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    Era uma história há muito esquecida. Uma história perdida que ficou oculta por milênios.

    Não existiam palavras como você ou eu e, por causa disso, não havia lutas, competições ou guerras. E, por causa disso, não existia um “ser”. Era o início dos tempos, onde todos os Deuses e espíritos permaneciam nus e viviam sob um “Único Mundo”.

    Foi quando as “roupas” surgiram.

    Ninguém sabia quem as inventou ou quem as vestiu primeiro, mas elas surgiram.

    Todos os Deuses antigos que viviam nas [Profundezas] há muito tempo usavam roupas, pois seu uso era amplamente difundido. Alguns Deuses sabiam que aquilo não era apenas algo para cobrir e proteger o corpo. Eles perceberam que havia mais nisso. Alguns Deuses também começaram a proferir tais palavras.

    -Todos os “seres” surgiram com as roupas.

    Claro, não fazia sentido. A vida ou os espíritos existiam antes das roupas. Na verdade, foram eles que criaram essas roupas. No entanto, o “ser” descrito aqui não equivalia a uma vida ou a um espírito. Os Deuses Antigos falaram sobre isso.

    -Um ser é aquele que chama o “eu” de “eu”.

    Eles faziam roupas e as vestiam para se proteger do mundo, mas também para se separar dele. Assim, percebiam a si mesmos como “um” à parte do mundo.

    Foi assim que as roupas surgiram e os espíritos começaram a chamar a si mesmos de “eu”.

    — É muito complicado. Não consigo compreender nada — declarou Runald com uma expressão desconfortável. Aquilo era complicado demais para um garoto que nunca havia sido educado. Karavan disse: — Deixe-me explicar de forma simples, Runald.

    Karavan sorriu enquanto segurava o ombro de Runald.

    — Com o que eu me pareço?

    — …Hã, Karavan?

    — Sim, mas o que mais? O que você vê?

    — Hã, um pervertido pelado?

    Karavan ficou irritado, mas ergueu sua luva de esfregar com a mão e perguntou: — Então, o que você acha que é isso?

    — Uma luva de esfregar?

    — Você supõe que isso também é roupa?

    — Acho que sim.

    Runald assentiu e Karavan calçou ambas as luvas nas mãos.

    — Aqui. Como estou agora? O que você acha que eu sou?

    Runald olhou para Karavan com as luvas de esfregar, mas completamente nu. Karavan rapidamente percebeu o que Runald estava pensando.

    — Estou falando sério. Me diga.

    — Um esfregador, eu acho.

    — Exatamente.

    — …O quê?

    — Uma pessoa que não é nada se torna um esfregador se colocar uma luva de esfregar. Se você pegar uma foice, se torna um fazendeiro. Não é mesmo?

    — Hã… Talvez?

    — É disso que estamos falando.

    Runald então percebeu. Um espírito se tornando um ser totalmente diferente apenas com as roupas que está vestindo — não era nada complicado.

    — Então isso significa que as roupas fazem o tipo de pessoa que somos?

    — Sim, algo assim — Karavan sorriu. Mas Runald não parecia satisfeito.

    — Ainda é uma lógica falha. Um príncipe pode se disfarçar de mendigo, ou um mendigo pode vestir um terno.

    — Hã, sim…

    Karavan ficou perplexo e Runald continuou: — E pode haver um pervertido pelado com uma luva de esfregar. Mas isso não muda o fato de que a pessoa é um “pervertido”.

    Alguns guerreiros riram das palavras e, antes que Karavan pudesse responder, Runald rapidamente concluiu o assunto.

    — Então não é errado pensar que as “roupas” rotulam um ser?

    Karavan parecia ter ficado sem palavras. Runald era inteligente demais para receber uma explicação definitiva. Além disso, Karavan também não compreendia tudo sobre as “roupas”.

    — E se for esse o caso, e quanto a nós? Estamos nus agora. Não somos nem mesmo um “ser”, então?

    — Não, não é assim, Runald.

    Jaehwan respondeu em seu lugar. Runald virou-se para Jaehwan.

    — Então o quê? O que somos nós?

    — Não estamos nus agora.

    — Hã? O que você quer dizer?

    — Runald, não há ser que esteja nu neste mundo.

    — O que você está dizendo? Nós estamos…

    Runald então parou ao perceber algo. As “roupas” aqui não significavam apenas roupas físicas. Jaehwan tentou continuar, mas Runald o interrompeu.

