Índice de Capítulo

    “Rachadura?” perguntou o motorista com um bocejo. “Esta é a Rodovia Qingyin. Daqui a pouco, quando entrarmos em Qingdao, vamos passar bem por lá. Aí a gente vê de quem é a obra malfeita que foi exposta dessa vez.”

    Uma rachadura ‘acima’? Qi Xia achou aquilo um pouco estranho. Eu sei que o terremoto vai chegar ao meio-dia de amanhã, mas será que algum sinal estranho vai aparecer antes disso?

    Antes que Qi Xia pudesse chegar a uma conclusão, o motorista pisou fundo no freio de repente, reduzindo drasticamente a velocidade que antes era de cento e vinte por hora.

    Sentado no banco de trás sem cinto de segurança, a freada brusca quase fez Qi Xia bater de cara no encosto da frente.

    “O que foi?” Ele se firmou no banco e levantou a cabeça, confuso.

    “Que estranho… Tem uma fila enorme na rodovia.”

    Qi Xia seguiu o olhar do motorista e viu que o trânsito à frente estava engarrafado. Uma maré de carros coloridos se estendia pela estrada até perder de vista.

    O motorista olhou as horas, ansioso. “Eita… Acho que teve um engavetamento. Já passei por isso antes, vai demorar pelo menos uma hora… E a saída para Qingdao é logo ali na frente… Já são quase sete e meia, o que a gente faz…”

    Ele olhava de um lado para o outro sem parar, como se tentasse descobrir como mudar de faixa para contornar aquele mar de carros.

    “Não tem problema, motorista. Já podemos considerar que chegamos a Qingdao”, disse Qi Xia. “Pode ir com calma.”

    “Poxa…” O motorista olhou para Qi Xia pelo retrovisor, um tanto envergonhado. “Você é um cara bacana, meu jovem. Fica tranquilo, antes das oito e meia eu te deixo em casa com certeza.”

    Qi Xia assentiu e não disse mais nada, e o motorista posicionou o carro devagar no final da fila.

    O que nenhum dos dois esperava era que aquela fila quilométrica não se movesse nem um milímetro desde o momento em que entraram nela. Atrás deles, um fluxo constante de veículos continuava chegando. Agora, estavam espremidos no meio de todo aquele trânsito, sem poder avançar nem recuar.

    “Que coisa estranha…” Depois de esperarem por mais de uma hora, com o relógio marcando quase oito e meia, o motorista coçou a cabeça, impotente. “Mesmo que tenha sido um engavetamento, já deviam ter limpado a pista…”

    Qi Xia estava ficando agoniado, mas não havia nada melhor a fazer senão esperar.

    Eles ainda estavam a uns vinte ou trinta quilômetros do apartamento. Se ele decidisse ir a pé como da última vez, provavelmente só chegaria ao amanhecer.

    Pensando nisso, ele pegou o celular de novo e ligou para Yu Nian’an, mas continuou sem resposta.

    O som de chamada não atendida o deixava ainda mais irritado.

    Naquele momento, os dois ficaram em silêncio. Apenas o rádio do carro continuava chiando.

    “Atenção, ouvintes. Um fenômeno climático desconhecido foi registrado na Rodovia Qingyin. A situação real ainda aguarda análise de especialistas. Pedimos aos motoristas que tiverem a possibilidade que desviem a rota com antecedência.”

    “Fenômeno climático?” Foi a primeira vez que o taxista ouviu um termo tão inusitado no rádio, ficando sem entender nada.

    “Deve ser algo como ‘raios globulares’ ou ‘miragens'”, explicou Qi Xia. “Talvez tenha atraído uma multidão de curiosos e acabado causando um acidente de trânsito de forma indireta.”

    “Ah, é mesmo? Você entende de muita coisa, meu jovem. É universitário?”

    Qi Xia não deu mais atenção ao taxista e continuou encostado no banco, de olhos fechados para descansar.

    Em suas lembranças da última vez, ele não tinha voltado para Qingdao naquela mesma noite, então não fazia ideia do que havia acontecido na rodovia. Só sabia que, ao pegar a estrada na manhã seguinte, tudo já estava normalizado.

    Em outras palavras, esse engarrafamento não duraria muito. A melhor opção de Qi Xia no momento era aguardar.

    Porém, quando se espera por muito tempo e sem um rumo claro, é impossível não ficar com os ânimos exaltados. Afinal, ninguém sabia até quando teriam que ficar ali.

    Aos poucos, o som de buzinas começou a ecoar pela estrada, uma após a outra, deixando os nervos à flor da pele.

