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    Na frente deles, o chão estava despedaçado, criando uma fenda titânica. O cânion era tão profundo e vasto que Sunny teve que forçar os olhos para ver o outro lado. Corais carmesins agarravam-se às suas paredes, derramando-se pela borda como uma torrente de sangue.

    Há muito tempo, uma graciosa ponte de pedra branca conectava os dois lados do cânion. Agora, no entanto, ela estava quebrada, restando apenas sua base no lugar.

    Olhando para a ponte, Sunny percebeu que devia haver uma estrada antiga em algum lugar sob seus pés. Ela levava diretamente aos portões principais da cidade antiga, movendo-se através do colossal cânion por meio da ponte milagrosa e passando por baixo do grandioso arco de mármore branco.

    Pensando bem, o cavaleiro sem cabeça, o Túmulo de Cinzas e a graciosa mulher cujas mãos o salvaram duas vezes também estavam situados em uma linha reta. Talvez houvesse outra estrada levando para o leste também.

    No entanto, esse pensamento desapareceu de sua cabeça tão rápido quanto apareceu. Toda sua atenção foi atraída para os restos da ponte de pedra, onde…

    Havia outra estátua gigante.

    Logo acima das ruínas desgastadas pelo tempo estava um colossal guerreiro de pedra. Ele estava vestido com uma couraça arcaica, com uma bela lança apoiada em seu ombro. O guerreiro estava virado para o sul, como se estivesse cumprimentando os viajantes que viajavam na estrada para chegar à cidade antiga.

    …Claro, sua cabeça estava faltando.

    Mais do que isso, a estátua inteira estava coberta por vastas camadas de teia de aranha cinza opaca, como se vestida com uma mortalha solene. Sunny estremeceu, com medo de imaginar que tipo de criatura era capaz de criar os grossos cabos de metal da teia que envolvia o colosso de pedra.

    Percebendo sua expressão, Effie sorriu.

    “Assustador, hein?”

    Sunny assentiu, torcendo contra todas as esperanças para que eles não tivessem que descobrir a resposta para sua pergunta.

    Pela primeira vez, suas esperanças não foram destruídas.

    A caçadora vivaz suspirou.

    “Eu não vi pessoalmente, mas ouvi histórias sobre a criatura que costumava fazer seu ninho aqui. Era a mãe de todas essas aranhas malditas com as quais temos lidado na semana passada. Uma grande ameaça como uma Criatura do Pesadelo, tão grande quanto uma casa e completamente mortal. Blindada como um tanque flutuante, também.”

    Sunny engoliu em seco e lançou um olhar de soslaio para Nephis.

    “O que é um tanque flutuante?”

    Effie piscou algumas vezes e então respondeu em tom divertido:

    “Ah, certo! Você abandonou a escola, quase esqueci. Você já viu um PTV antes, certo? PTV significa ‘veículo de transporte pessoal’, como você sabe. Espero. Bem, um tanque é mais ou menos assim, só que muito maior e mais pesado, com blindagem grossa e um canhão cinético ou de energia instalado nele. O governo às vezes os emprega para dar suporte aos Despertos quando um Portal abre perto de áreas povoadas.”

    Sunny tentou imaginar um veículo assim e vagamente se lembrou de ter visto algo assim no noticiário quando era criança. Na maioria das vezes, esses tanques que Effie descreveu eram mostrados abertos como latas de conserva, com suas tripulações retalhadas e comidas por monstros atacantes.

    Ele estremeceu. Pessoas mundanas não tinham nada a ver com lutar contra Criaturas do Pesadelo.

    Para ser completamente honesto, nem os Despertos tinham o que enfrentar. É que eles não tinham outra escolha.

    “…Não vamos tentar matar aquela aranha grande, vamos?”

    Effie riu.

    “Na verdade, é seu dia de sorte. Não conheceremos a Mãe das Aranhas. Na verdade, ninguém jamais conhecerá. Ela morreu há muito tempo.”

    Sunny suspirou de alívio e olhou para a caçadora:

    “Sim, ótimo. Mas como você sabe?”

    Ela deu de ombros.

    “Ela foi morta pelo segundo governante do Castelo Brilhante — antes que ele fosse e se matasse tentando conquistar a Torre Carmesim. A caçadora que me mostrou as cordas quando cheguei na Costa Esquecida tinha sido, na verdade, uma dos membros de sua coorte uma vez, se você pode acreditar. Na verdade, foi ela quem deu o golpe final naquela abominação.”

