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    Sunny não sabia o que esperar do Túmulo de Ariel — o verdadeiro Túmulo de Ariel, não o fantasma conjurado pelo Feitiço do Pesadelo — mas pelo menos sabia o que não esperar, o que lhe permitiu fazer algumas previsões.

    Antes de mais nada, a diferença entre o verdadeiro Grande Rio e o Grande Rio que ele encontrou no Terceiro Pesadelo foi o papel que Daeron, o Rei Serpente, desempenhou no destino do Povo do Rio.

    Daeron havia atravessado as areias brancas do Inferno de Ariel e entrado no Túmulo de Ariel na companhia de seus campeões mais fortes — aqueles como sua filha, Flor do Vento. Ao fazer isso, eles deixaram uma marca de si mesmos no Grande Rio, o que significava que uma versão deles existiria em todos os Pesadelos que ali ocorressem.

    Enquanto isso, seu povo — toda a população remanescente do Mar Poente — dirigiu-se ao gigantesco bloco de pedra negra que jazia entre as dunas, contendo uma Semente do Pesadelo, e o desafiou. Era a mesma Semente que Sunny e os membros de seu grupo haviam desafiado após a Batalha da Caveira Negra.

    Os sobreviventes do Mar Poente puderam fazer isso porque, ao contrário de seu Supremo, não precisaram chegar ao próprio Túmulo de Ariel. Portanto, não precisaram atravessar o Deserto do Pesadelo à noite, quando os Imortais emergiam de sob a areia para travar a batalha eterna.

    Essa deve ter sido uma peregrinação aterradora, sem dúvida, e que não poderia ter sido concluída sem que inúmeras pessoas realizassem inúmeras façanhas extraordinárias. Mas eles conseguiram, no fim, e uma legião de desafiantes adentrou o Pesadelo do Grande Rio, onde os fantasmas do Rei Daeron e seus Santos já os aguardavam.

    Foi assim que Arrebol foi fundada, tornando-se o núcleo da resistência contra a Corrupção… no Pesadelo, pelo menos. Não havia Arrebol no verdadeiro Túmulo de Ariel, porém. Não poderia haver. Daeron e seus Santos ainda estavam lá… ou melhor, tinham estado lá… mas não havia um vasto exército de Forasteiros para combater a Corrupção.

    Não havia nenhuma Nephis, e até onde Sunny sabia, ela era a única capaz de destruir a Primeira Procuradora — Aletheia dos Nove — sem sucumbir à Corrupção. Só existiam os Povos do Rio. As cidades governadas pelas Sybils, destinadas a sucumbir aos sussurros do próprio Estuário, e Weave — a cidade onde viviam os cultistas do Feitiço do Pesadelo.

    Portanto, mesmo que não houvesse Pragas no verdadeiro Túmulo de Ariel — nenhum Senhor do Terror, nenhuma Tormenta, nenhum Ladrão de Almas, nenhuma Massacre Imortal, nenhuma Besta Devoradora e nenhum Príncipe Louco — Sunny não considerava as chances da Civilização do Rio muito altas.

    Provavelmente já havia desaparecido, consumido pelas forças da Corrupção. Todo o Grande Rio seria agora uma massa fervilhante de Criaturas do Pesadelo.

    E como não havia nenhum Príncipe Louco ali, também não haveria nenhum pedaço de destroço para ele se agarrar. Nenhum campo de runas dementes esculpidas nele, e nenhum aviso para ter cuidado com o que desejava.

    De qualquer forma, para Sunny já era tarde demais para dar ouvidos àquele aviso.

    ‘Certo. E então…’

    E então havia a diferença mais importante, aquela da qual Sunny tinha mais receio.

    O Repugnante Pássaro Ladrão. Seu fantasma havia feito um ninho no estuário do ilusório Grande Rio, mas agora, esse fantasma estava no mundo real, tendo escapado do Pesadelo. Não havia como saber o que a criatura repugnante havia feito, como havia alterado o Grande Rio e o que estava fazendo naquele momento.

    A única certeza que Sunny tinha era de que o Pássaro Ladrão ainda estava no Túmulo de Ariel. Havia uma razão muito simples para ele acreditar nisso: se um Terror Amaldiçoado, odiado até pelos deuses, escapasse para o Reino dos Sonhos, a humanidade sentiria as consequências de sua liberdade muito em breve. O que o odioso Pássaro Ladrão teria roubado primeiro?