    Algum tempo depois, os motoristas foram desligando os motores, descendo dos carros e começando a conversar entre si.

    Dava para ver de longe que o taxista não era do tipo que ficava parado. Assim que viu as pessoas andando, desceu do veículo na mesma hora. Sem dar mais bola para Qi Xia, acendeu um cigarro e começou a bater papo com os motoristas ao redor.

    Qi Xia suspirou e pegou o celular para mandar uma mensagem para Yu Nian’an.

    “An, pode ser que algo ruim aconteça amanhã. Arruma algumas coisas básicas. De manhã, eu te levo para um lugar seguro.”

    Ele fez questão de soar um pouco mais alarmista. O mais importante agora era que Yu Nian’an entendesse a gravidade da situação assim que lesse a mensagem. Quanto a palavras como “terremoto” ou “fenômenos bizarros”, podia deixar para explicar depois.

    Depois de enviar o texto, Qi Xia finalmente recostou no banco e fechou os olhos.

    Não sabia o porquê, mas, mesmo ciente de que haveria um terremoto no dia seguinte, a simples ideia de estar ao lado dela o deixava mais calmo.

    Sua capacidade era limitada; não conseguiria salvar muitas pessoas.

    Se saísse espalhando por aí que haveria um terremoto, a única coisa que conseguiria seria ser preso na hora por perturbação da ordem pública. Por isso, dentro de suas limitações, Qi Xia só podia escolher salvar um pequeno grupo.

    Ele nunca se considerou um salvador. Tudo o que fazia era apenas para garantir a própria sobrevivência neste mundo.

    Qi Xia fechou os olhos e cochilou um pouco. Não sabia quanto tempo havia se passado quando foi subitamente acordado pelo barulho da porta abrindo.

    “Meu jovem, vem rápido ver isso!” gritou o motorista a plenos pulmões, sem se importar se Qi Xia estava dormindo.

    “O quê?” Qi Xia abriu os olhos, desnorteado, e viu o homem balançando um celular na frente dele.

    Ele pegou o aparelho e viu uma foto. O lugar devia ser o pedágio ali na frente, na entrada da rodovia.

    “Foi um motorista lá da frente que tirou. Já tá rolando solto aqui na estrada!” disse o homem, empolgado. “Você que tem estudo, me ajuda a entender que fenômeno climático é esse.”

    Qi Xia deu zoom na imagem e não pôde evitar franzir a testa.

    Para chamar aquilo de “fenômeno climático”, seria forçar demais a barra.

    A foto mostrava uma fenda suspensa no céu, da qual despencavam inúmeras coisas brilhantes, como se as próprias estrelas estivessem caindo. Vários carros estavam bloqueados por aquela cortina de luz, completamente impedidos de avançar.

    “O céu rachou?” perguntou Qi Xia, confuso.

    “Pois é, parece mesmo que abriu um buraco no céu. Será que esse fenômeno é aquilo que os poetas chamam de ‘a Via Láctea caindo do nono céu1’?”

    Qi Xia contorceu os lábios, resignado. “Senhor, não faço ideia do que seja isso, mas garanto que esse fenômeno aí não existe.”

    O motorista deu um sorriso ingênuo e sentou-se na direção. “Mas tão dizendo que o buraco está diminuindo. Deve sumir daqui a pouco. Assim que essas coisas brilhantes pararem de bloquear a pista, a gente já pode seguir viagem.”

    Qi Xia assentiu e pegou o próprio celular. Em um instante, ele paralisou.

    “Mais de três da manhã?!”

    “Pois é…” O motorista se espreguiçou. “Você é um cara bacana e eu não sou de mesquinharia. Por isso já desliguei o taxímetro faz tempo. Senão, o tempo de espera na estrada ia sair bem caro.”

    O problema de Qi Xia não era nada disso. O que o preocupava era ter percebido que, até aquele momento, Yu Nian’an ainda não havia respondido sua mensagem.

    Uma sensação de inquietação começou a se espalhar por seu coração2.

    1. NT: Verso do famoso poema “Vista de uma Cachoeira no Monte Lu”, do clássico poeta Li Bai, usado na China para descrever algo grandioso despencando das alturas.[]
    2. NT: O título original deste capítulo, 不 (Inquietação), forma um trocadilho com o nome de Yu Nian’an (余念). O caractere “An” () significa “paz”. Assim, a palavra inquietação – 不 (Bù ān) pode ser entendida tanto como “sem paz” quanto “sem a An”.[]

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 100% (1 votos)

    Nota