Índice de Capítulo

    Combo 97/100

    Uma extensão infinita de ondas tumultuadas repousava sob um céu crepuscular, envolta em névoa e iluminada pela luz pálida de inúmeras estrelas cintilantes. Ventos poderosos sopravam sobre a superfície do mar ondulante, enquanto abaixo dele se estendia a escuridão insondável das profundezas abissais. O horizonte distante estava escondido atrás de uma parede de nuvens pesadas, anunciando a chegada de uma tempestade devastadora.

    Indiferente à ameaça assustadora da calamidade inevitável, um navio colossal navegava sobre as ondas em grande velocidade. Com pelo menos um quilômetro de largura, de bombordo a estibordo, a antiga embarcação ainda parecia estreita devido ao seu grande comprimento. Seu casco antigo era feito de madeira, mas não tinha emendas, como se alguém tivesse escavado um galho de uma árvore inconcebível para criá-lo.

    O navio era como uma cidade por si só, com dezenas de conveses vastos, belos palácios, altos pagodes construídos em sua superfície e grandes mistérios escondidos em seus porões sem limites. Possuía bosques selvagens, riachos caudalosos, lagos profundos e prados amenos.

    Era o Jardim da Noite, a Grande Cidadela governada por Santa Jet, a Regente do Sul.

    A embarcação milagrosa já estivera praticamente desolada, na época em que pertencia à Casa da Noite. Embora milhares de Despertos a tivessem chamado de lar, seu número não fora suficiente para lotar seus muitos conveses e incontáveis ​​porões — a maioria dos palácios e pagodes estavam vazios, muitos dos conveses inferiores permaneciam inexplorados e os bosques, abandonados.

    As coisas eram diferentes agora. Milhões de refugiados chegaram a bordo do grande navio através do Portal dos Sonhos e, assim, o Jardim da Noite foi transformado. Os palácios agora eram edificações habitadas. Os bosques selvagens haviam se transformado em pomares cultivados. Os prados, em campos férteis. Crianças brincavam nas margens dos lagos e nadavam nas águas cristalinas…

    Inúmeras lanternas coloridas iluminavam a cidade flutuante, fazendo-a brilhar como uma joia vibrante no crepúsculo do mar enevoado.

    Naeve observava a paisagem vibrante do Jardim da Noite de um mirante na proa do navio com uma expressão complexa no rosto. Era bom ver a Grande Cidadela desafiando a perigosa extensão do Mar Tempestuoso mais uma vez… também era gratificante vê-la se tornar tão vibrante e próspera, lar de inúmeras pessoas.

    Mas, ao mesmo tempo, ele não pôde deixar de se lembrar da tranquilidade desolada de seu antigo eu… da paz estrelada de como o Jardim da Noite costumava ser sob o governo de seu clã. Seu antigo clã, a Casa da Noite, não existia mais.

    “Papai!”

    Ao ouvir uma voz infantil, Naeve apagou a melancolia do rosto e se virou com um sorriso. No instante seguinte, uma garota com vibrantes olhos e cabelos índigo se lançou em seus braços a toda velocidade — ele a agarrou e riu baixinho, girando-a.

    “Espere, espere… você está grande demais agora para bater no seu pobre pai como um tubarão faminto…”

    A menina franziu a testa ferozmente.

    “Não sou!”

    Naeve riu novamente. Sua filha já tinha doze anos, um fato que ele às vezes achava difícil de acreditar.

    Sua família finalmente se juntou a ele a bordo do Jardim da Noite alguns meses antes. Mesmo assim, ele não conseguiu passar tanto tempo com eles quanto gostaria, já que havia muitos navios precisando de orientação e poucos Andarilhos da Noite vivos.

    Então, suas vidas foram divididas desigualmente entre o Mar Tempestuoso, onde o Jardim da Noite e o resto das Cidadelas precisavam ser estabelecidas e defendidas contra os perigos do Reino dos Sonhos, e o mundo desperto, onde comboios navais tinham que servir como a última conexão tênue entre os Quadrantes isolados.

