Índice de Capítulo

    Lerona tinha uma expressão perplexa e confusa ao ver o Capitão baixinho vivo, até que finalmente encheu-se de uma mistura de felicidade e alívio.

    “Ei, ruiva, por que está sorrindo para mim? Sentiu saudades? Aposto que sentiu”, o sujeito moreno perguntou, de forma brincalhona.

    “C-cala boca. Tanto faz se você está vivo!” Lerona retrucou, parecendo insatisfeita, mas não pôde evitar corar levemente.

    Espera… Por que eu estou preocupada com esse idiota? pensou, sem entender a si mesma.

    Fernando, por outro lado, não parecia tão surpreso.

    Desde antes, ele vinha enviando atualizações sobre suas ações para Raul. Apesar de não haver qualquer resposta de volta, seu nome no Cubo Comunicador permanecia aceso em sua lista de contatos e ele estava no alcance de comunicação. Mesmo que isso não significasse exatamente que ele ainda estava vivo, já que o Cubo continuava emitindo sinal enquanto tivesse mana carregado, era motivo suficiente para ter esperança e agora, vendo seu mentor mais uma vez diante dele, não pôde evitar dar um sorriso de satisfação.

    No entanto, isso não durou muito tempo. Alguns Carniçais menores começaram a atravessar pela brecha do portão, enquanto as Criaturas das Trevas maiores empurravam, tentando abrir caminho.

    “Droga, esses bichos não dão sossego! Por isso odeio Criaturas das Trevas!” Raul reclamou quando correu até o portão, ficando ao lado de Fernando e o empurrando. “Ei, gorducho, ajuda a ruiva!”

    “Foda-se! Eu não sou gordo, apenas ganhei alguns quilinhos!” Aldebaran respondeu, quando correu, ficando ao lado de Lerona.

    Wendy parecia confusa ao ver os dois homens. Tanto o sujeito moreno, que era superior de Fernando, quanto o dono da pousada.

    Como esses caras chegaram aqui? perguntou-se, sem entender.

    Os dois haviam vindo pelo lado Sul, onde tudo havia sido tomado. Sua própria comitiva, composta de vários Soldados bem treinados e armados, não respondia mais, com a última comunicação sendo um pedido de ajuda impossível de ser atendido. E, mesmo assim, esses dois conseguiram atravessar o mar de Criaturas das Trevas vivos, um feito absurdo, principalmente para o dono da pousada, que ela acreditava ser apenas um sujeito gordo normal!

    Apesar de surpresa, Wendy não perdeu tempo, quando criou uma nova Barreira de Vento, empurrando de volta qualquer Criatura das Trevas que tentasse atravessar a pequena abertura.

    Raul e Fernando também estavam empurrando o portão de um lado, enquanto Lerona e Aldebaran do outro. O portão, já pesado, estava ainda mais difícil de ser selado devido à força contrária do mar de seres que tentavam adentrar e estava começando a ceder, abrindo-se pouco a pouco.

    “Força, moleque! Porra, põe esses músculos para trabalhar!” Raul gritou quando ativou seu Corpo Tirânico.

    “É o que eu estou fazendo…” Fernando respondeu, com indiferença, sua testa cheia de veias saltitantes.

    O rapaz pálido e o sujeito moreno estavam envolvidos em uma densa névoa vermelha, que era expelida rapidamente de seus corpos enquanto usavam seus Corpos Tirânicos, embebidos em força bruta, ao mesmo tempo. Seu lado do portão parou finalmente de se abrir, quando novamente começou a ser empurrado no sentido contrário. Porém, o outro lado do portão, onde Lerona e Aldebaran estavam, se mantinha abrindo polegada por polegada.

    A Capitã ruiva, apesar de possuir um Físico comparável ao de um Major, estava extremamente ferida, quase sem mana e com sua força se exaurindo rapidamente, enquanto Aldebaran era apenas um ex-militar sedentário que não tinha muito com o que contribuir.

    Nesse momento, Eduardo chegou até eles e, não muito atrás, Magnólia.

    “Afastem-se!” A velha mulher gritou, de forma severa, quando empurrou com a mão direita para frente, movendo o pulso direito. Assim que o fez, uma enorme quantidade de água surgiu repentinamente de dentro de sua Pulseira de Armazenamento, como uma maré, sendo empurrada em direção à entrada.

    Raul, Lerona, Aldebaran, Fernando e Wendy ficaram surpresos com aquela visão aterradora, quando todos correram para os lados.

    Shaaaa! BOOOM!

    A enorme onda de água bateu ferozmente contra o portão, varrendo todas as Criaturas das Trevas que tentavam adentrar, ao mesmo tempo que empurrou, sem esforço, as duas portas, selando-o completamente, esmagando a cabeça de um pequeno carniçal que tentava se espremer entre as fendas.

    Fernando, Raul e todos foram empurrados para os lados pela enorme força da onda, sendo arrastados sem conseguir resistir minimamente.

