Capítulo 177: Ruptura (13)
Pierre olhou para sua mão esquerda enquanto observava o poder mundial se aproximando do lado de fora da janela de sua sala do trono. Sua mão esquerda estava queimada até virar fuligem preta pelo poder mundial de Jaehwan. Era o primeiro ferimento que ele recebia desde que se tornara um dos 8 Deuses das [Profundezas]. Fazia muito tempo desde que encontrara um oponente que pudesse feri-lo de alguma forma.
Ele ergueu os olhos para o céu.
No céu da Sétima Região, onde a esperança havia se escondido, uma tênue ‘lua’ estava suspensa no céu.
Mas aquela lua nem sempre era uma lua. Era uma estrela para alguém e um sol para outro. E para outra pessoa, era um olho.
‘Irmãozão.’
As pessoas chamavam aquilo de estrela, sol, lua e olho. Ninguém sabia como realmente era, mas a única coisa que se sabia era que apenas alguns poucos despertos podiam vê-los.
‘Era uma estrela para Myad e um sol para Budda.’
A forma como o Irmãozão aparecia era de acordo com os sentimentos pessoais do indivíduo por ele. Quando Pierre descobriu que Myad o via como uma ‘estrela’, percebeu que Myad não tinha intenção alguma de lutar contra o Irmãozão. E o mesmo acontecia com Budda. Um sol? Era pior do que uma estrela.
Aqueles dois não consideravam o Irmãozão de forma negativa. Pierre então perguntou a si mesmo: ‘E sobre mim?’
‘Sou o mesmo.’
Ele teve que admitir amargamente. Uma estrela, um sol e uma lua. Todos os fundadores da Ruptura clamavam para lutar contra o Irmãozão, mas compreendiam a necessidade mais do que ninguém. Com eles na liderança, era impossível que uma verdadeira revolução acontecesse. O que eles queriam não era a destruição do Sistema, mas a criação de outro.
Pierre verificou sua mão esquerda.
A dor veio a ele, trazendo de volta suas antigas memórias. Havia o sentimento que teve quando não viu o Irmãozão como uma estrela, um sol ou uma lua.
E era a forma como Jaehwan via o Irmãozão. A forma repugnante era impactante. Ver que ainda havia um Desperto que considerava o Irmãozão de tal maneira até os dias de hoje…
Era estranho.
Pierre não tinha certeza sobre o pequeno fogo que havia começado dentro de seu coração. Apenas ganhar tal sentimento ao espiar o mundo de outra pessoa… apenas por saber que havia alguém que ainda não havia desistido deste mundo.
‘Você encontrou uma boa esperança, Surha.’
Pierre sorriu enquanto ria.
…
Poeira foi levantada das planícies. Incontáveis soldados apareceram através dos grandes portais. Subgerentes de todos os tipos de deuses apareceram, mas eles tinham expressões fatigadas. Não era certo se esse avanço era devido à sua própria vontade ou à de outros.
Não, eles sabiam muito bem que aquilo não era vontade de ninguém. Esta guerra era preenchida com vazio e vacuidade a um ponto insondável.
Ainda assim, eles não tinham linguagem para falar sobre seu vazio. Eram apenas prisioneiros nesta longa guerra. Lutavam como prisioneiros e lutavam até morrer.
E a marcha não parou.
Na vanguarda da guerra estavam os Despertos da Ruptura. Eles eram os guerreiros que haviam lutado contra várias regiões, derrotando quaisquer inimigos que entravam no caminho. Talvez tenha sido por causa deles que muitos dos Subgerentes que se renderam conseguiram seguir em frente.
O objetivo da Ruptura era tão claro e determinado que persuadia até seus inimigos.
Se acreditado por muitos, tornava-se a verdade.
E a verdade dava poder. O poder formava o mundo.
E ali estava, a Ruptura só tinha a última Região das [Profundezas] restante. O Mundo de Cinabro estava esperando.
— É aquele o lugar? — Gerome perguntou.
Imai respondeu: — Sim.
Eepoche apareceu na frente deles. Gerome olhou ao redor do cenário silencioso de Eepoche e falou desapontado:
— Então, era verdade. É uma região de perdedores.
— …
— Ouvi dizer que o Deus que governa este lugar é um antigo membro da Ruptura. Você não conseguiu chegar até ele?
— Ele não é mais da Ruptura.
Imai respondeu friamente e Gerome gargalhou.
— Sério? Então seu orgulhoso e sangrento Mundo Único não é tão perfeito, afinal. Vocês já têm dois desertores.
Imai amaldiçoou a si mesmo, mas se conteve para não falar em voz alta. Ele não podia discutir com o Senhor agora a ponto de atrapalhar a operação. Gerome olhou de relance para os soldados movendo-se para dentro da cidade e perguntou: — Nós vamos entrar também?
— Não, vamos esperar.
— Por quê?
— Anônimo é um adversário formidável. Esperaremos até que cheguem reforços da Segunda Região…
O Senhor Varkant os interrompeu.
— Bah! Como um Deus pode ser tão forte?
— …Você não conhece o Anônimo.
— Temos dois Senhores! Nenhum Deus pode lutar contra nós. Além disso, temos…
Varkant ficou em silêncio ao olhar para Gerome. Imai entendeu o que ele estava tentando dizer. O Senhor das Trevas, Gerome, era o Senhor mais poderoso entre todos os 12 senhores.
‘Trevas, o Mais Forte.’