    Effie olhou para a massa gigante de teias de aranha e balançou a cabeça.

    “Deve ter sido uma baita batalha, hein? De qualquer forma, estou feliz que ela tenha feito isso. Foi assim que ela recebeu o Fragmento do Zênite, que eu então herdei.”

    Sunny franziu a testa.

    “Do que exatamente você está falando?”

    A caçadora se apoiou em sua linda lança de bronze e deu um tapinha em sua haste.

    “Minha lança. É uma Memória Desperta nível cinco, então a aranha grande e má era uma Tirana Desperta, eu acho. Você consegue imaginar? Todas essas aranhas assustadoras servindo a uma comandante senciente. Graças a Deus ela está morta.”

    Sunny olhou para ela com uma expressão duvidosa.

    “Por que sua mentora daria tal tesouro?”

    Effie ficou em silêncio por alguns momentos, depois sorriu.

    “Ah, nós éramos meio próximas. Além disso, ela não tinha ideia de como usar uma lança. Feiticeira, né? De qualquer forma, ela me deu o Fragmento do Zênite.”

    Apesar do tom despreocupado dela, ele podia dizer que aquele sorriso era falso. Effie não deixou transparecer, mas Sunny podia dizer que a morte dessa caçadora cujo nome ele nem sabia que tinha conhecido a afetou mais do que ela estava dizendo.

    Quem sabe. Já que o grupo original de Effie pereceu nas catacumbas, seus corpos ainda podem estar em algum lugar lá, naqueles túneis amaldiçoados.

    Contudo, havia algo mais em sua mente.

    Sunny franziu a testa. Fragmento da Meia-Noite, Fragmento do Zênite. Havia uma conexão? Ele não sabia.

    Poderia haver. Ele recebeu o Fragmento da Meia-Noite de Nephis, que o obteve após matar o Demônio de Carapaça.

    O Demônio, mesmo tendo sido controlado pelo Devorador de Almas, apareceu como o líder das Criaturas do Pesadelo naquela região do Labirinto… assim como a Mãe das Aranhas de Ferro havia sido.

    Duas estátuas sem cabeça, duas abominações poderosas, duas Memórias com nomes semelhantes. Não era um pouco demais para ser coincidência?

    Olhando para Effie, ele perguntou:

    “Por acaso sua lança foi forjada a partir de um fragmento de uma estrela cadente?”

    Assim que ele disse isso, Cassie virou a cabeça ligeiramente, ouvindo a conversa deles. Esse pequeno detalhe disse a Sunny tudo o que ele queria saber.

    A caçadora levantou as sobrancelhas.

    “Foi, pelo menos de acordo com a descrição. Quem te contou?”

    Um canto dos lábios de Sunny se curvou levemente para cima.

    “Ninguém. Eu apenas chutei.”

    Com isso, ele deixou Effie sozinha e seguiu em frente.

    Parecia que ele estava certo. Havia algum significado oculto por trás dos nomes dessas duas Memórias. Cassie parecia saber algo sobre isso, e isso significava que Nephis também sabia.

    E ainda assim, elas escolheram esconder isso de Sunny e do resto do grupo.

    Ele suspirou.

    ‘Então esta expedição não é tão simples quanto parece.’

    Não que isso tenha parecido particularmente simples, para começar.

    Ele havia imaginado há muito tempo que a Estrela da Mudança tinha algum motivo oculto para querer deixar a Cidade das Trevas, mas agora suas suspeitas estavam praticamente confirmadas.

    O sorriso desapareceu do rosto de Sunny.

    Ele não gostava nem um pouco de ficar sem saber.

    ‘Ninguém me contou, hein. Oh, a ironia…’

    Naquele momento, sua sombra alcançou a base da estátua gigante. Com uma carranca profunda, Sunny convocou o Fragmento da Meia-Noite e olhou para Nephis, deixando todos os pensamentos desnecessários de lado.

    “Há um ninho à frente. Teremos que destruí-lo para acessar a estátua. Muitas aranhas… algumas maiores também.”

    Ela assentiu e se virou para os outros.

    “Precisamos limpar o ninho e escalar a estátua antes que o sol se ponha. Preparem-se para a batalha…”

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