonhwan talvez esperasse que Adel, que encarava o resultado da Ruptura perdendo a humanidade, concordasse com ele. Mas o que veio a seguir foi inesperado.
— Não, senhor. O “fim” ainda não chegou.
— …Ainda não chegou?
— Não, senhor. Se derrotarmos o <Irmãozão>, tudo será resolvido.
Yoonhwan abriu a boca para falar, mas parou.
‘Então você também estava pensando nisso.’
Ele se sentiu desapontado. Yoonhwan falou novamente.
— Mas como? O <Irmãozão> pode trazer vidas de volta? As pessoas podem ser curadas de suas feridas?
Adel respondeu imediatamente: — Talvez sim, senhor. Se alcançarmos o [Início do Pesadelo] após derrotar o <Irmãozão>, poderemos controlar tudo neste mundo, talvez até o tempo.
— Tempo?
— Sim, senhor. Podemos receber o poder de voltar no tempo. A Árvore das Imagens poderia possivelmente fazer isso.
— …Voltar no tempo?
Yoonhwan se enfureceu. Ele se lembrou das memórias do que aconteceu na Torre dos Pesadelos e gritou, cerrando os dentes: — Isso não resolve nada! Mesmo que possamos voltar no tempo, e isso realmente traga as pessoas de volta ao normal como se nunca tivessem sido feridas, isso não muda o fato de que elas foram feridas. Mesmo que elas não se lembrem, aquele período de tempo realmente existiu!
— …
— Você entende o que estou dizendo? Eu… que as pessoas… Aqueles tempos…
Yoonhwan parou de falar. Suas emoções estavam atrapalhando a formulação do que ele tentava dizer.
— Entendo. Então você pensa dessa forma, senhor.
Por quê? Yoonhwan sentiu que a calma de Adel parecia diferente de momentos atrás. Adel pegou um cigarro e o acendeu enquanto falava.
— Senhor, se não for incômodo, posso contar minha história dos velhos tempos?
— …Continue.
— Quando entrei para a Ruptura, eu tinha pensamentos parecidos com os seus, senhor. Nós não entramos na Ruptura por vontade própria, mas eu achava que a Ruptura era o único grupo que poderia mudar o sistema. Sim, eu pensava assim naquela época.
— E você não sabe?
— Não, senhor.
— Mas por que você ainda…
— Ainda estou na Ruptura?
Yoonhwan parou de perguntar. Parecia rude perguntar, mesmo sendo um superior.
— É simples, senhor. Estou aqui há “tempo demais”.
Estar ali por tempo demais. Yoonhwan sentiu que a frase carregava uma tragédia.
— Estive na Ruptura por 700 anos. Vi muitas coisas e perdi muitas coisas. Vi as coisas que eu valorizava mudarem durante esses tempos. Vi coisas perderem a humanidade, de novo e de novo.
700 anos. Yoonhwan ficou boquiaberto com a quantidade inimaginável de tempo. Ele sabia o que havia acontecido 700 anos atrás. Adel era um sobrevivente do Grande Desaparecimento.
Adel continuou: — Talvez pudesse ter mudado. Se fosse antes de tudo desaparecer… antes de desistirmos de tudo.
— Não. Não, ainda não. Você… você ainda não…
Yoonhwan parou de falar no meio de suas palavras. Sentiu que era irresponsável dizer algo assim. Ele não sabia sobre os 700 anos de Adel. Não sabia nem um pouco sobre sua dor, sofrimento e tristeza. Adel sorriu.
— Você soa como minha amiga.
— …Amiga?
— Eu tinha uma amiga com quem adorava conversar. Ela também me disse uma vez que não era tarde demais, que eu deveria ir com ela.
Ir com ela? Yoonhwan ficou curioso.
— Ela não é mais sua amiga?
— Não, senhor. Ela deixou a Ruptura há um tempo. Está em seu caminho para encontrar sua própria trilha. Uma grande decisão.
Yoonhwan sentiu seu coração afundar. Não existia “deixar” a Ruptura. A única maneira de sair era morrer. Mas Adel não parecia querer dizer que sua amiga havia morrido. Havia apenas uma pessoa que deixou a Ruptura viva.
— Espere… a amiga de quem você está falando…
— Que palavras bonitas de se ouvir. Não tarde demais… ainda não… Mas eu sei. Eu me conheço mais do que ninguém. É tarde demais para mim.
Adel então fez uma pausa para tomar fôlego e acrescentou: — Para outra pessoa, pode não ser tarde demais ainda.
O silêncio caiu. Yoonhwan perguntou com a voz trêmula:
— Você está… me dizendo para deixar a Ruptura?
— Eu não disse nada, senhor.
Yoonhwan olhou ao redor. Havia soldados da Ruptura e prisioneiros. Suas mãos se estendiam em busca de ajuda, e eram pisoteadas sem piedade. Yoonhwan gaguejou: — Você… você deveria…
— Ah, não consegue fazer nada sozinho?
Yoonhwan ficou em silêncio. Ele pode ir? Pode passar por todos aqueles soldados até onde queria chegar? Não. Ele sabia, em primeiro lugar, para onde precisava ir?
Yoonhwan virou as costas para Adel. E deu um passo. E então outro. E mais outro.
Era aterrorizante. Ele temia que seu mundo, mesmo que fosse difícil de aceitar, fosse destruído.
Mesmo assim.
Mesmo assim…
Diferente de seu punho que estava cerrado, ele não conseguia se mover mais. Virou-se novamente para Adel. Mas, quando estava no meio do giro, lembrou-se de alguém. Das costas de alguém.
‘Ah…’
Yoonhwan olhou para as costas. Ele confiara e seguira aquelas costas. Começou a caminhar em direção a elas sem perceber. Continuou se movendo em direção às costas, atravessando o campo de batalha.
Alguns soldados olharam para Yoonhwan. Yoonhwan baixou os olhos para o chão, para os prisioneiros ali caídos. Mãos foram pisoteadas. Yoonhwan abaixou-se e se ajoelhou para segurar a mão.
Todos estavam olhando para ele agora. Adel falou por trás.
— Ah, e isso é por me contar sobre o que aconteceu na reunião. Minha “amiga” foi para a Sétima Região.
O prisioneiro se transformou em pó prateado e Yoonhwan se levantou. Então começou a se mover. Não havia mais hesitação em seu andar. Yoonhwan falou sem se virar.
— Adeus, Adel.
Adel respondeu: — Até mais.
— Espero nos encontrarmos novamente.
— Espero que não, pois seremos inimigos então.
Ambos os homens sorriram e Yoonhwan continuou andando. Ele viu as costas de seu amigo novamente; as costas falavam com ele. Diziam que estava tudo bem, e que ele deveria seguir.
‘Não.’
Yoonhwan balançou a cabeça enquanto caminhava.
‘Desta vez, eu irei à frente.’
E ele passou pelas costas de seu amigo e deixou o campo de batalha.

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