Índice de Capítulo

    Em outra lembrança, Effie encarava o fogo dançando na lareira com uma expressão distante. Sua alegria habitual havia desaparecido, e em seu lugar, uma sensação de dúvida e inquietação se instalara em seus olhos cor de avelã. Logo, ouviu-se o som de uma porta se abrindo, e ela olhou para a entrada. Suspirou profundamente e, então, forçou-se a sorrir.

    Poucos segundos depois, seu marido entrou na sala e olhou para ela surpreso. “Ah? Você chegou cedo hoje. Pensei que quase não nos veríamos nessas próximas semanas.”

    Effie zombou.

    “Não pareça tão desapontado.”

    O marido dela riu e foi abraçá-la.

    “Nunca. Estou muito feliz por você estar aqui. Ling também ficará radiante quando voltar das aulas… ah, você está com fome? Posso preparar algo para você.” 

    Effie sorriu.

    “Você me conhece. Eu nunca estou sem fome.”

    Enquanto ele ia preparar o jantar para eles, o sorriso dela desapareceu e ela o observou de costas com uma expressão complexa. Enquanto comiam e conversavam, Effie não parava de olhar para o marido quando ele desviava o olhar. Por fim, ela perguntou:

    “A propósito… você contratou um novo professor para o nosso bolinho1?”

    O marido dela tomou um gole de chá e assentiu. “Sim, professor de história. Por quê?”

    Effie hesitou.

    “Por que ele precisa de um novo professor? O que há de errado com Julius?”

    Ele riu.

    “Ora, não há nada de errado com o professor Julius, claro! É só que nosso filho é bastante enérgico, e o professor Julius não é mais jovem. Além disso, ele não pode ser especialista em tudo.”

    Effie permaneceu em silêncio por um tempo, depois franziu a testa.

    “Mesmo assim. Quem é esse novo tutor? Quais são as qualificações dele? Verificaram os antecedentes dele? E o mais importante, por que você o contratou sem falar comigo primeiro?”

    O marido dela pareceu surpreso.

    “O quê? Você estava apenas ocupada, só isso.”

    A expressão de Effie se tornou ainda mais carrancuda.

    “Quando se trata do nosso filho, eu nunca estou ocupada. Você sabe disso.”

    Pode ter sido um simples caso de falta de comunicação. O marido dela pode ter tomado uma decisão impulsiva, pensando no que era melhor para o pequeno Ling.

    Ou…

    Pode ter sido outra coisa.

    Será que poderia ter sido?

    Effie andava tensa e alarmada ultimamente. Estava especialmente ansiosa porque a Criatura dos Sonhos já havia demonstrado interesse em seu filho. Por isso, estava atenta a tudo que envolvia o pequeno Ling. Ela nem sequer saberia que Ling tinha um novo tutor se Sunny não tivesse lhe contado. Seu marido jamais teria tomado uma decisão tão importante quanto escolher um professor para o filho sem a ajuda dela — principalmente quando a praga de Asterion se espalhava pelos dois mundos como um incêndio florestal.

    Ele sabia o quão perigosas as coisas estavam naquele momento. Isso não foi nada bom.

    Isso foi…

    ‘Suspeito?’

    Mas não, talvez… talvez ela estivesse apenas sendo paranoica. Talvez ela estivesse errada, e houvesse uma explicação perfeitamente razoável para tudo isso.

    Seu marido olhou para ela em silêncio. Por fim, disse:

    “Isso não é verdade.”

    Effie estava confusa.

    “O que?”

    Ele suspirou.

    “Não é verdade que você nunca está ocupada quando se trata do nosso filho. Na verdade, você está ocupada demais para ele… ou para mim. Eu entendo, de verdade. Você é uma pessoa importante. Suas obrigações muitas vezes a mantêm longe de casa e, às vezes, você precisa ficar semanas inteiras fora lutando pela humanidade na linha de frente. Não a culpo por isso.”

    Ele balançou a cabeça negativamente.

    “Mas é injusto dizer que você sempre tem tempo para nós.”

    Effie olhou para ele, horrorizada. Uma forte sensação de culpa atravessou seu coração. Mas, ao mesmo tempo…

    Ela não pôde deixar de notar que ele havia evitado responder a todas as suas perguntas. Seria coincidência ou uma tática? Será que ela… Será que ela ainda podia confiar no seu marido?

    Essa pergunta era enlouquecedora.

    A abominável ambivalência de tudo aquilo a feria como uma lâmina cega. Ela não tinha certeza se ele estava sendo desonesto, mas também não tinha certeza se ele era totalmente sincero. Queria exigir respostas, mas temia descobrir a verdade. Acima de tudo, temia acusá-lo de traição e descobrir que tudo não passava de um mal-entendido.

    ‘Eu odeio isso. Odeio tudo.’

    Effie perdeu o apetite. Afastando o prato, ela olhou para o marido e disse:

    “Quero que você me diga uma coisa.”

