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    [Ele é um Deus! Tenho certeza disso!]

    — Isso é impossível!

    [Não, ele é. Ou pelo menos algo próximo disso. Você deveria confiar na sua Deusa de vez em quando.]

    — …Você está falando sério?

    Runald virou-se para o homem. O homem nu ainda estava caído no chão, inconsciente. Ele tinha um corpo muito bem definido, com sua estrutura muscular.

    ‘…Ele tem um espírito belo.’

    Dentro do <Caos> ou das [Profundezas]1, o corpo não era construído apenas através de exercícios. Ter um corpo bem definido era o resultado de um espírito treinado. No entanto, Runald nunca tinha visto um homem com uma constituição tão equilibrada até agora. Isso também era uma prova de que este homem não podia ser um Deus.

    — Ele nunca pode ser um Deus. Nenhum Deus tem um corpo espiritual.

    Deuses não tinham corpos espirituais. Essa era a verdade das [Profundezas].

    — Todos os Deuses existem em ‘presença’ e só se tornam eles mesmos através de Vicegerentes. Essa não é a regra básica das [Profundezas]?

    Andersen ficou chocada com a súbita explicação lógica.

    […Uh… eh… Runald, você está tentando se exibir com o que sabe?]

    — Você me ensinou isso.

    Era simples, na verdade. Significava apenas que nenhum Deus poderia usar seu poder sem um Vicegerente. Isso era um fato para todos que viviam nas [Profundezas]

    [Hm… foi mesmo?]

    Andersen disse: — …Você está brincando comigo? Você me disse isso no primeiro dia em que cheguei aqui.

    [Deus] – um ser que alcançou seu status como o ser superior, ascendendo de seu eu original. Esses deuses precisavam de vicegerentes para usar seu poder. Não havia exceção para isso.

    Deuses existiam através de vicegerentes. Eles tinham uma quantidade tremenda de poder, mas nunca tinham permissão para usá-lo por conta própria. Isso era o que Runald sabia.

    — Então, considerando isso, ele não pode ser um deus. Talvez ele seja um seguidor ou um vicegerente… Eu posso enviar o poder do mundo dele também.

    Foi quando Runald parou. Seu rosto franziu a testa e Andersen perguntou.

    [Oh, então agora você entende?]

    — …O que é este homem?

    [Você não disse que ele deve ser um [Seguidor] ou um Vicegerente?]

    — Não… isso não pode ser. Ele é do <Caos>. Não há deus no Caos.

    O único lugar onde Deuses existiam era nas [Profundezas]. E este homem era do <Caos>. Não fazia sentido ele ser um [Seguidor] ou um Vicegerente onde não havia Deus. Mas Andersen tinha uma ideia diferente.

    ‘Bem, na verdade, há um no <Caos>.’

    Havia um deus aterrorizante dentro do <Caos>.2 Um que poderia ser mais forte e mais aterrorizante do que qualquer um dos deuses do mais alto escalão das [Profundezas]. Mas Andersen decidiu não revelar essa parte da informação.

    ‘Duvido que ele faria um Vicegerente.’

    Pelo que Andersen sabia, aquele Deus estava vinculado ao <Caos> através de uma condição desconhecida e nunca criou um Vicegerente. Então, deixando isso de lado, não havia como este homem ser um Vicegerente ou um [Seguidor].

    Runald continuou: — …Você disse que ele é um Deus por causa disso? Porque ele não é um Vicegerente nem um [Seguidor]?

    [Bem, isso foi parte do motivo.]

    — Mas isso é apenas um palpite absurdo! Você nem sequer tem uma lógica que condiz com uma Deusa!

    [Runald, você aprendeu bem a insultar sua própria Deusa.]

    — Sua lógica é assim: há um animal que parece um rato, mas não é. Então o que é isso? Um novo animal? Então vamos dar um nome a este animal. Este animal agora é um gato!

    […Então o rato é um Vicegerente e um Deus é um gato? Que parábola lamentável.]

    — Deusa, não está na hora de me contar agora?

    [Huh? O quê?]

    — Você disse que ele era um Deus no momento em que o viu. Você sabe algo que eu não sei, certo?

    Uma Deusa ainda era uma Deusa. Eram seres que possuíam conhecimento e informação que nenhum humano poderia possivelmente obter. Se aquela Deusa estava certa, então devia haver uma razão, mesmo que fosse difícil de explicar.

    [Runald, você já ouviu a história chamada ‘A História do Rato Forte’?]

    — …O quê? — Runald perguntou confuso.

    ‘História do Rato Forte? O que é isso?’

    [Era uma vez um rato. Ele era um rato estranho. Mas, como o título dizia, ele era um rato forte. Ele não vasculhava restos de comida, mas saía para caçar. Depois de caçar e comer, ele se tornou realmente forte. Ele era um rato, mas se recusava a permanecer como um rato e se tornou algo mais.]

    Runald se concentrou na história de Andersen.

    [Depois de um tempo, ele agora era forte o suficiente para até lutar contra um gato. Ele também percebeu que os outros ratos tinham medo dele. Ele então viu que eram aqueles gatos que o viam como igual, não os outros ratos. Foi quando ele finalmente percebeu…]

    — O-o quê? — Runald perguntou. Andersen continuou com uma voz sonhadora.

    [Oh… eu não sou mais um rato…]

    Runald ficou em silêncio.

    — …Você acabou de inventar isso agora, não foi?

    Andersen não respondeu, mas Runald percebeu algo. Não era apenas um velho conto de fadas.

    — Espere, Deusa. A história agora mesmo…

    [Eu chamo esses ratos de Despertos.]

    Desperto.

    Runald sentiu um sobressalto repentino. Ele conhecia muito bem os Despertos. A Ruptura, o infame grupo terrorista que se opunha aos Senhores das <Grandes Terras>, era composto por Despertos.

    [Esses seres quebraram seus limites como humanos e se tornaram Deuses. Eles criaram seus próprios mundos e se tornaram os Vicegerentes de seus próprios mundos. Estes são ratos que, através de seu trabalho árduo, conseguiram até mesmo caçar os gatos.]

    Tudo fazia sentido agora. Alguém que tinha seu corpo espiritual, mas também era um Deus. Apenas os Despertos eram capazes de fazer isso.

    — E-ele é um Desperto então?

    [Provavelmente. E, além disso, se ele é do <Caos>…]

    Andersen lembrou-se do que ouvira da rede do <Irmãozão>, de que Despertos estavam aparecendo no <Caos>. Ela pensou que fosse um boato, mas parecia que era verdade. Runald perguntou com a voz trêmula: — Talvez ele seja da Ruptura?

    [Não, aqueles lá nunca viajam sozinhos. Ele não pode ser da Ruptura.]

    O surgimento de um Desperto não afiliado. Runald não tinha certeza de que mudança isso traria para as [Profundezas].

    — Então, o que vamos fazer com ele?

    [Eu não sei… Depende de ele ser um Deus ou não.]

    — Depende?

    [Ou ele se tornará nosso aliado ou…]

    Então Runald sentiu uma sensação estranha surgindo. Era similar ao impulso de comer. Depois de passar um longo tempo com Andersen, Runald compreendia de onde vinha esse sentimento. Vicegerentes eram seres que compreendiam seus Deuses melhor do que ninguém. Eles os compreendiam tão bem que eram influenciados pelos sentimentos de seus Deuses.

    — …Deusa? — Runald perguntou. E ela respondeu,

    [Runald, há uma maneira de ter certeza se ele será nosso aliado ou não.]

    Runald não queria saber como, e ela não se importava.

    [Vamos comê-lo.]3

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