Índice de Capítulo

    O açougueiro engatinhou para a mesa mais próxima e pegou uma corrente atrelada a um gancho, com um braço decepado nele. Suas mãos emitiram uma faísca verde, quando balançou a arma contra Suzaki. 

    O pedaço de carne na ponta do objeto escapulia, durante o caminho traçado pela ponta do ganchos antes de morder a coxa esquerda de Suzaki. Esperando por isso, ele agarra os elos e passa sua espada entre eles, rompendo a ligação entre a arma e o inimigo. Os dois disputavam a corrente como um cabo de guerra.

    “Ele conhece iro, mesmo que superficialmente”, pensou, tentando puxar o objeto para si, “Metais comuns não conduzem iro, mas posso usar a eletricidade que gero com ele”.

    Num piscar de olhos, seu iro saltou na forma de uma corrente elétrica pelo metal, se espalhando por ele, atingindo o açougueiro na outra ponta. O homem se debatia, gritando de dor, até ser chutado contra um armário ao fundo, repleto de vidros vedados com olhos, narizes e outros órgãos conservados dentro. 

    Quando atingiu o móvel, todo aquele resto estava espalhado no chão. Uma poça de troféus circundando seu ganhador.

    — Não, não não — o açougueiro balbuciava — Minha coleção… ficou maluco? — sem forças, se arrastou para o braço que se descolou do gancho.

    Quando pegou o membro decepado e o virou contra contra Suzaki, o impacto o cambaleou para o lado. O açougueiro tentou outra vez, mas foi contra atacado com um chute no joelho e outro no rosto. Ele caiu para trás, contra os armários na parede. Suzaki o prensou contra a parede do seu armário e trocou socos com o carrasco. 

    — Eu te subestimei garoto — balbuciou o açougueiro, jogando socos no ar — mas não posso deixar você me impedir.

    Quando em uma esquiva o príncipe deu o soco que derrubaria o açougueiro no chão. O desespero de Suzaki crescia, ao tempo que desferia golpes na face do assassino já rendido. Depois de castigar os próprios punhos trêmulos, viu o maníaco passar sua língua em seu próprio sangue, provando de seu sabor. 

    — Ei, espertinho — Munny chamava por ele — acabou. Tá me ouvindo? Pode parar!

    Após o sorriso do açougueiro, zombando da agressão do príncipe, ele permaneceu batendo, de novo e de novo, até pegar sua arma para desferir o golpe final.

    Amarrado, o caçador não podia impedir o que escutava vindo de trás dele. Ele se balançava na cadeira até cair, mas continuava amarrado. Com toda sua força, Munny se empurrou até o cutelo jogado no chão, na esperança de colocá-lo em seus dedos e cortar o laço que o prendia a cadeira. No momento exato no qual a arma de Suzaki desceria sob o peito do açougueiro, Mitensai e Kin cruzavam a porta. Ao passo que a menina corria para ajudar Munny.

    — Chega — gritavao Mitensai pegando na empunhadura junto dele — O que está fazendo? A gente tem que sair.

    — Me solta — relutou o príncipe.

    — Do que está falando? — os dois começavam a disputar a posse da arma.

    — Olha em volta Mitensai, esse açougueiro fez tudo isso! — forçou a lâmina para baixo, porém o órfão insistia. 

    — Suzaki, sem mortes, lembra? — com as palavras o jovem parou de forçar para baixo, Mitensai deixou de segurar na arma e pegou nos braços do amigo — Esse não é você.

    O príncipe reparava nas suas mãos ensanguentadas, com os punhos feridos, caiu de joelhos. Deixando sua arma de lado, ele colocou as mãos na sua cabeça, começando a chorar.

    — Eu… — Suzaki tentava falar entre os soluços — sinto muito

    — Está tudo bem — dizia ele ao amigo, erguendo-o do chão — Tem reforços vindo, não temos muito tempo.

    Em meio ao cenário ensaguentado, todos sentiam o ambiente diante as lágrimas do príncipe. Após tomar um martelo e um frasco da mesa, Kin quebrava as correntes e entregava o vidro ao caçador:

    — Se eu li direito da mesa dele, isso aqui é para dor — deu de ombros — deve ser algum anestésico.

    Após a entrega Munny somente grunhiu e bebeu o que tinha dentro, antes de levantar-se sozinho. Suzaki ainda permanecia aos prantos, consolado por Mitensai enquanto Kin se aproximava dos dois. O caçador observava tudo sem expressar nada.

    — Por quê? Por que… tem que ser assim? — questionou o príncipe.

    — Não faço a menor ideia — respondeu Mitensai, olhando ao redor da cabana e vendo o banho de sangue — tem coisas que simplesmente não devíamos ver ou entender. O senhor Hideki devia estar falando disso quando avisava para mantermos distância. 

    — Ele costuma ser bem chato com isso — Kin reparava ao redor — mas agora eu percebo o por que Hideki é tão protetor.

    Os garotos conversavam, ao tempo que o caçador se movia, seguindo para os fundos da cabana onde um rastro de sangue terminava. Munny empurrou a parede destacada para o lado, revelando uma rampa escura e estreita para o subterrâneo.

    — Munny, o que está fazendo? — perguntou Suzaki, percebendo o barulho da abertura.

    — Adeus, espertinho — disse, mergulhando na rampa.