    — N-não! Não me diga nada. Acho que estou entendendo algo.

    No entanto, Runald não tinha certeza do que estava compreendendo. Então, Runald começou a refazer o caminho até o início do assunto.

    ‘Por que começamos a falar sobre roupas?’

    Ele se lembrou. Eles estavam falando sobre a raça da Vida Longa e Geshtalt.

    -Vocês todos são as “roupas” que Geshtalt tirou. Não é?

    Tudo começou com as palavras de Jaehwan. Provavelmente havia uma pista ali. Runald começou a se concentrar em encontrar sua resposta sozinho. Karavan então se virou para Ra-hamad e perguntou: — Vamos continuar. O que aconteceu com as roupas então?

    Roupas são ser.

    Roupas são ego.

    Roupas…

    Roupas poderiam ser definidas por vários termos. Os Deuses não limitavam o que as roupas eram, mas se concentravam no que aconteceu com as [Profundezas] depois que as roupas surgiram.

    O início dos seres com roupas — havia pessoas que se separavam do mundo.

    Isso significava que o mundo não era mais “um”. Seres que chamavam a si mesmos de “eu” se expressavam com emoções que nunca haviam existido antes. Eles diziam:

    Eu confio em você.

    Eu acredito em você.

    Eu amo você.

    Amor. Confiança. Essas eram palavras que apenas um “ser” poderia usar. E com essas emoções, os Deuses foram postos à prova. Seres que se tornaram “indivíduos” começaram a acreditar em um certo Deus, ou passaram a amar e a ter “gosto”. E isso trouxe consequências devastadoras.

    Os Deuses de quem gostavam tinham permissão para empunhar um poderoso “poder mundial”, enquanto os Deuses abandonados encontravam seu fim.

    Fim?

    Para os Deuses que haviam vivido por uma eternidade, isso era uma ameaça enorme. Era natural que eles criassem seus próprios mundos e se separassem. Eles tinham que se esforçar muito para que outros acreditassem neles, e a competição veio naturalmente.

    Os Deuses não podiam mais coexistir como antes. A Cruzada então começou.

    — …Então, foram as roupas que fizeram o mundo se tornar isso?

    [Sim.]

    Ra-hamad respondeu à pergunta de Karavan. Karavan não pôde deixar de rir de forma vazia. Era a primeira vez que aprendia sobre a história antes do Irmãozão. Nem mesmo Ignis havia lhe contado sobre isso.

    — O mundo foi dilacerado por causa de uma razão dessas…? O que eram esses Deuses Antigos?

    [Não podemos culpá-los. Eles tiveram que escolher sobreviver.]

    — Sim, mas…

    [E porque todos adquiriram “mundos diferentes”, surgiu a diversidade. Isso não existia antes.]

    — Trouxe a guerra, e os espíritos agora tentam matar uns aos outros só porque temos mundos diferentes.

    [Isso também é verdade.]

    Karavan pensou que era um problema complicado.

    O mundo mudou por causa das “roupas”. Um ser tornou-se perfeitamente “eu”, permitindo-lhe confiar ou amar outro. Era uma coisa boa, mas também aprendeu a odiar e matar outros.

    Tudo foi por causa das roupas.

    Karavan então ponderou sobre a questão. Qual era a melhor opção? Alguém falou então.

    — É melhor para todos ter diversidade sem matar o outro.

    Era Jaehwan.

    — S-sim! Eu sei. Essa é a resposta!

    Karavan sentiu-se estranho por não conseguir alcançar essa resposta sozinho. Ele olhou para Jaehwan.

    ‘Este homem…’

    Karavan sabia por que não conseguia pensar na resposta. Era porque era impossível.

    Seres com mundos diferentes estavam fadados a ser hostis uns contra os outros. A própria história das [Profundezas] era a prova. No entanto, isso não se limitava apenas às [Profundezas].

    Diferença significava conflito. Era a verdade, mas Jaehwan estava resistindo contra isso.

    — Houve algum Deus que tentou parar a guerra? — Jaehwan perguntou.

    Ra-hamad respondeu.

    [Sim.]

    — E esse é…

    Ra-hamad assentiu.

    [Houve aqueles que perceberam a verdadeira natureza das roupas e as usaram para ganhar o poder de controlar este mundo. Eles eram humanos, mas superaram as limitações humanas para se tornarem Deuses eles mesmos.]

    Era fácil adivinhar quem eles eram.

    [Os primeiros Despertos humanos. Os Três Deuses Antigos.]

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