Capítulo 2772 - Mensagem numa Garrafa
Cassie conseguiu se libertar da memória vívida, atordoada pela estranheza alienígena do mundo contido nela.
‘Mictlan… Ketzelkan… a Enguia, a Águia… Seria a Sepultura dos Deuses?’
Sim, ela havia testemunhado o passado de Sepultura dos Deuses — do Reino do Sol. O primeiro dos Reinos Divinos a ser infectado pelo Feitiço do Pesadelo, e o primeiro a ser consumido pelo Reino dos Sonhos também.
Mictlan era o nome que a civilização que ali nascera após a Guerra da Perdição dava a eles como os Ocos. O Templo do Sol era a Cidadela do Lago Desaparecido, que Nephis destruíra em grande parte durante sua batalha contra Véu da Lua. A Perdição era o que eles chamavam de Pesadelo… Ketzelkan era um Supremo que, como Nephis, herdara a linhagem do Deus do Sol. Que possuía o Fogo.
Ele era também, muito provavelmente, o Tirano Amaldiçoado, Condenação, a quem o Rei das Espadas havia matado durante a guerra. A memória do antigo monarca era tão nítida e vívida, como se Cassie tivesse estado lá pessoalmente.
Mas como ela passou a possuir essa memória? Ou qualquer uma das memórias ao seu redor, aliás, que não lhe pertenciam… ou às pessoas e criaturas cujas memórias ela havia testemunhado.
‘Não sei.’
Tentando se recompor, ela estendeu os tentáculos de sua Vontade em busca de suas próprias memórias.
Havia algumas pequenas lembranças com arestas vivas por perto…
Em uma delas, Cassie estava em Bastion muito antes de se tornar uma metrópole próspera. Não havia assentamento nas margens cinzentas do lago, e os Despertos que serviam ao Clã Valor viviam dentro das muralhas do Castelo. Ela era uma jovem que, no entanto, já havia se tornado uma Mestra, caminhando pelas ameias da muralha externa.
A vista do lago radiante e da paisagem desolada e cinzenta além era ao mesmo tempo deslumbrante e sinistra — mas, é claro, ela não conseguia apreciar sua beleza solene. Isso porque ela era cega e não havia ninguém por perto com quem pudesse compartilhar os sentidos. Até que houve.
Um cavaleiro com uma Memória de armadura polida e capa vermelha estava de guarda no alto da muralha, examinando a margem distante com semblante sombrio. Ele também não estava com ânimo para apreciar a vista — como um vassalo do Grande Clã Valor e um de seus Cavaleiros Ascendentes, seu dever era monitorar o lago em busca de sinais de perigo.
‘Ah… isso deve ter acontecido pouco depois de Nephis ter sido adotada pelo Clã Valor, antes da Cadeia de Pesadelos.’
Na lembrança, Cassie passava pelo Cavaleiro. Ao ouvir seus passos, ele se virou e lançou-lhe um olhar alerta. Então, seus olhos se arregalaram um pouco.
“Oh… Lady Cassie.”
Ela viu seu próprio rosto jovem através dos olhos dele. Cassie parou, virou-se para ele e fez uma leve reverência.
“Bom dia.”
Ele hesitou por um instante, como se estivesse tímido, e então perguntou:
“O que te traz aqui?”
Ela sorriu.
“Estou apenas dando um passeio.”
Um sorriso tímido também surgiu em seus lábios.
“Oh, entendo.”
Cassie permaneceu em silêncio por alguns instantes, depois expirou lentamente e disse em voz clara:
“Na verdade, eu estava pensando…”
Ele ergueu uma sobrancelha.
“Sim?”
Ela deu de ombros.
“Não é nada demais. Eu só estava pensando que, quando me tornar santa, devo encontrar um homem chamado Sunless e desejar-lhe um feliz aniversário no dia do solstício de inverno.”
O Cavaleiro piscou algumas vezes. “Como?”
Cassie sorriu.
“Só estava pensando alto. Pode continuar, senhor. Não vou mais distraí-lo.”
A lembrança terminou. No entanto, havia outro nas proximidades.
Nela, Cassie viu o mesmo Cavaleiro. Só que ela estava um pouco mais velha e já era uma Transcendente.
A conversa entre eles também não foi muito cordial.