    Num novo movimento de pulso de Magnólia, toda a água, que começou a transbordar com uma força torrencial, desapareceu tão rápido quanto surgiu, deixando apenas o grupo completamente encharcado, com vários deles caídos no chão e sem forças.

    Coof! Coof! Porra, eu estava com sede, mas não tanta…” Raul brincou, enquanto tossia alguns goles de água, levantando-se.

    Fernando ainda estava no chão, atordoado com o choque repentino. Lerona, apesar de não ter bebido água e estar relativamente bem, também estava sem forças, enquanto Aldebaran havia sido arrastado para longe, estando estirado no chão como um cadáver.

    A única exceção era Wendy, que parecia já acostumada a isso e havia criado uma Barreira de Vento ao seu redor, resistindo à enxurrada repentina.

    Aproximando-se deles, Eduardo tinha uma expressão arrogante em seu rosto.

    “Que bando de fracotes”, declarou, regozijando-se ao ver o estado patético do grupo, então sua mão roçou suavemente na espada em sua cintura, quando olhou para Magnólia. Se a mulher assim ordenasse, ele poderia acabar com todos do grupo, que estavam em um estado precário, ali mesmo.

    Magnólia viu a ação do sujeito, mas apenas balançou levemente a cabeça, em negação.

    Tsk! 

    Eduardo estalou com a língua, mas aceitou a ordem, tirando a mão de sua cintura.

    A ação não passou despercebida por Fernando, que estava tossindo, completamente encharcado, recuperando-se.

    Esse desgraçado, mesmo nessa situação… pensou, cheio de raiva, mas logo forçou-se a se acalmar. Olhando para todo o estrago que Magnólia havia causado, sem grande esforço, não pôde deixar de ficar impressionado. Ele sabia que ela era poderosa, mas não imaginou que ela fosse uma Maga de Água de tal calibre. Quanto espaço ela possui em sua Pulseira de Armazenamento? pensou, ao lembrar-se da enorme torrente, abismado.

    “Que reunião inesperada. Eu não esperava encontrá-lo novamente, criança”, disse Magnólia, em direção ao jovem Tenente. “Na última vez que te vi, você estava acompanhado daquela pessoa. Por que não partiu no comboio como os outros?”

    O rapaz ergueu a cabeça com algum esforço, enquanto apoiava-se para se reerguer.

    “Porque tem milhares de pessoas aqui que precisam de ajuda. Como um militar, proteger civis deveria fazer parte de nosso dever”, afirmou, com uma voz calma, quando finalmente se recompôs.

    Ele poderia ter escolhido a saída fácil, apenas deixar a cidade e não olhar para trás. Essa era a decisão mais lógica possível e a verdade é que ele não estava realmente disposto a se sacrificar por desconhecidos apenas por causa de seu ‘dever’, como ele havia afirmado.

    No entanto, ao saber do plano de Otelo, de usar milhares de pessoas como sacrifícios para garantir sua própria segurança, somado ao abandono dos guardas que foram deixados para morrer depois de tanto esforço, fez seu estômago revirar.

    Esse era exatamente o tipo de coisa que ele mais odiava e que havia jurado mudar se pudesse. O forte usa o fraco para seus próprios interesses, até finalmente descartá-lo da maneira mais cruel possível.

    Fernando, como alguém que havia sido um ‘fraco’ a vida toda na Terra, sabia da dor e do sofrimento frente à impotência absoluta. Saber que sua vida e morte estavam à mercê do destino ou de desgraçados mesquinhos que não se importam minimamente com você era algo mentalmente lacerante.

    Ter consciência de que haveriam milhares de pessoas, homens, mulheres e até crianças, completamente encurralados numa armadilha montada por aquele que deveria protegê-los, esperando ser devorados vivos, enchia-o de uma fúria indescritível.

    Se Otelo apenas tivesse deixado o destino dessas pessoas ao acaso, o jovem Tenente sentiu que não se importaria tanto, afinal seria algo fora de seu controle. Mas selar todos ali, sendo aquele que os governava e que havia enriquecido com seu suor e sangue, era algo revoltante.

    Ouvindo essas palavras do jovem pálido, Magnólia o olhou de forma fria.

    “Você é um tolo, criança”, afirmou, sem se importar com a opinião do rapaz. “Morrer por essa gente?” indagou, ao olhar para trás.

    Ao longe, havia pessoas escondidas por todos os lados ou fugindo das poucas Criaturas das Trevas que haviam escapado de Fernando e Lerona. Muitos, que haviam subido para o segundo andar, apenas olhavam para aqueles que eram mortos, agradecidos por não estarem em seu lugar e torcendo para que as coisas se satisfizessem antes de chegar sua vez.

    Para Magnólia, alguém que estava entre as Grandes Legiões, os civis, principalmente os avalonianos, não passavam de peças a serem usadas e ela nunca arriscaria sua vida por indivíduos medíocres como eles, que não poderiam sequer contribuir para a sobrevivência ou grandeza da Humanidade. As únicas exceções a essa regra eram gênios absolutos como Wendy, que se tornariam pilares da humanidade no futuro.

