Capítulo 2833 - Combustível para a Sua Escuridão
Ela se perdeu em uma memória diferente. Era uma lembrança como todas as outras, só que mais aterradora.
Não… não, havia algo errado com esta. Havia algo de perigoso nisso.
Algo que dizia a Cassie que ela nunca deveria ter testemunhado o que quer que a memória escondesse — nunca deveria ter vivenciado o que o dono original da memória havia vivenciado.
Mas já era tarde demais, porque ela já estava se lembrando.
Naquela lembrança, ela era uma criatura despedaçada. Escondido atrás de um véu, seu rosto irradiava uma beleza sublime. Contudo, sob o tecido vermelho do vestido, a parte inferior do seu corpo era um horror retorcido de carne desumana.
Entretanto, as coisas que se escondiam sob sua pele eram ainda mais terríveis.
Ela estava furiosa.
Uma palavra tão trivial quanto loucura não fazia justiça ao seu estado mental, mas era a única palavra que Cassie conseguia usar para descrever o horror absolutamente alienígena, demente e insano da estranheza abominável que havia tomado conta de sua mente. Era insondável, errado e assustadoramente repugnante em um nível profundamente fundamental, devido à extensão terrível de sua perturbadora inadequação.
Sua consciência estava em conflito com o mundo ao seu redor. Em cada ponto de contato entre seu eu e a realidade, seu próprio ser era consumido por uma agonia horrenda e terrível. A angústia que ela suportava incessantemente não era física, mas poderia muito bem ser. Sua existência inteira não era diferente de uma tortura.
Então, ela queria infligir essa tortura a todos os outros. Ela queria destruir a existência.
‘Eu não deveria… eu não deveria… estar vendo isso…’
O pensamento pertencia à própria Cassie, não ao ser horripilante cuja memória ela estava evocando.
Mas ela estava impotente para impedi-la.
Ela sentiu o aroma irresistível e sedutor das faíscas deixadas pela Chama. Queria destruí-las… mas também estava fascinada por elas, enfeitiçada. Hipnotizada. O aroma a preenchia com um ódio infinito e uma tristeza avassaladora, como se sentisse algo que outrora apreciou, mas que perdera para sempre.
Ela odiava isso… e ansiava por isso.
Mas, acima de tudo, ela queria consumi-lo. Absorvê-lo. Despedaçá-lo, destruí-lo e torná-lo parte de si mesma. Ela era a Tormenta, uma das Seis Pragas do Grande Rio.
Ela foi corrompida.
‘Não, não, não…’
Na lembrança, Tormenta estava de pé sobre a cabeça de um leviatã horrendo. As águas do Grande Rio se abriam diante de sua boca horrenda, espumando como sangue fresco à luz do pôr do sol. Atrás dela, uma horda de abominações Profanadas e temíveis rosnava nas costas do leviatã.
E ao redor, miríades de monstros marinhos nadavam rio acima com uma fome frenética nos olhos, cada um carregando seu próprio enxame de abominações. A vasta extensão do Grande Rio fervilhava, as águas correntes cortadas por sua passagem. A grande armada de Verge partira para devastar uma das últimas cidades humanas que ainda resistiam teimosamente na Tumba de Ariel. Ela iria semear ruína e destruição sobre eles… e também capturar o máximo de pessoas possível vivas, para compartilhar seu tormento com elas enquanto seus corpos frágeis — e mentes ainda mais frágeis — aguentassem.
Ela comandava a armada Profanada…
Ou pelo menos era o que parecia.
Na verdade, Tormenta não passava de uma marionete quebrada. Ela era uma marionete que dançava conforme a vontade do ser que puxava seus fios.
Aquele ser era ela mesma… seu eu do passado. Seu eu de antes de se tornar Tormenta. Aquela bruxa ardilosa havia mutilado a própria mente, queimando grande parte dela para criar uma complexa teia de condições e proibições. Ela havia apagado algumas de suas memórias, substituindo outras por falsas lembranças. Ela também havia se certificado de que Tormenta só pudesse existir dentro dos estreitos limites das ações que lhe eram permitidas, incapaz de se libertar… de agir e reagir como deveria.
Assim, mesmo quando sua mente foi consumida pela Corrupção, ela continuou a seguir o plano.