“T-traidora…”
O Cavaleiro estava ajoelhado no chão, preso pelos tentáculos da Tormenta. A ponta da lâmina da Dançarina Quieta pairava em seu pescoço. Com uma expressão fria, Cassie parou diante dele e dirigiu-se a ele em tom calmo:
“Não se esforce demais, senhor. Nada de bom resultará de uma lesão.”
O Cavaleiro começou a se debater com ainda mais desespero, as placas de sua armadura encantada se curvando e cedendo sob a pressão.
“Você… não vai escapar… dessa! Assim que eu denunciar sua traição ao Rei, seus dias estarão contados!”
Um sorriso inexpressivo distorceu os lábios de Cassie.
“Mas o senhor nem se lembrará de que nos conhecemos. Agora, senhor, mostre-me o que eu quero saber.”
Os olhos do Cavaleiro se arregalaram.
“Eu nunca vou te contar nada!”
Indiferente, Cassie abaixou a venda dos olhos.
“Mantenha-se em silêncio. Não há necessidade de o senhor falar.”
Os esforços do homem cessaram lentamente, uma expressão de êxtase surgindo em seu rosto. Cassie invadiu suas memórias, buscando os segredos do Grande Clã Valor… Contudo, nesse processo, ela encontrou algo estranho.
Era uma lembrança do encontro deles nas muralhas de Bastion, antes da Cadeia dos Pesadelos. Não havia nada de particularmente estranho naquela lembrança — além do fato de que Cassie não se lembrava daquela conversa.
Sua memória era absoluta, mas, ao mesmo tempo, a maior parte dela havia desaparecido — pelo menos a maior parte de suas memórias como uma Desperta. Assim, foi ao mesmo tempo peculiar e normal descobrir uma lembrança de si mesma que ela não se lembrava na mente de outra pessoa.
A conversa em si, porém, foi um tanto estranha.
‘Um homem chamado Sunless?’
Por que Cassie procuraria um homem com um nome tão peculiar, e logo no dia do solstício de inverno? Seria algum tipo de jogo de palavras? Ou algum tipo de código? Antes de tudo isso, por que ela deixou escapar aquela frase estranha, sem ser questionada, para um completo desconhecido?
Nada daquilo fazia sentido.
A menos que… As mãos de Cassie tremiam.
‘Tem que ser.’
A menos que ela soubesse que se esqueceria daquela conversa, que um dia capturaria aquele Cavaleiro e que se veria lendo as memórias dele. A menos que ela estivesse enviando uma mensagem para sua versão futura.
A lembrança chegou ao fim, deixando Cassie confusa. E então, a lembrança de Cassie confusa também chegou ao fim, deixando-a pensativa.
Ainda incompleta, ela estendeu os tentáculos de sua Vontade até um fragmento com um aroma semelhante. Nessa lembrança, Cassie era uma Mestre novamente, entrando em uma cafeteria modesta em NQSC. Havia uma fila, então ela ficou no final dela, atrás de um homem alto.
Bem, para ela, todos os homens pareciam altos, considerando sua própria estatura pequena. Como se pressentisse a presença dela, o homem em questão se virou e olhou para ela. Então, olhou duas vezes, surpreso.
Houve um longo silêncio, e então ele perguntou em tom surpreso:
“Com licença… você não é Lady Cassie? A Canção dos Caídos?”
Cassie sorriu.
“Sim. Prazer em conhecê-lo.”
O homem ficou boquiaberto. Alguns instantes depois, recompôs-se e fez uma reverência.
“Uau! É uma honra conhecê-la, Mestre Cassie.”
Ela não conseguia ver, mas suspeitava que havia um sorriso meio bobo no rosto dele. O homem tossiu.
“Não acredito que acabei de encontrar uma celebridade. Minha esposa não vai acreditar em mim.”
Ele ficou em silêncio por um instante e então acrescentou em tom alegre:
“Ah, meu nome é Yutra. Desperto Yutra. Na verdade, minha esposa e eu fomos assistir ao seu filme em um dos nossos primeiros encontros de verdade…”
Ele provavelmente estava se referindo àquela peça de propaganda horrível sobre os eventos da Costa Esquecida. Cassie deu uma risadinha.
“Que bom que deu certo para você.”
Ela expirou lentamente e então acrescentou em voz clara:
“Na verdade, eu estava pensando…”
A lembrança terminou aí.

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