    A situação melhorou um pouco depois que as últimas Cidadelas do Mar Tempestuoso foram recuperadas, e especialmente depois que Estrela da Mudança usou seu Portal dos Sonhos para evacuar os últimos humanos restantes da América do Sul… ainda assim, com a guerra ocorrendo no Quadrante Oriental e a infraestrutura do mundo desperto lentamente entrando em colapso, ninguém tinha tempo para descansar.

    Colocando a filha no chão, Naeve deu um tapinha na cabeça dela.

    “Então, você já terminou a escola por hoje?”

    As escolas eram um desenvolvimento relativamente recente. Com milhões de pessoas se estabelecendo no Reino dos Sonhos e inúmeras outras a caminho, naturalmente havia muitas crianças aqui agora — algumas tendo chegado com seus pais, outras tendo nascido sob o céu alienígena. Todas essas crianças precisavam ser educadas e ensinadas.

    O Domínio da Espada e o Domínio de Song pouco fizeram nesse sentido nos quatro anos anteriores à guerra. Havia escolas, é claro, mas em número insuficiente — e mesmo as que haviam sido estabelecidas careciam de um programa de ensino e de uma visão unificados. Assim, a maioria das crianças era educada em casa pelos pais ou entregue a cuidadores escolhidos entre os membros de pequenas comunidades de refugiados enquanto os pais trabalhavam.

    Criar um currículo escolar abrangente para crianças destinadas a crescer neste estranho mundo novo também não foi uma tarefa fácil. Afinal, o Reino dos Sonhos frequentemente se recusava a seguir as leis que pareciam axiomáticas na Terra. Os professores deveriam instruir seus alunos sobre como a eletricidade funcionava, considerando que ela não funcionava da mesma forma, ou de forma alguma, aqui?

    É verdade que Naeve ouvira dizer que alguém em Bastion conseguiu construir uma usina hidrelétrica em funcionamento. Se fosse esse o caso, o Jardim da Noite certamente se beneficiaria em breve, considerando que o próprio grande navio era conhecido por atrair e absorver raios das tempestades intermináveis.

    De qualquer forma, as coisas mudaram depois da guerra. O governo se envolveu, empregando os serviços de muitos especialistas renomados do Reino dos Sonhos. Pelo que Naeve sabia, o chefe do projeto era alguém chamado Julius — um explorador experiente e acadêmico estimado da Primeira Geração, anteriormente empregado como instrutor da Academia dos Despertos.

    Sob a liderança do velho enérgico, as diretrizes da educação universal foram rapidamente desenvolvidas, iteradas e implementadas. O Jardim da Noite estava em grande parte sob o controle do governo, então foi a primeira cidade a se beneficiar da iniciativa educacional — as outras cidades no Reino dos Sonhos logo abririam escolas suficientes para acomodar todas as crianças, mas aqui, as crianças já estavam recebendo uma educação adequada.

    A filha de Naeve, ao que parecia, estava gostando muito da escola. Foi por isso que ele ficou surpreso ao vê-la antes do fim das aulas. Ela assentiu com um sorriso.

    “A professora1 nos deixou ir mais cedo! Algo sobre precisar voltar para casa antes da… transição?”

    Naeve permaneceu ali por alguns instantes e então suspirou.

    “Certo. Então por que você não está em casa, mocinha?”

    A menina sorriu.

    “Por que eu iria direto para casa se não tem lição de casa? Pai… você está louco?!”

    Então ela riu e disse:

    “Encontrei o vovô no caminho. Ele me trouxe aqui.”

    Ao fazê-lo, ouviu-se um som de tosse desconfortável atrás dela. Ali, estava um homem de pele lisa de ébano e cabelos perfeitamente brancos, com os olhos brilhando em tons de índigo e azul-escuro. Sua figura imponente era ampla e assustadora, mas, naquele momento, havia uma expressão profundamente sombria em seu rosto.

    “Pirralha, eu te disse para não me chamar de vovô.”

    Ela olhou para ele inocentemente.

    “Mas Vovô Onda de Sangue… você é tio do meu pai. Isso faz de você um avô!”

    Santo Onda de Sangue olhou para ela em silêncio e então suspirou.

    “… Tio-avô. Pelo menos me chame de tio-avô.”

