Capítulo 5 - Caos, Desordem e Confusão - Parte IV (Combo 30/50)
Caos, Desordem e Confusão – Parte IV
Ao receber o “conselho” de Lennenkamp, o Presidente do Alto Conselho da Aliança, João Lebello, viu-se em uma situação difícil. Não era preciso dizer que se tratava de um grande pretexto imperial e ele não podia simplesmente ignorar o fato de que Yang era a causa disso.
“Yang se considera um herói nacional. Baixar a guarda agora não seria menosprezar a existência de nossa nação?”
Lebello estava desconfiado. Se Yang tivesse dado ouvidos, sem dúvida teria ficado entediado e perdido a vontade de se rebelar. Mas, olhando apenas de fora, suspeitas como as de Lebello não eram surpreendentes. Da perspectiva da sociedade em geral, qualquer homem ingênuo o suficiente para abrir mão de um cargo de máxima autoridade em uma idade tão jovem em troca de uma vida de aposentado não passava de um degenerado. Era mais convincente supor que ele estivesse escondido em algum canto obscuro da sociedade, trabalhando em algo maior do que qualquer um pudesse imaginar.
Yang havia subestimado sua própria imagem distorcida. Aqueles contagiados pelo vírus da adoração a heróis eram propensos à hipérbole, chegando ao ponto de acreditar que Yang estava traçando, enquanto dormia, planos para o futuro da nação e da humanidade como um todo que valeriam por um milênio. Até mesmo Yang, dependendo do seu humor, era propenso a tal retórica: “Existem guerreiros com visão de futuro neste mundo. Tenho certeza disso. Não durmo de forma descuidada, mas reflito profundamente sobre o futuro da humanidade.”
E como ele era conhecido por proferir tais coisas, aqueles que não perceberam o sarcasmo fora de contexto poliam ainda mais a falsa imagem de Yang. Sempre que Julian Mintz ouvia Yang falar assim, porém, ele simplesmente ignorava: “Então, permita-me fazer uma previsão sobre o futuro do almirante. Às sete horas desta noite, o senhor tomará uma garrafa de vinho no jantar.”
Na visão de Lebello, ele foi forçado a escolher entre incorrer na ira do Império ao proteger Yang, arriscando assim a própria existência da Aliança, ou sacrificar apenas Yang para salvar a Aliança. Se fosse um homem mais audacioso, talvez tivesse apelado às coações de Lennenkamp, nem que fosse apenas para ganhar mais tempo. Lebello se convenceu de que as intenções do Comissário eram as intenções do Imperador. E embora costumasse expressar suas conclusões após muita turbulência mental, ele decidiu convidar seu amigo Huang Rui, que havia deixado o serviço público, para compartilhar essa turbulência em andamento.
“Prender o Almirante Yang? Você está falando sério?”
Huang Rui quase perguntou a Lebello se ele estava louco.
“Entenda-me. Não, você precisa entender. Não devemos dar à Marinha Imperial nenhuma desculpa. Mesmo que Yang seja um herói nacional, se ele colocar em risco a paz de nossa boa nação, serei forçado a executá-lo.”
“Mas isso vai contra toda a razão. Embora possa ser verdade que o Marechal Yang tenha ajudado na fuga do Almirante Merkatz, o Tratado de Bharat e a Lei de Insurreição ainda não haviam entrado em vigor. Qualquer aplicação retroativa da lei é proibida pela constituição da Aliança.”
“Não se Yang tiver encorajado Merkatz a sequestrar aquelas naves; nesse caso, isso teria ocorrido após a entrada em vigor do tratado. Não há necessidade alguma de aplicar a lei retroativamente.”
“Mas onde estão as provas? Digamos que Yang tenha concordado com isso. Duvido que seus subordinados dele fizessem o mesmo. Eles poderiam até mesmo tomar o assunto nas próprias mãos e resgatar o Marechal Yang à força. Não, é exatamente isso que aconteceria. E o que você planeja fazer quando eclodirem disputas internas nas Forças Armadas da Aliança, como aconteceu há dois anos?”
“Nesse caso, terei que executá-los também. Não é como se eles fossem leais ao Marechal Yang de alguma forma. O papel deles é proteger o destino da nação a todo custo, não apenas Yang.”
“Será que eles concordariam com isso? Eu sei que não concordaria. E outra coisa, Lebello — fico inquieto ao pensar quais são realmente as intenções da Marinha Imperial e o que eles podem estar planejando. Talvez estejam esperando que a gente incite os subordinados do Almirante Yang e provoque agitação civil. Isso lhes daria toda a desculpa para intervir. Não que eles façam o que lhes mandam, de qualquer forma.”
