Capítulo 92: A Rachadura
Qi Xia saiu do centro de loteria segurando um cheque e caminhou direto para o táxi.
“Ué? Já terminou?”
O motorista estava em pé do lado de fora do carro fumando. O táxi azul-marinho ao lado dele parecia completamente deslocado em meio aos carros verde-menta da região.
Qi Xia não respondeu. Ele estendeu a mão, abriu a porta e entrou.
“A gente… vai voltar agora?” perguntou o motorista.
“Sim.” Qi Xia assentiu com a cabeça. Mas, por precaução, dessa vez escolheu sentar no banco de trás.
“Beleza.” O motorista jogou a bituca de cigarro no chão e a apagou com o pé, entrando no lado do motorista. “Mas me diz aí, não vai querer dar uma volta aqui por Jinan? Tenho um velho amigo por aqui, se você não estiver com pressa…”
“Estou com pressa”, disse Qi Xia. “Pode dar a partida.”
“Ah…” O motorista assentiu, sem graça.
Qi Xia se lembrou da última vez. Tinha sido justamente em Jinan que perdeu metade do dia para sacar o dinheiro no banco, voltando para casa com uma bolsa enorme cheia de dinheiro vivo.
Sua intenção original era fazer uma surpresa para Yu Nian’an, mas, desta vez, precisava pular todas essas formalidades.
Agora, ele tinha que correr para casa o mais rápido possível e levar Yu Nian’an para algum lugar aberto.
Pensando nisso, Qi Xia pegou o celular para ligar para Yu Nian’an, querendo pedir que ela já arrumasse algumas roupas para facilitar a vida deles morando fora nos próximos dias.
Ele abriu a lista de contatos, encontrou o primeiro da lista, salvo como “A”, e ligou direto.
Esse nome tinha sido escolhido de propósito para Yu Nian’an. Só a letra A garantiria que o número dela ficasse sempre no topo da agenda.
Ele esperou por mais de dez segundos, mas ninguém atendeu do outro lado da linha.
“O que está acontecendo…” murmurou Qi Xia, confuso. Pelo que se lembrava, Yu Nian’an nunca largava o celular, então por que não estava atendendo agora?
Qi Xia desligou e ligou de novo várias vezes, mas continuou chamando até cair. Isso o deixou inevitavelmente preocupado.
Ele olhou as horas no celular. Já eram quatro da tarde.
“Motorista, se conseguirmos voltar para Qingdao antes das sete e meia, te dou quinhentos yuan a mais pela corrida.” Qi Xia levantou a cabeça para falar com ele.
“Sério mesmo?” O motorista o olhou pelo retrovisor e depois checou o relógio.
Três horas e meia. Trezentos e cinquenta quilômetros.
Apesar de apertado, não era uma tarefa difícil para um motorista experiente. Se mantivesse cento e vinte por hora na rodovia o tempo todo, provavelmente chegariam bem em cima da hora.
As chances de ganhar dois mil e quinhentos yuan em um único dia eram realmente raras. Era evidente que o homem ao volante mal conseguia acreditar.
“Não estou mentindo.” Qi Xia assentiu. “Cuidado na estrada. Pode ir.”
O motorista tinha uma vaga ideia do que estava acontecendo. Que tipo de pessoa normal pegaria um táxi para ir a outra cidade?
Embora as corridas de táxi fossem caras, a única vantagem era que, diferente de trens normais e de alta velocidade, não exigiam a compra de passagens com nome real.
Isso significava que o passageiro ali atrás queria vir para Jinan escondido, sem que ninguém descobrisse. Analisando tudo, ele devia mesmo ter ganhado na loteria.
Só prêmios acima de um milhão exigiam que o ganhador fosse até o centro de loteria da província para retirar o dinheiro. Talvez o valor real fosse ainda maior do que um milhão.
Pensando nisso, o motorista balançou a cabeça, impotente.
Dizem que a chance de ganhar na loteria é menor do que a de ser atingido por um raio. É de matar de inveja. O passageiro ali atrás não era velho, mas tinha tido toda essa sorte, enquanto ele, já na meia-idade, ainda precisava se matar de trabalhar em serviço pesado.
Sentado no banco de trás, Qi Xia usou a visão periférica para observar a expressão complexa do homem na direção e não pôde evitar um sorriso de canto de boca.