    Naeve se pegou olhando para a filha, sentindo calor e frio ao mesmo tempo.

    “Ótimo. Está bom.”

    Era bom que ela ainda pudesse sorrir, gargalhar, rir e provocar os mais velhos sem pensar duas vezes. Depois de tudo o que haviam passado dois anos antes — todo o terror, toda a perda e toda a mudança —, o próprio Naeve raramente conseguia sorrir sem se forçar.

    As crianças eram muito mais resilientes que os adultos.

    Era por isso que ele esperava que sua filha e seus colegas construíssem um mundo melhor no futuro. Um mundo mais generoso, mesmo que não fosse o mundo em que seus pais haviam nascido. Soltando um suspiro, ele se virou para Onda de Sangue.

    “Tio.”

    Naeve hesitou por alguns instantes e então perguntou timidamente:

    “Ela vai prosseguir com isso?”

    Ele não se referia à filha, é claro. Referia-se à Ceifadora de Almas Jet, a governante do Jardim da Noite e líder de fato do governo. Onda de Sangue assentiu.

    “Sim. Na verdade… por causa da tempestade, vai acontecer mais cedo. Vai acontecer agora.”

    Naeve fechou os olhos por um momento.

    A guerra contra o Skinwalker não estava ocorrendo sem problemas, e a evacuação do Quadrante Oriental não estava acontecendo tão rápido quanto deveria. Afinal, havia apenas um Portal dos Sonhos — os refugiados precisavam ser levados a um único ponto de encontro, vindos de todo o continente, primeiro, e depois rigorosamente verificados para não deixar passar nenhum receptáculo da vil abominação.

    O Quadrante Ocidental também estava se afogando na enchente dos Portais do Pesadelo. Então, Estrela da Mudança e sua Regente elaboraram uma medida de emergência. Algo para pender a balança a favor da humanidade, pelo menos por um tempo.

    Mas a decisão delas não foi isenta de riscos. Naeve abriu os olhos e olhou para o tio.

    “Temos… certeza de que essa é a melhor opção?”

    Onda de Sangue deu de ombros.

    “Não tenho. Mas se tiver alguma objeção, pode ir falar com a Ceifadora de Almas.”

    Naeve levantou uma sobrancelha.

    “Por que você não faz isso?”

    Seu tio olhou para ele em silêncio e depois pigarreou.

    “Bem. É porque… aquela mulher. Eu tenho medo dela.”

    A filha de Naeve olhou para o tio-avô com os olhos arregalados.

    “Achei que você não tivesse medo de nada, vovô. Por que você teria medo da Tia Jet?”

    Onda de Sangue não era um homem muito expressivo, mas naquele momento parecia que alguém o havia esfaqueado no coração. Ele permaneceu em silêncio por um tempo, depois resmungou: “Por que você chama a Ceifadora de Almas de tia, mas eu de avô?”

    Naeve queria rir, mas naquele momento sentiu uma mudança sutil acontecer no mundo. As estrelas pareciam ter ficado mais brilhantes, e o grande navio tremia levemente sob seus pés.

    “Está começando. Olha!”

    Os três olharam para frente.

    Lá…

    Uma linha branca cortou repentinamente o tecido da realidade em frente ao Jardim da Noite, caindo dos céus nas águas turbulentas abaixo. Depois, expandiu-se, transformando-se numa fenda ampla e imponente. A fenda se encheu de nada além de um brilho radiante por um instante. Então, pela primeira vez em milhares de anos, a pura luz do dia brilhou sobre a superfície do Mar Tempestuoso, vinda do titânico Portal dos Sonhos.

    Naeve respirou fundo e sorriu levemente.

    “Acho que estamos realmente fazendo isso…”

    Logo, a proa do navio colossal mergulhou na ampla fissura do Portal dos Sonhos. E um momento depois, cortou as ondas de um mar diferente.

    Para ser mais específico, o Jardim da Noite havia entrado na vastidão infestada de abominações do Oceano Índico.

    Ele havia chegado à Terra.

    1. bem, nao tem como eu saber seu genero, mas aposto que é mulher, 80% dos educadores de nível fundamental são mulheres[]

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