Capítulo 2778 - Inimigo às Portas
Cassie mudou para uma lembrança diferente.
Aconteceu em um lugar distante, em Bastion, onde ela era alta e transbordava uma vitalidade feroz, com todos os seus sentidos e impulsos aguçados a tal ponto que o mundo parecia dez vezes mais nítido e vívido do que o normal — brilhante e avassalador, repleto de aromas, imagens, sons e sensações intensos.
Seu corpo impecavelmente esculpido era finamente ajustado e indescritivelmente poderoso, fazendo-a sentir como se pudesse derrubar montanhas com as próprias mãos… na verdade, ela bem que podia. Ela já havia feito isso.
Ela era a Santa Atena, Criada por Lobos, a governante de Bastion.
Effie caminhava em direção aos portões na extremidade norte da cidade, cercada por uma escolta de guerreiros Despertos. Eram seus Lobos — os antigos soldados do Exército de Lobos que estiveram sob seu comando desde a Antártida.
Atualmente, os Lobos haviam se tornado uma força independente e eram responsáveis por manter a paz em Bastion. Eles haviam aceitado inúmeros novos recrutas, submetidos a treinamento implacável, e até mesmo usavam uniformes encantados, com cores em comum — cinza e azul — e um brasão estilizado.
Os Guardiões do Fogo podiam ser a força de mais alta patente da humanidade, mas eram os Lobos que lidavam com tudo o que acontecia aqui em Bastion e ao redor. Então, um esquadrão de veteranos estava escoltando Effie hoje — seus antigos companheiros de guerra, com quem ela havia passado por momentos infernais em inúmeras ocasiões.
Não que ela precisasse da proteção deles, é claro.
Acontece que as aparições públicas de Effie frequentemente causavam alvoroço, então os Lobos a acompanhavam para gentilmente afastar as pessoas e evitar que ela ficasse presa na multidão.
Eles também estavam ocupados naquele momento. A rua estava movimentada, e inúmeras pessoas pararam diante da visão tentadora da Santa Atena, fitando-a com olhos ardentes. Sua fama e a natureza peculiar de sua presença contribuíam para essas fortes reações, mas ela já estava acostumada a elas.
Muitos cidadãos também já estavam acostumados com ela. A reverência que sentiam pela famosa Criada por Lobos se dissipava rapidamente depois de passarem um ou dois minutos em sua companhia — algo que, em grande parte, era intencional.
Effie não suportava ser tratada com o mesmo tipo de reverência e admiração a que Nephis sempre era submetida. Ser simples e direta era muito mais o seu estilo, e conversar com pessoas comuns sem afeto parecia muito mais produtivo se ela quisesse governar a cidade com eficácia. Então, Effie precisava quebrar o gelo de vez em quando.
Nesse momento, ela percebeu também um casal de jovens olhando para ela com expressões de admiração e piscou para eles maliciosamente, fazendo o rapaz estremecer, enquanto a garota corou e desviou o olhar rapidamente.
Em qualquer outra ocasião, Effie teria rido das reações fofas deles. Mas hoje, tudo o que ela conseguiu fazer foi forçar um sorriso. Ela tinha plena consciência da ameaça que havia se instalado em sua cidade.
Na verdade, ela estava muito perto da igreja onde a Criatura dos Sonhos habitava.
‘Que situação estranha.’
Normalmente, Effie teria escolhido um de dois caminhos: invadir a modesta igreja e eliminar o inimigo, ou manter-se o mais longe possível dele. Mas o homem em questão era ardiloso demais, impondo um estranho pacto de não agressão a Nephis. Agora, Effie não podia atacá-lo… não que ela fosse atacá-lo, sendo uma mera santa… e a Criatura dos Sonhos também não deveria lhe fazer mal.
Fisicamente, pelo menos.
Quanto a se manter longe dele, era exatamente o que ela vinha fazendo nos últimos dias. Contudo, o Domínio Humano não podia parar simplesmente porque um adversário perigoso havia se revelado — havia um milhão de coisas a serem feitas, e a maioria delas precisava ter sido feita ontem.
Hoje, ela precisava inspecionar o andamento da construção do Portão Norte. E lá estava ela, fazendo exatamente isso.
O Portão Norte era o local onde as caravanas de mercadores que chegavam a Bastion paravam, além de abrigar um distrito da cidade chamado Bazar. Era também onde a Igreja da Lua havia estabelecido sua sede e onde a Criatura dos Sonhos tinha sua morada.
“Santa Atena! É uma grande honra!”
Ela acenou com a cabeça para o Mestre encarregado da construção do portão. Ele a levou para conhecer o local da construção, explicando os detalhes de quais fortificações seriam colocadas onde, como seriam construídas e como o conjunto rúnico desenvolvido por Cassie — e pelo Senhor das Sombras, em segredo — seria incorporado às muralhas.
Effie o ouvia apenas com desinteresse. Embora nunca olhasse na direção onde ficava a Igreja da Lua, ela tinha plena consciência de sua existência. Ela também tinha plena consciência do homem de olhos dourados que estava sentado nos degraus da igreja, esculpindo algo em um pedaço de madeira com uma pequena faca.
“… Você é mesmo um deus?”
Mesmo que centenas de metros e inúmeros ruídos os separassem, ela não pôde deixar de ouvir uma pergunta ingênua feita pela voz de uma criança. Virando a cabeça, Effie olhou sombriamente para a igreja distante.
Uma multidão de curiosos rodeava o modesto edifício, mas todos mantinham distância, hesitantes em se aproximar de um ser Supremo tão imponente. As crianças, porém, muitas vezes desconheciam a importância de tais distinções — então, em certo momento, um menino que não parecia ter mais de cinco anos se aproximou dos degraus da igreja e fez uma pergunta à Criatura dos Sonhos.
A expressão de Effie escureceu. Ao longe, Asterion ergueu os olhos da estatueta de madeira que estava esculpindo e lançou um olhar sorridente para o menino.
“Um deus? Não… bem, pelo menos ainda não.”
O menino inclinou a cabeça, confuso.
“Minha mãe me disse que um deus vive nesta igreja.”
Asterion deu uma risadinha.
“Sua mãe parece ser uma pessoa sábia e maravilhosa. Mas não, eu não sou um deus.” O menino sorriu docemente.
“Ah… então você é humano?”
A Criatura dos Sonhos o estudou por alguns longos instantes, seus olhos dourados brilhando com uma emoção nebulosa. Os dedos de Effie se contraíram, como se estivessem prontos para agarrar uma Memória no ar.
Por fim, porém, Asterion apenas deu uma risadinha e continuou a esculpir.
“Essas são as únicas duas opções que eu tenho?”

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