Pois é. Para uma pessoa comum, ter um ganhador da loteria sentado logo atrás… quem não começaria a imaginar coisas?
É uma pena que você tenha a vontade de roubar, mas lhe falte a coragem, pensou Qi Xia.
Esse taxista havia sido “cuidadosamente escolhido” por ele entre vários outros. Na ocasião, vários motoristas estavam na porta do hotel esperando por passageiros. Este homem grandalhão tinha furado a fila e acabou sendo xingado por um colega magrelo até não parar mais de pedir desculpas.
Naquele momento, Qi Xia o leu como um livro aberto.
Ficou claro que, mesmo querendo ganhar dinheiro tanto quanto qualquer um, ele era incrivelmente covarde.
Alguém assim jamais “mataria e roubaria”.
A expressão do motorista oscilou por um bom tempo até que ele finalmente suspirou e voltou a focar apenas em dirigir, com os olhos fixos na estrada de forma obediente.
Qi Xia também encostou no banco e ligou mais uma vez para Yu Nian’an, mas ainda não obteve resposta.
Naquele ambiente silencioso, Qi Xia se lembrou mais uma vez das coisas que tinham acontecido na Terra do Fim.
Tinha sido tudo real demais. Não parecia nem um pouco com um sonho.
Ele levou a mão ao ombro esquerdo. Neste momento não havia o menor sinal de ferimento ali, mas lembrava-se claramente de tudo o que havia acontecido.
Lembrava-se de que Han Yimo, Qiao Jiajin, Tian Tian, o Oficial Li, Zhang Shan e o Velho Lü morreram lá. Ele mesmo tinha morrido, mas de alguma forma voltou para sua vida de antes.
Sendo assim, será que aquelas pessoas também voltaram para suas próprias vidas…?
Acho que tudo isso não passou de uma pegadinha bizarra.
Conforme o céu escurecia, as luzes nas barreiras da rodovia se acendiam lentamente.
Apesar de ter passado apenas três dias naquele lugar maldito, Qi Xia sentia como se fizesse uma eternidade desde a última vez que viu luzes à noite.
Ver a iluminação noturna passando rápido pela janela em sua linha de visão lhe trazia uma sensação inexplicável de paz.
Pelo visto, o motorista queria muito ganhar aqueles quinhentos yuan. Assim que entrou na rodovia, manteve o carro no limite de velocidade o tempo todo.
Ele era como todo mundo neste mundo, sempre correndo de um lado para o outro só para garantir as três refeições do dia.
Qi Xia tomou uma decisão silenciosa. Mesmo que acabassem passando do horário, ele ainda daria o dinheiro extra ao taxista.
O motorista até tentou puxar assunto algumas vezes, mas, percebendo aos poucos que o passageiro não era muito de falar, acabou apenas ligando o rádio para tentar quebrar aquele clima constrangedor.
“Você está ouvindo a Rádio Trânsito 89.7.”
Uma voz levemente magnética ecoou devagar pelos alto-falantes. Parecia ser a estação favorita dos taxistas.
“Agora são exatamente dezenove horas, horário de Pequim. Vamos dar uma olhada nos comentários dos ouvintes na nossa plataforma online.”
Depois de dizer isso, o locutor ficou claramente paralisado. Ele não disse mais nada por quase dez segundos, o que definitivamente contava como um acidente de transmissão ao vivo.
“Haha!” O motorista riu, debochado. “Viu só isso? Será que esses locutores de hoje em dia compram as vagas com dinheiro?”
Qi Xia franziu a testa levemente. Sentia que as coisas não eram tão simples assim.
O preparo psicológico de locutores em transmissões ao vivo era extremamente forte. Mesmo que a maioria das mensagens online fosse inútil, eles conseguiam filtrar informações importantes na mesma hora e ler no ar. Então, por que ele tinha ficado em silêncio por mais de dez segundos?
“As mensagens que estamos recebendo na plataforma estão um pouco estranhas hoje…” disse o locutor em um tom esquisito. “Recebemos dezenas de comentários seguidos dizendo que apareceu uma rachadura bizarra ‘acima’ da rodovia Qingyin, perto da saída de Qingdao. Vamos entrar em contato com a polícia de trânsito o mais rápido possível para confirmar se essa rachadura é em alguma placa de sinalização ou em alguma outra estrutura. Pedimos que os veículos na região tenham cuidado e tentem desviar.”

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