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    Acorrentado na gaiola de espelhos, completamente sozinho e impotente, Mordret passou um longo tempo pensando em sua vida sem sentido, em todas as pessoas que o traíram e abandonaram, no direito de primogenitura que lhe foi negado e nas coisas preciosas que lhe foram tiradas.

    E lenta mas seguramente, ele foi consumido pelo ódio. Ou melhor…

    Ele permitiu que o ódio o consumisse. Mordret estava repleto de amargura, raiva e um ressentimento insuportável, é claro. Naturalmente, ele desejava se vingar do Clã Valor — e, acima de tudo, de seu pai impiedoso. Mas, na verdade, o ódio que Mordret sentia não era tão avassalador, pelo menos não a princípio.

    Ele simplesmente estava cansado de viver sem rumo. Então, decidiu fazer da vingança seu objetivo. O fato de trilhar o caminho da retribuição implacável ter sido uma decisão sóbria e consciente de sua parte não significava, porém, que ele não fosse sincero em sua devoção a ela. Selado na escuridão, Mordret fez uma escolha. Escolheu entregar-se ao ódio e torná-lo o eixo de sua existência… forjou seu próprio destino a partir do desejo sombrio de ver aqueles que o desprezaram arruinados e eliminados.

    Foi assim que ele suportou seu longo aprisionamento. Dia após dia, ele esperava e contemplava como destruiria o Grande Clã Valor e tiraria a vida de seu pai. Havia muito a considerar — afinal, seu pai era o Supremo, o que significava que ele poderia muito bem ser um deus.

    Rebelar-se contra os deuses era uma vocação ousada.

    Mordret esperou, esperou e esperou… ele era, acima de tudo, paciente, e, eventualmente, sua paciência foi recompensada. Seis longos e tortuosos anos depois, Mordret saiu do Templo da Noite coberto de sangue. Ele deixou para trás o jovem sem rumo que costumava ser e abraçou o homem assassino e perverso em que se tornara.

    Foi assim que nasceu o Príncipe do Nada.

    Agora, quase uma década depois, Mordret havia alcançado patamares incríveis. Ele aparentemente concretizou todos os seus objetivos audaciosos. O Clã Valor não existia mais; seu pai, o Rei das Espadas, estava morto. O próprio Mordret, por sua vez, era o Supremo — um feito incrível que apenas seis outras pessoas na história haviam alcançado. De fora, seu sucesso parecia realmente extraordinário… Afinal, não era qualquer um que podia lutar sozinho contra toda a humanidade. E Mordret não estava apenas travando uma guerra contra o mundo inteiro sozinho — naquele momento, ele tinha a humanidade em apuros. Ele havia percorrido um longo caminho…

    Mas, na verdade, a vida de Mordret tinha sido uma mistura de sucessos e fracassos.

    Ele havia escapado com sucesso do Templo da Noite. Desafiou a Semente do Pesadelo na Torre de Marfim e a conquistou, tornando-se um Ascendente — exatamente como havia planejado. Mais tarde, juntou-se ao Domínio de Song e conspirou contra o Clã Valor durante a Cadeia de Pesadelos, desestabilizando o equilíbrio de poder e custando à sua irmã a chance de alcançar uma vitória decisiva.

    Madoc de Valor e um exército de seguidores pereceram na Antártida, enquanto o próprio Mordret desafiou o Terceiro Pesadelo e retornou Transcendente do Túmulo de Ariel.

    Durante a Guerra dos Domínios, ele dizimou a Casa da Noite e invadiu o Domínio da Espada, abrindo sozinho a segunda frente da guerra e custando ao Rei das Espadas tanto a lealdade de sua filha quanto a grande dádiva de governar Bastion. Essas perdas privaram Anvil de forças na batalha final contra Ki Song e, por fim, resultaram em sua morte pelas mãos do Senhor das Sombras.

    Contudo, Mordret havia falhado em seu objetivo final — tirar a vida de seu pai com as próprias mãos. Preso em Bastion por Morgan e seu bando de Santos do governo, ele perdeu a chance de abater o Rei das Espadas. Em vez disso, foi o Senhor das Sombras quem desferiu o golpe final. E aí residia o problema…

    Após a morte do Rei e o colapso do Clã Valor, Mordret se viu novamente sem rumo. Ele havia alcançado todos os seus objetivos aparentemente impossíveis e não tinha certeza do que fazer consigo mesmo depois disso.

    Seu ódio, que dava sentido à sua vida, de repente se tornou inútil. Com sua vingança consumada — ainda que de maneira bastante insatisfatória — Mordret se viu em um estado peculiar de completa falta de propósito.

    A essa altura, ele já havia esquecido como viver sem um objetivo avassalador e absorvente ditando cada uma de suas ações, mas lá estava ele novamente, sem nenhum motivo claro para continuar. Naquele vazio incolor e desconcertante, Mordret descobriu um novo fato sobre si mesmo.

    Era que ele queria viver.

    Era irônico, na verdade, o quanto ele abominava a ideia de deixar de existir e se tornar nada. Mordret queria ser algo — alguém — e continuar a viver, com ou sem razão. Aliás, o desejo de existir era uma razão em si mesma.

    Talvez fosse apenas razoável. Afinal, essa era a natureza de todos os seres nascidos do Nada. Todos eles ansiavam por serem vistos pelos vivos e se tornarem algo.

    O problema, claro, era que Mordret já sabia o que estava por vir.

    Com a partida dos Soberanos, o monstro que o criara logo retornaria. E quando Asterion escapasse de seu selo, assim como Mordret escapara do seu, a humanidade se tornaria sua presa. Mordret conhecia a fome e a ambição da Criatura dos Sonhos melhor do que ninguém… ele também sabia do que Asterion era capaz. Então, abandonou a ideia de encontrar algum significado complexo para a sobrevivência e dedicou-se a sobreviver pela sobrevivência em si — tal como uma besta.

    Para sobreviver, Mordret precisava realizar duas coisas.

    Ele precisava recuperar seu Defeito do Grande Espelho, para que Asterion não pusesse as mãos naquela coisa maldita…

    E ele teve que se tornar Supremo.

    Este último, em particular, parecia um obstáculo intransponível. Mordret tinha o exemplo da Estrela da Mudança e do Senhor das Sombras diante de si, e ainda assim, não tinha certeza de como se tornar um Supremo. Eventualmente, porém, Mordret alcançou ambos os objetivos.

    Mas seus problemas estavam apenas começando.

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