… Algum tempo depois, ela se movia por uma cidade em chamas. Seus longos tentáculos a impulsionavam para a frente com uma velocidade impressionante, tal como faziam na água — seus movimentos eram rápidos e imprevisíveis, e ela deslizava pela chuva de dardos que os mais poderosos defensores da cidade haviam lançado com uma graça sinistra, ilesa.
Os defensores eram poderosos. Eram valentes. Eram habilidosos e cheios de determinação…
Mas, na verdade, eles já haviam perdido. Porque a esperança deles se extinguiu no instante em que viram Tormenta, o espectro horripilante do Estuário.
Um instante depois, ela já estava entre eles.
Aquele cheiro… aquele cheiro enlouquecedor… Carne humana dilacerada, e sangue escorrendo pelas pedras da calçada. Havia gritos. Havia lamentos. Havia sussurros de preces desesperadas — tudo fundido em uma melodia eufórica que fazia sua alma corrompida cantar.
Ela podia sentir a Chama deles fluindo para dentro dela, alimentando sua escuridão. Era a única coisa na existência que não era agonia e, portanto, era a coisa mais doce do mundo.
Ela se movia entre eles como um furacão sangrento, agarrando poderosos campeões Ascendentes com seus tentáculos e despedaçando seus corpos. Os mais fortes, ela os agarrava e erguia até seu rosto, para que pudessem olhar em seus olhos.
Este último gritou mais alto. Mas logo os gritos cessaram. Ela fez uma pausa por um instante.
‘Ah… eu queria capturar alguns vivos…’
Cassie já não era capaz de pensar de forma coerente, mas essa era a interpretação mais próxima que conseguia encontrar para os movimentos estranhos de sua mente.
Ela olhou para a frente. Ali, escondida no templo da cidade moribunda, estava o seu prêmio.
A Sybil e suas sacerdotisas.
Deixando para trás uma cena de matança horrenda, ela avançou rapidamente. Contudo, ao chegar ao seu destino, ela percebeu que seu prêmio havia sido roubado. Nada se movia dentro do templo. O ar estava denso com o cheiro de sangue. Todos ali já estavam mortos, e seus corpos estavam horrivelmente desmembrados.
Os membros decepados foram dispostos em um mosaico macabro na sala de oração.
No centro do mosaico macabro, um homem com roupas esfarrapadas estava sentado no chão, com sangue escorrendo de sua coroa manchada.
Seus cabelos sujos pendiam como algas marinhas, obscurecendo a máscara de cicatrizes que lhe servia de rosto.
“Ah, a Tormenta…”
Ele olhou para ela e sorriu.
“Por que demorou tanto?”
Uma risada áspera e descontrolada escapou de seus lábios. Ou talvez tenha sido um soluço.
“Continue falando, me conte, me conte mais… seu pedaço de escória inútil…”
Havia uma espada de jade em uma poça de sangue à sua frente, e uma silhueta vaga atrás dele, como um fantasma. O Príncipe Louco estremeceu e, em seguida, arranhou o próprio rosto, deixando novas cicatrizes.
“Argh! Que tormento, que tormento… Quase consegui chegar até o fim desta vez. Mas aquele verme mentiroso não me deixou passar.”
Ele olhou para ela com um deleite doentio.
“A sombra. O meu eu futuro. Ele me expulsou, o desgraçado!”
Ele riu.
“Ah, mas a mera existência dele… é a prova de que eu vou conseguir, um dia. Eu vou dar um jeito.”
Ela permaneceu em silêncio, olhando para os cadáveres. Estava devastada pela perda da doce promessa de segurá-los, torturá-los, desfazê-los e tomar-lhes a Chama.
O Príncipe Louco olhou para ela com pena.
“Você está quase no fim, não é? Que tormento… minha pobre parceira. Estivemos juntos nisso por tanto tempo, você e eu. Mas agora parece que eu te consumi completamente.”
Levantando-se, ele a olhou com um sorriso sinistro.
“Você nunca sairá deste túmulo. Você foi enterrada aqui, para sempre. Bem feito para você, pelo que me fez… ah, mas não se preocupe.”
Ele riu.
“Assim que eu estiver lá fora, vou me lembrar de você com carinho.”
A memória se desfez.

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