    Teria levado todos os belos olhos existentes como prêmio? Ou simplesmente fugido depois de arrancar todo o Lago Espelhado do tecido do mundo? Teria roubado os radiantes Fios do Destino com os quais o Feitiço do Pesadelo foi tecido, talvez?

    Aquilo parecia bastante fantasioso, mas Sunny não duvidaria da capacidade daquele maldito pássaro. Afinal, ele já havia roubado seu destino, então quem poderia garantir que não seria capaz de desfazer o Feitiço do Pesadelo, só por diversão?

    Na verdade, visto que o Pássaro Ladrão parecia obcecado por tudo relacionado a Weaver, e o Feitiço do Pesadelo nascera da alma de Weaver, ele estaria sob a maior ameaça caso aquela coisa repugnante escapasse para o mundo.

    ‘Hum. Não tinha pensado nisso.’

    Sunny suspirou e finalmente reconheceu dois fatos dos quais tinha consciência desde o momento em que mergulhou no Grande Rio, mas sobre os quais relutava em pensar até agora.

    A primeira era bastante óbvia… a escuridão confortável que ele desfrutava não deveria existir dentro do Túmulo de Ariel. No Pesadelo, o Grande Rio fora iluminado pela luz de sete sóis, cada um forjado por Ariel a partir dos núcleos de alma — ou pelo menos fragmentos de alma — deixados para trás pelo Titã de Pedra, o horror profano que ele havia matado.

    Esses sóis não estavam à vista agora. Claro, eles poderiam ter se movido para debaixo do Grande Rio, mergulhando esse trecho em uma noite profunda e sem luz. Mas, nesse caso, a própria água estaria emanando um belo brilho, iluminada por baixo.

    Não havia brilho. As águas do Grande Rio estavam sem luz, e o mundo estava envolto em escuridão absoluta.

    ‘Talvez aquele maldito pássaro tenha mesmo roubado os sóis.’

    Afinal, eram os objetos mais brilhantes da Tumba de Ariel. Estava um frio cortante — tão frio, aliás, que Sunny não conseguia explicar por que as águas escuras e paradas ao seu redor ainda não haviam congelado.

    E essa foi a segunda coisa que ele teve que reconhecer… a segunda maneira pela qual o mundo estava errado. As águas que fluíam incessantemente do Grande Rio pararam de fluir.

    A água estava parada, completamente imóvel, estendendo-se em todas as direções como uma planície infinita. Se havia alguma corrente, era tão fraca que Sunny não conseguia senti-la. Ele poderia explicar a ausência dos sóis, de alguma forma, mas isso…

    Isso ele nem sequer conseguia conceber, quanto mais explicar.

    O Grande Rio não deveria ficar parado. Isso era totalmente contrário à sua natureza — contrário ao projeto de Ariel. Nenhuma força deveria ser capaz de fazer suas águas pararem de fluir, e ninguém deveria ser capaz de quebrar as leis fundamentais que governavam este reino singular e estranho.

    Flutuando na água gelada, cercado pela escuridão total, Sunny soltou um suspiro pesado.

    “Não consigo acreditar.”

    Ele havia passado tanto tempo pensando sobre — quanto tempo já havia se passado? Seis, sete anos? Ele havia passado todos esses anos imaginando o dia em que retornaria ao Túmulo de Ariel. Ele havia imaginado todo tipo de cenário possível, mas ainda assim não conseguiu prever o que realmente aconteceria.

    A realidade era completamente diferente até mesmo de suas teorias mais mirabolantes.

    O que significava que ele não tinha ideia do que esperar ali, dentro da Tumba de Ariel. Qualquer coisa que encontrasse seria uma surpresa completa e absoluta — e muito provavelmente aterradora.

    A única opção que lhe restava era aventurar-se no desconhecido e esperar pelo melhor.

    Um pouco mais descansado, Sunny respirou fundo e finalmente se obrigou a se mexer.

    “Primeiro as coisas mais importantes. Vamos encontrar Nephis…”

    A julgar pelo Terceiro Pesadelo, ela devia estar perto.

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