Capítulo 2861 - Mais um que morde a poeira
Em poucos dias, Cassie percebeu que até mesmo suas piores expectativas estavam erradas.
A Colina Vermelha foi perdida. O Santuário de Noctis foi perdido. O Lago das Lágrimas foi perdido — não apenas conquistado, mas apagado do mapa, mudando para sempre a face da Deusa Chorosa.
E essas eram apenas as Cidadelas que haviam caído sob o domínio de Mordret. Na verdade, não havia como saber quantos Santos já haviam sido enfeitiçados por Asterion, tornando suas Cidadelas reféns do Domínio da Fome. O Domínio do Anseio estava ruindo. O que significava que, em algum lugar, Nephis estava enfraquecendo.
Cassie gostaria de ter se preocupado com Nephis, mas a verdade é que ela não tinha esse luxo. Ela não tinha tempo nem para se preocupar consigo mesma.
A decisão que Kai tomou durante a batalha pelo Lago das Lágrimas tornou a situação, já terrível, simplesmente insustentável. Suas intenções eram boas, mas as consequências de proporcionar um palco glorioso para Asterion foram desastrosas.
Mordret havia conquistado a Sepultura dos Deuses e transformado as Cavidades em seu território de caça pessoal. Agora, suas forças avançavam para o sul, tanto na bacia do Rio das Lágrimas quanto no coração do Reino dos Sonhos. A batalha pelas Montanhas Negras havia começado, e Cassie lutava para continuar enviando tropas frescas para lá.
Enquanto isso, no sul, a praga de Asterion entrava em seu estágio final. Ela consumia lentamente toda a humanidade, sem fazer distinção entre pessoas comuns e Despertos. Nas cidades onde ainda restavam aqueles leais ao Domínio do Anseio, intensos confrontos entre fiéis e apóstatas ameaçavam se transformar em guerra civil.
Existiam, porém, uma ou duas cidades que desfrutavam de perfeita harmonia e paz. Essas eram as cidades onde a peste já havia dizimado a todos, transformando todos os cidadãos em servos de Asterion.
E durante todo esse tempo, o mundo desperto continuava a se desfazer. Cassie sentiu-se sufocada.
Ao mesmo tempo, ela se sentia paranoica, incapaz de confiar até mesmo naquelas pessoas em quem havia depositado total confiança no passado.
Mas, acima de tudo, ela não tinha tempo para considerar o panorama geral. Sua mente estava completamente absorta na tarefa titânica de administrar a imensidão do Domínio Humano.
Conforme a noite caía sobre Bastion, abraçando primeiro a ilha celestial que flutuava nas nuvens acima dela, ela caminhou pelos corredores vazios da Torre de Marfim e bateu em uma porta. Ao entrar, encontrou Rain meditando.
Cassie não conseguia ver a jovem, mas podia sentir as torrentes de essência fluindo furiosamente através dela, sua correnteza descontrolada guiada pelas espirais da serpente gravadas em sua pele.
As nuvens do lado de fora da janela estavam inquietas, rodopiando em sintonia com o turbilhão da essência da alma de Rain.
Ao perceber sua presença, a jovem pareceu sorrir.
“Senhora Cassie?”
Cassie hesitou por um instante.
“Só estou vendo como você está. Precisa de alguma coisa?”
Rain balançou a cabeça negativamente.
“Não, obrigada. Ah… com certeza farei o café da manhã amanhã. Por favor, venha comer quando o sol nascer.”
Cassie assentiu com a cabeça.
Havia pouquíssimas pessoas na Ilha do Marfim naquele momento, e fazer a mulher cega cozinhar não era a melhor ideia. Como santa, Cassie não precisava de muita comida — mas Rain era diferente. Então, ela insistiu em cozinhar para as duas quando não havia mais ninguém disponível.
“Então, vou deixar você a sós.”
Sem querer perturbar Rain, Cassie retirou-se silenciosamente.
Enquanto ela conversava com Rain, as forças do Domínio Humano foram repelidas do pico mais ao norte das Montanhas Negras.
Ao mesmo tempo, um poderoso Portal do Pesadelo se abriu no meio de uma cidade populosa no Quadrante Ocidental. A Balança de Obel havia cumprido sua função e alertado sobre sua iminente descida com bastante antecedência, mas, com a quantidade de soldados envolvidos na batalha contra Mordret, era difícil enviar uma grande força para contê-lo.
Ao mesmo tempo, uma estranha paz se instalou nas ruas de uma Cidadela que se erguia às margens do Rio das Lágrimas, muito abaixo do Rio da Deusa Chorosa. Os cidadãos, que até um dia antes estavam em pé de guerra, agora seguiam suas vidas com sorrisos felizes. O Santo que governava a Cidadela ainda enviava mensagens mentais para Cassie, em tom urgente.
Ao menos, ele ainda parecia ser leal.
[Lady Cassie, já acomodamos os refugiados do Lago das Lágrimas, mas nossos estoques de comida não durarão muito com o aumento da população. Sei que navegar pelo Rio das Lágrimas é perigoso no momento, mas não poderia nos reabastecer enviando alguns navios rio acima do Mar da Tempestade? Enviarei meus melhores guerreiros para escoltá-los!]
Caminhando até seus aposentos, Cassie traçou o contorno da parede com os dedos.
[É possível, mas a situação está mudando rapidamente. Enviarei suprimentos assim que possível. Mantenham seus guerreiros dentro da cidade — não sabemos quando o próximo ataque poderá ocorrer.]
Ela compartilhava os sentidos do santo, de modo que podia sentir seu cansaço e ansiedade. Ele soltou um suspiro pesado.
[Eu entendo.]
O santo permaneceu em silêncio por alguns instantes e então perguntou em voz alta:
[Mas, Lady Cassie, posso lhe fazer uma pergunta?] Ele recostou-se e inspirou profundamente, relaxando o corpo.
[O que você acha que teria acontecido com o grande palácio de Creta se o Minotauro tivesse escapado de sua prisão?]
Cassie parou por um instante e depois continuou caminhando. O santo sorriu.
“Teria ele poupado Ariadne, sua irmã? Ou a teria despedaçado e devorado?”
Ele deu uma risadinha.
“Você tem olhos tão bonitos, Lady Cassie…”
Ela apagou sua marca, cortando a ligação entre eles.
‘Mais um…’
Sabendo que Asterion poderia explorar sua rede de conexões telepáticas, Cassie cerrou os dentes e apagou todas as marcas naquela cidade também. Uma mancha negra surgiu em seu mapa mental do Reino dos Sonhos. Já existiam algumas dessas manchas ali, principalmente no norte.
De longe, parecia que uma vasta escuridão estava se apoderando do mundo, devorando-o lentamente. Naquele momento, pela primeira vez desde que Asterion se revelara, Cassie não pôde deixar de se fazer uma pergunta assustadora.
O que ela faria se Nephis e Sunny não conseguissem atingir seu misterioso objetivo a tempo?
O que ela faria se eles falhassem?

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