    Fernando sorriu ironicamente com as duras palavras da velha.

    “Um tolo… Talvez seja o que eu sou, mas não me importo. Se eu vou morrer de qualquer forma um dia, quero fazer tudo que eu quiser e puder até lá. Sem deixar para trás arrependimentos”, afirmou, cheio de convicção.

    Sua ação em prol das pessoas não era heroísmo, muito menos bondade, mas pura satisfação e vontade pessoal, e Fernando sabia muito bem disso.

    Ele já havia vivido uma vida de arrependimentos uma vez e não estava interessado em repetir seu erro.

    “Um medíocre com pensamentos medíocres. Isso combina com você”, Eduardo zombou.

    Raul tinha uma expressão estranha ao ouvir as palavras do rapaz.

    “Quanta baboseira, pivete. Você deveria ter metido o pé daqui… Eu não lembro de ter te ensinado a ser um idiota desse jeito.”

    “Se tivéssemos feito isso, você estaria morto agora”, retrucou Lerona, irritada com a ingratidão do sujeito. Afinal, um dos motivos pelos quais Fernando havia insistido em ficar era devido a ele.

    “E daí? Na hora em que a coisa fica feia, você deve pensar no seu próprio traseiro primeiro. Qualquer outra coisa é pura balela sem sentido”, falou, enquanto se esticava, checando seus ferimentos, então, caminhou até Aldebaran, que ainda estava deitado completamente imóvel no chão, chutando-o nas costas. “Levanta, gorducho.”

    “Ai! Ai! Seu… eu não posso descansar um minuto?” O sujeito reclamou, sentindo-se injustiçado. Afinal, ele havia usado tudo que tinha para mantê-los vivos antes e tudo que queria era continuar deitado ali.

    “Descanse quando morrer!”

    Ao contrário dos demais, Wendy não zombou de Fernando ou achou suas ações idiotas como os demais, mas ficou verdadeiramente impressionada.

    Ela, como um membro das Grandes Legiões, sempre pensou que seu dever, sendo alguém superior, era agir como tal, com grandiosidade e magnanimidade.

    Sendo uma avaloniana, a garota tinha sido desprezada e humilhada pelos outros em sua infância. Tudo mudou quando seus talentos foram descobertos pela Torre Branca e ela passou a ser tratada muito melhor. Mas, mesmo assim, ela sabia que não poderia baixar a guarda. A diferença entre ela e um Humano Errante, naturalmente dotado e com conhecimentos e uma mentalidade diferente, os quais ela não conseguia compreender, eram uma barreira difícil de ser ultrapassada.

    Por isso, mesmo não se sentindo realmente à vontade, praticava atos benevolentes sempre que podia, treinava arduamente, se esforçava na etiqueta e estudos, dando seu melhor para ser a melhor, pois tudo isso era parte do fardo de ser um gênio, alguém que precisaria ser idolatrada pelas massas no futuro.

    No entanto, ela nunca cogitou a possibilidade de ajudar os outros, não porque era uma regra, tradição ou por aparências, mas simplesmente porque era seu dever, ou melhor, sua própria vontade.

    De alguma forma, a garota sentiu-se realmente tocada pela forma de pensar do rapaz pálido.

    Talvez eu realmente o tenha julgado mal, refletiu.

    Treme! Treme! Treme!

    De repente, toda a casa de Leilões estava balançando, sob o ataque incessante e furioso do mar de Criaturas das Trevas do lado de fora. Seus urros e gritos famintos eram aterradores e anunciavam seu desejo de entrar e devorar a vida de todos ali presentes a qualquer custo.

    Vendo isso, Lerona franziu a testa.

    “Tem uma abertura no segundo andar, essas coisas vão entrar por lá, precisamos dar um jeito nis-”

    Antes que ela pudesse terminar de falar, Magnólia a interrompeu.

    “Elas vão entrar com ou sem aberturas. É só uma questão de tempo. No lugar de pensar em como proteger um lugar impossível de ser defendido, devemos pensar em como sair.”

    Nesse momento, Fernando deu um passo à frente.

    “Quanto a isso, eu já cuidei disso. Deve começar a qualquer momento…”

    Bam! Treme! Rosna!

    De repente, os barulhos infindáveis e aterrorizantes do outro lado do portão e das paredes cessaram repentinamente. Quando o chão começou a chacoalhar sob o som de passos e corrida de uma multidão frenética, até que tudo ficou em completo silêncio.

    Ouvindo isso, a expressão de Fernando diminuiu.

    “A partir de agora, começa nossa corrida pela sobrevivência. Quem quiser viver, deve fazer exatamente o que eu digo!” afirmou.

    Todos, incluindo Magnólia, Wendy, Raul e até Aldebaran, não puderam deixar de olhá-lo com expressões estranhas.

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