Capítulo 2834 - Invisível
A lembrança terminou, deixando Cassie alarmada e perturbada.
‘Não pode ser.’
Ela havia vislumbrado demais da mente corrompida de Tormenta.
Ela vislumbrou coisas que nunca deveria ter visto.
Ela havia mergulhado na mente alienígena de seu eu passado, corrompida, e agora…
Cassie sentiu algo mudando dentro dela.
Algo parecia ter morrido e algo parecia ter nascido. Algo parecia ter se movido em seu coração e algo parecia ter parado em sua alma.
Seu próprio ser se contorcia na dor da transformação, enquanto tudo que a compunha, tudo que era ela, lutava contra o renascimento vil. Uma força mais terrível do que qualquer coisa que ela pudesse imaginar tentava mudá-la, enquanto um poder que ela desconhecia possuir tentava preservá-la.
Ela sabia muito bem o que estava acontecendo com ela.
Era corrupção.
‘Não, não, não…’
O conhecimento era a origem de todo o poder. Era também a coisa mais pesada do mundo. E, às vezes, era também a coisa mais perigosa do mundo.
Afinal, foi o conhecimento proibido que corrompeu a Primeira Procuradora. E uma vez que esse conhecimento se espalhou, nasceu a Corrupção.
Ao testemunhar uma lembrança de Tormenta, Cassie se expôs à Corrupção. E agora, sua alma corria o risco de ser infectada pela vil escuridão.
‘Calma.’
Ela tentou se recompor, acalmando sua mente atordoada com lógica e razão. A corrupção, em si, não era tão perigosa. Não… na verdade, não havia nada mais perigoso do que a corrupção no mundo. Mas ela também assumia diferentes formas — as pessoas tendiam a pensar nela como uma força monolítica, mas não era.
Existia uma variedade quase infinita de Corrupção. Tinha que haver, considerando que sua fonte — o Vazio primordial — estava em constante mudança. Ela podia ter origens diferentes e evocar fins diferentes. As causas da Corrupção também diferiam em potência.
Considere a forma mais modesta que assumiu, por exemplo — as Sementes do Pesadelo que floresciam nos corações dos Aspirantes. A mera formação de um núcleo da alma era suficiente para destruir essas sementes. Inúmeros Adormecidos o fizeram com a ajuda do Feitiço, enquanto Rain o fez sozinha, ao Despertar naturalmente. Além disso, havia centenas de milhões de pessoas que carregavam as Sementes do Pesadelo em seus corações, mas nunca sucumbiram à Corrupção simplesmente porque o poder dos Domínios aos quais pertenciam — o poder de seus Soberanos — suprimia as Sementes, impedindo-as de florescer.
O Caminho da Ascensão era inerentemente oposto à Corrupção. Portanto, quanto mais alto alguém subia nele, mais resistente à Corrupção se tornava.
Portanto, mesmo que Cassie tivesse sido infectada pela Corrupção por causa da memória de Tormenta, isso não significava que ela sucumbiria a ela. Ela também poderia resistir.
Na verdade, ela estava pronta para lutar contra isso até seu último suspiro.
Mas para isso… ela precisava primeiro saber o que estava acontecendo com ela.
Ela precisava terminar de se reconstruir e obter controle total de sua mente, sua alma e sua vontade.
‘Preciso me concentrar.’
Cassie se recompôs — mas então, outra lembrança a dominou.
A última lembrança que sua Vontade não conseguiu afastar.
Pertencia ao Senhor das Sombras. Ou melhor, era uma verdade que o Senhor das Sombras recebera como prêmio no Jogo de Ariel.
Nessa lembrança, assim como na anterior, o mundo estava em chamas. Incontáveis árvores ardiam, tombando com gemidos de dor. Cinzas obscureciam o céu, e um calor insuportável consumia a sanidade daqueles que ainda lutavam no inferno sem fim.
Uma Besta Sagrada jazia destroçada na pira de madeira em chamas, e diante dela estava uma mulher com uma armadura de couro rasgada, o rosto deslumbrante ensanguentado e coberto de cinzas. Feridas terríveis marcavam seu corpo, e havia um vazio peculiar em seus olhos.
O fogo consumia o mundo, e a batalha continuava a devastar o local ao seu redor, mas ela parecia alheia à carnificina. Cambaleando, a mulher deu um passo para trás e caiu.
Enquanto ela lutava obstinadamente para se levantar, seu sangue encharcando as cinzas, as chamas se aproximavam cada vez mais. Antes que a consumissem, porém, alguém surgiu em meio aos gemidos das árvores moribundas, olhando para ela em silêncio.
Era uma figura alta envolta num manto nebuloso, usando uma máscara temível de madeira negra polida. A máscara rosnava ferozmente, mas o olhar do estranho era frio o suficiente para extinguir o inferno que os cercava.
Uma voz que soava como uma miríade de maldições agonizantes ressoou por trás da máscara, zombando da mulher. Repreendendo-a por ser fraca demais, patética demais e por ter esquecido o próprio nome.
Era a voz de Weaver.
“… Você pode esquecer tudo o mais, todos os outros — pode até esquecer seu próprio nome. Mas não ouse esquecer o nome de Weaver, o Demônio do Destino. Precisamos nos ver novamente, você e eu. Então… venha me encontrar no Reino das Sombras. Venha e veja se alguém como você realmente pode matar Weaver. Então, depois de aprender o verdadeiro significado do desespero… então, eu permitirei que você morra, Orphne dos Nove.”
Ao ouvir seu próprio nome, a mulher pareceu recuperar parte de suas forças. Seus olhos voltaram a focar e ela encarou o daemon nebuloso com uma intenção assassina sombria e sinistra.
Weaver riu e se levantou, dando as costas à caçadora ensanguentada.
“Isso sim é melhor!”
O Demônio do Destino olhou para baixo e então expirou lentamente.
Seus ombros pareceram cair, e a voz sinistra ressoou mais uma vez por trás da máscara assustadora:
“…Você está aí?”
Weaver endireitou-se e olhou para cima, como se estivesse vendo algo que ninguém mais conseguia ver.
Como se estivesse falando com alguém que ninguém mais pudesse ouvir.
Talvez estivessem se dirigindo ao Senhor das Sombras, que um dia veria a visão dessa verdade em O Jogo de Ariel.
Ou talvez estivessem se dirigindo a Cassie, que um dia testemunharia a lembrança do Senhor das Sombras tendo a visão.
“Você está assistindo?”
O Demônio do Destino deu uma risada rouca.
“Então preste bastante atenção, epígono. Deixe-me mostrar-lhe como os deuses morreram…”
O mundo em chamas se despedaçou.

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