    Ele ergueu uma sobrancelha.

    “O que?”

    Effie o encarou por um tempo, depois disse: “Diga-me que a Criatura dos Sonhos é um verme vil, que só tem malícia no coração e que Nephis vai selar aquele carniçal perverso por toda a eternidade, mais cedo ou mais tarde.”

    O marido olhou para ela com um leve sorriso. O silêncio se estendeu entre eles, fazendo um arrepio percorrer a espinha de Effie. Por fim, porém, ele deu uma risadinha.

    “É só isso que você quer? Claro. A Criatura dos Sonhos é um crápula vil, só tem malícia no coração e em breve será selado por toda a eternidade por Lady Nephis.”

    Effie soltou um suspiro de alívio. Mas então, ela hesitou.

    ‘Por que… ele não está zangado comigo? Ele não deveria estar zangado por ser o suspeito?’

    Ela olhou para o marido, ainda incerta. Ele deu uma risadinha, balançou a cabeça e voltou a se concentrar na comida.

    ‘Talvez eu estivesse errada, afinal.’

    Enquanto o fogo da lareira se refletia em seus olhos, um brilho dourado pareceu surgir em suas profundezas por um breve instante.

    … E então, uma série de outras lembranças surgiram como momentos terríveis de um mundo em ruínas.

    Effie estava estendida sobre pedras frias, correntes de ferro prendendo seus membros ensanguentados. Não havia mais nenhum vestígio da mulher robusta e vivaz que ela fora — em vez disso, ela parecia um cadáver, tão magra que parecia que o simples bater de uma asa a partiria ao meio.

    Seus braços estavam esqueléticos e fracos. Suas costelas se elevavam como cristas, abraçadas firmemente pela pele sem vida. Seu estômago estava tão magro que parecia se agarrar à coluna. Seu rosto esquelético estava abatido e machucado, com olhos febris queimando intensamente. Suas pernas eram como varas compridas, dobradas de forma desajeitada. Parecia que ela não conseguia mais movê-las.

    Seu corpo era uma imagem horripilante de uma besta que se consumia lentamente, tendo já digerido a maior parte de sua própria carne. Então, ouviu-se o som de uma porta se abrindo, e ela virou a cabeça sem ânimo para olhar para as grades de sua gaiola.

    Um aroma delicioso pairava no ar viciado.

    Seu marido apareceu na entrada da masmorra, pisando com cuidado sobre as runas esculpidas no chão. Ele carregava uma bandeja repleta de todos os tipos de comidas deliciosas.

    Ele colocou a bandeja em frente à gaiola e sorriu.

    “Eu trouxe o seu favorito.”

    Effie simplesmente o encarou, sem dizer nada. Ele hesitou por um instante, depois suspirou.

    “Eu simplesmente não entendo por que você insiste nessa tolice, meu amor. Tudo o que você precisa fazer é me dizer onde está nosso filho.” Ele observou os destroços horríveis do corpo dela, sua expressão se tornando sombria.

    “Você nem precisa dizer nada! Basta pensar. Por favor, Effie… me diga onde está nosso filho. Vamos acabar com isso. Onde está o pequeno Ling?”

    Effie permaneceu em silêncio por um tempo…

    Então sorriu lentamente.

    Sua voz rouca era como um eco moribundo. “Ah, é? Então o fantasma… está lendo meus pensamentos?”

    Virando-se de costas para o marido, ela olhou para o teto e, de repente, soltou uma risada. “Em que estou pensando agora?”

    A expressão do marido mudou. Ele hesitou por um instante, depois franziu a testa, confuso.

    “… Comida? Você só está pensando em comida?” 

    A risada estridente de Effie ficou ainda mais alta.

    “Ah, o que fazer? A comida! Só consigo pensar em comida! Que azar para aquele desgraçado, hein?”

    Seu riso se transformou em tosse e, em seguida, em soluços.

    “A comida… ah, estou com fome…”

    Em outro lugar, Quentin e Beth estavam de mãos dadas, sorrindo, enquanto olhavam para o céu. No céu, a Ilha de Marfim estava sendo sitiada pelo Jardim da Noite, a minutos de cair nas mãos dos servos do Domínio da Fome.

    “Olha, Beth! Os Santos da Noite estão indo para a batalha!”

    Beth sorriu alegremente.

    “Sim. Aquela luz prateada… que linda.”

    E em algum outro lugar, em Ravenheart… Seishan se viu obrigada a derramar o sangue de suas irmãs.

    Mas, em pouco tempo, ela voltou a concordar com elas.

    1. ling[]

    Regras dos Comentários:

    • ‣ Seja respeitoso e gentil com os outros leitores.
    • ‣ Evite spoilers do capítulo ou da história.
    • ‣ Comentários ofensivos serão removidos.
    AVALIE ESTE CONTEÚDO
    Avaliação: 100% (1 votos)

    Nota