Foi ele quem pôs fim à guerra nas <Grandes Terras> rapidamente e desempenhou um papel vital em selar novamente o Catástrofe. Ele era o melhor Subgerente do Irmãozão e o Senhor mais poderoso de todos.
Gerome concordou. — Hmph. Não, ele está certo. É melhor esperarmos.
— …Hã?
Varkant ficou curioso e Gerome gargalhou.
— Acho que podemos nos divertir um pouco aqui. Talvez seja melhor assistir o que está para acontecer antes de irmos.
Gerome estava olhando para uma das áreas na região exterior da Sétima Região. Imai se virou e fez uma careta. Gerome riu.
— Vocês da Ruptura são bem divertidos.
…
Quantos um homem poderia matar sem enlouquecer? 10? 100? 1000? Yoonhwan pensou que jamais saberia, pois não poderia descobrir por si mesmo. Ninguém derramava sangue, mas ele sentia como se pudesse sentir o cheiro de sangue até agora.
Ele jamais poderia esquecer o momento em que foi despertado.
<Simulação do Grande Desaparecimento>
Naquela simulação, Yoonhwan viu inúmeros rostos. Eram aqueles que escalaram a torre com ele. Alguns o traíram enquanto outros morreram antes de conhecer Yoonhwan. Mas todos eles tinham um objetivo em algum momento. Eram todos caminhantes que tentaram salvar a humanidade.
Mas naquela simulação, eles não eram mais seus amigos. Tentaram matar uns aos outros e também atacaram Yoonhwan. Yoonhwan observou essas pessoas tentando matá-lo e…
‘Ahhhhhh!’
Às vezes eles gritavam em agonia.
‘Por favor! Por favor!’
Às vezes eles imploravam.
‘VÁ SE FOOOOODER!’
Às vezes eles ficavam enfurecidos.
Ele lutou contra eles vez após vez. Ele os matou de novo e de novo. Ele sabia que eram falsos e que haviam sido recriados por suas memórias, mas sentiu sua mente mudar conforme os matava repetidamente. Era como se o mundo que ele conhecia estivesse desmoronando.
Ética, justiça e tudo aquilo dentro dele havia sido esmagado e jogado fora.
E o que restou nele foi a loucura. Essa loucura lhe disse o seguinte:
-O ‘humano’ em que você acredita é o remanescente do Sistema.
-A humanidade à qual você foi forçado é apenas uma concha.
Conforme ele repetia todas as coisas antiéticas que podia imaginar, saiu da concha chamada ‘humano’. Ele superou o Sistema que o cercava. Repetir aquilo 1954 vezes na simulação permitiu-lhe alcançar isso.
Matou, matou e matou.
Yoonhwan então parou em algum ponto.
‘Não. Isso não está certo. Não está certo.’
Foi quando viu um de seus amigos que ele parou de matar, o amigo em quem mais confiava. Um humano que era o mais próximo de ser justiça. Aquele amigo estava atacando Yoonhwan com uma espada na mão.
‘Se eu preciso passar por tudo isso para ganhar poder…’
Yoonhwan rangeu os dentes.
‘Eu desistirei de me tornar um Desperto…’
A espada perfurou seu estômago.
Aquela foi a 1954ª simulação. Foi uma memória terrível e dolorosa. Ele sentiu sua visão se distorcer e, no momento seguinte, acordou com um grito agudo.
— UGH!
Seu corpo inteiro doía. Ele se levantou e olhou ao redor. As terras eram áridas e havia a forma de uma região gigante que era vagamente visível à distância.
‘Fui nocauteado.’
Ele olhou para si mesmo. Ainda podia andar e lutar. Ainda sentia que as pessoas tentando caçá-lo ainda estavam por perto.
‘Eu não sabia que eles viriam tão rápido.’
Uma semana atrás, ele deixou a Ruptura depois de falar com Adel na Quinta Região. Ele se afastou do campo de batalha o mais rápido que pôde e evitou fazer qualquer atividade suspeita depois que saiu da zona de guerra. Ele nem mesmo usou grandes portais para esconder para onde estava indo.
Mas a Ruptura rapidamente veio atrás dele, como se soubessem para onde ele estava indo. Era diferente do que fizeram com Yoo Surha.
Originalmente, era tão difícil sair da Ruptura quanto era difícil entrar. A Ruptura matava sem misericórdia se houvesse um traidor. Isso permitia que mantivessem sigilo completo dentro da Ruptura.
‘Se eu ao menos puder me encontrar com Yoo Surha…’
Se não fosse por Adel, ele não teria se arriscado. Ele teria se escondido em algum lugar para buscar outra chance, mas não podia. Yoo Surha estava na Sétima Região. Significava que seu destino já estava definido.
Yoo Surha e os Portadores da Queda. Essas eram as forças que se opunham à Ruptura. Essa era a única esperança que Yoonhwan tinha neste mundo agora. Yoonhwan queria saber o que a pessoa que deixou a Ruptura antes dele estava pensando.
Ele queria perguntar por que ela deixou a Ruptura. Seria pela mesma razão? Ela estaria pensando em justiça? Eles ainda têm esperança para perguntar sobre o que é certo ou errado?
Depois de caminhar por um tempo, Yoonhwan viu a Sétima Região surgindo em sua visão. Mas a excitação logo se transformou em desespero.
‘Cheguei tarde demais.’
Muralhas estavam sendo destruídas, enviando partículas para todos os lados.
O exército da Ruptura já estava na cidade.

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