Lebello assentiu, mas não conseguia pensar em nenhum plano melhor para resgatar sua nação do perigo. Se lhe pedissem para personificar a existência questionável do destino, Lebello estava convencido de que seus membros se debateriam enquanto seu sistema nervoso central lutava para se controlar. De qualquer forma, a situação estava se agravando rapidamente.
No dia seguinte, dia 21, o Presidente recebeu a visita de Enrique Martino Borges de Arantes e Oliveira, que supervisionava o think tank central do governo da Aliança como reitor da Universidade Central de Governança Autônoma, uma escola de formação para burocratas do governo. Eles se reuniram por três horas para uma discussão a portas fechadas.
Quando saíram do escritório do Presidente, vários guardas observaram que os lábios de Lebello estavam franzidos em uma expressão de derrota, enquanto Oliveira exibia um sorriso fino e insincero. Naquela reunião, foi feita uma proposta ainda mais radical do que a decisão original de Lebello.
No dia seguinte, dia 22, a manhã amanheceu tranquila na casa dos Yang. O trabalho árduo e o esforço de Frederica haviam valido a pena. Suas omeletes de queijo agora agradavam a ambos, e suas habilidades na preparação de chá preto estavam melhorando. Embora fosse verão, Heinessen estava a salvo do calor e da umidade das zonas tropicais. O vento que passava pelas árvores envolvia a pele deles com as fragrâncias da clorofila e da luz do sol.
Yang havia levado sua mesa e cadeira para o terraço para que pudesse tentar colocar no papel alguns de seus pensamentos, deleitando-se com a valsa de luz e vento composta pelo verão. Ele tinha a nítida sensação de que estava escrevendo o que um dia se tornaria uma famosa obra literária. Ou talvez estivesse apenas se iludindo.
Noventa por cento das razões para a guerra serão chocantes para a posteridade. Quanto aos outros 10 por cento, quão mais chocantes são para nós, aqui e agora…
Quando ele escreveu até ali, sons rústicos ecoaram de todas as direções e a agradável valsa de verão se desvaneceu em uma cadência florida. Yang olhou para a entrada e franziu a testa ao ver uma tensa Frederica conduzindo meia dúzia de homens em ternos escuros em direção ao terraço. Os homens se apresentaram de maneira rude. Seu líder lançou um olhar para Yang.
“Excelência, Marechal Yang, por ordem do Ministério Público Central, o senhor está detido sob a acusação de violação da Lei de Insurreição. O senhor irá comigo imediatamente, a menos que queira entrar em contato com seu advogado primeiro?”
“Infelizmente, não conheço nenhum advogado”, disse Yang, desanimado. Ele então pediu educadamente para ver alguma identificação.
Frederica examinou a identificação para ele. Após determinar sua veracidade, ela ligou por videofone para o Ministério Público para confirmar. A inquietação de Frederica era palpável. A nação e o governo nem sempre estavam certos, como ela bem sabia, e Yang sabia que não adiantava resistir à prisão.
“Não se preocupe”, disse ele à esposa. “Não sei ao certo que crime cometi, mas não há como eles me executarem sem um julgamento. Ainda estamos em uma democracia. Ou pelo menos é o que dizem nossos políticos.”
Ele, é claro, falava também para os mensageiros indesejados. Yang deu um beijo em Frederica, uma habilidade na qual não havia melhorado nada desde que se casaram. Com isso, o marechal mais jovem da história das Forças Armadas da Aliança, em sua jaqueta safári off-white e camiseta, foi forçado a se despedir de sua bela esposa.
Depois de ver o marido partir, Frederica correu de volta para dentro de casa. Ela jogou o avental no sofá, abriu uma gaveta da mesa do computador e tirou um blaster. Pegando meia dúzia de cápsulas de energia na palma da mão, subiu as escadas até o quarto.
Ela voltou dez minutos depois, vestida com seu uniforme de serviço ativo. Sua boina, blusa e botas curtas eram todas pretas, o lenço e as calças, branco-marfim. Em mente, corpo e vestuário, Frederica estava armada até os dentes.
Ela ficou diante do espelho de corpo inteiro ao pé da escada, ajeitou a boina sobre seus cabelos castanho-dourados e verificou a posição do coldre no quadril. Ao contrário do marido, ela se formou na Academia de Oficiais com honras e era uma excelente atiradora.
Mesmo quando se dedicava ao trabalho de escritório como Assessora de Yang no Quartel General, ela nunca se separava de seu blaster e usava o mesmo uniforme que seus colegas homens, sempre pronta para revidar na improvável hipótese de soldados inimigos invadirem as instalações. Com tudo em ordem, ela falou com seu reflexo no espelho.
“Se você pensa, nem que seja por um segundo, que vamos deixar você controlar nossas vidas, está redondamente enganado. Quanto mais você nos bater, mais suas mãos vão doer. É só esperar para ver.”
Essa foi a declaração de guerra de Frederica.

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