    — Ei, espera! — chamou por ele, se levantando.

    Investigando a passagem secreta, Suzaki encarava a rampa escura ao tempo que comentavam sobre a fuga do caçador de seus salvadores: 

    — Então esse deve ser a passagem de que o Noriaki falou, mais uma vez Munny, o caçador escapou — disse Kin, levando as mãos a cintura — está feliz agora? — questionou voltando os olhos ao príncipe.

    — Não. Eu pensei que… pensei que pudesse ajudar ele. Além de só ajudar a fugir, a conseguir uma segunda chance, mas… 

    — Você disse que ele só quer viver em paz, certo? — interrompeu o órfão — acho que fizemos o suficiente — colocou a mão no ombro de seu amigo.

    — Que seja, vamos logo! Senão vai ser a gente que vai acabar preso! — disse Kin se encaminhando para porta. 

    Quando saíram da casa, já podiam ouvir a cavalaria Midori se aproximando. Mitensai apontou a direção a Suzaki do novo lugar onde Kin estava escondida e os dois fizeram sua fuga a tempo da chegada dos reforços.

    TRANSIÇÃO DIRETA COM A CHEGADA DOS REFORÇOS.

    Na floresta mais escura do continente, guardas se aproximavam da cabana que iluminava os arredores de vermelho. O grupo se dispersou pelo terreno, embora uma pequena porção tenha entrado na morada. O mais jovem, assim que viu o interior do lugar foi diretamente ao corpo ensanguentado do açougueiro, ainda vivo, mas inconsciente. 

    — Pensei que estivesse aqui, garantindo a segurança da execução — aproximou-se o pai do jovem que não tirava os olhos do assassino.

    — Tive uma mudança de rota — respondeu Dai se recompondo. 

    — Senhor Hideki — um guarda entrava na cabana, tampando o nariz pelo odor — Não achamos nenhum responsável ao redor.

    — Chegamos atrasados, mas duvido que muito. Algum sucesso dos grupos de busca?

    Dois homens saíram de um arbusto próximo, cada um carregando um desacordado nos ombros.

    — Senhor! Achamos alguns — acenou para os dois dentro da casa — Os fugitivos não devem estar longe, vamos persegui-los.

    Hideki e seu filho saíam da casa, vendo seus homens reunirem os guardas derrotados pelos invasores, um a um.

    — Então esses homens foram apenas desacordados? — disse Hideki cruzando os braços.

    — Sim, senhor, a maioria está dizendo que foi um ataque combinado. Mais de uma pessoa. Mencionaram algo sobre um feixe de luz azul…

    — Era tudo que precisava saber — interrompeu o filho de Hideki, descendo as escadas da varanda.

    — Independente disso, nossa prioridade é encontrar os nossos, depois recuperar os condenados e, claro, — apontou para o açougueiro ainda inconsciente sentado em uma cadeira — botar esse cara pra funcionar.

    Durante sua caminhada ao redor da casa, Dai avistou pegadas diferentes das que surgiram do gramado. Não pareciam de condenados em fuga, visto que as marcas pareciam vir de calçados. O rastro começou pouco depois das escadas da varanda e conduziam a uma parte da cerca que estava partida. Uma entrada pequena, que levava a uma descida abrupta e incerta. 

    “Eu vou atrás de você, Suzaki!”, pensou descendo, seguindo as pistas sozinho.

    Os três causadores do caos no açougue corriam a fundo diante da Floresta Negra, onde a escuridão só era controlada pela tocha carregada por Mitensai, que assumia a dianteira. Após alguns minutos de corrida, um deles olhou para trás e perdeu de vista, sua companheira

    — Kin, você tá bem? — se aproximou Mitensai, erguendo a tocha.

    — Sim — chegava perto da luz, limpando suor da testa, — só… exausta.

    — Já estamos próximo do local seguro. É melhor irmos juntos, mesmo devagar — olhou para Suzaki — certo?

    — Criamos uma distração, isso deve ter dado o tempo de que vamos precisar — respondeu, colocando a mão sobre o ferimento no ombro.

    O príncipe usava sua arma como um facão abrindo caminho, guiado pelo fogo ardendo nas mãos de seu amigo. Pela escuridão, só lhe restavam afiar seus sentidos a cada passo que dava. Foi então que o grupo ouviu uma aproximação, vinda de trás.

    — É o que eu tô pensando que é? — sussurrou Mitensai.

    Suzaki só podia concordar com a cabeça, denunciando seu medo acerca da identidade do perseguidor. De imediato, Kin virava na direção do barulho.

    — Sigam em frente! — disse Kin, saindo de perto da luz.

    — O que está pensando Kin? — perguntou Mitensai, colocando a mão em seu ombro.

    — Eu lido com eles — afastou o amigo —  Vocês ainda conseguem correr!

    — É melhor sair viva — disse Suzaki.

    — Sai dessa, bonitão. Se tudo der errado, eu falo que você me subornou… — disse, com uma piscadela — você sabe que eu sempre dou um jeitinho. 

    Enquanto os dois permaneciam em fuga, a garota seguia a passos largos na direção do perigo, quando uma segunda luz apareceu para ela. Puxando o facão da sua cintura, Kin andava vagarosamente até o alvo. Assim que pôde ver sua face, ela saiu do esconderijo, mostrando seus dentes em um sorriso irônico. 

    — Então é você — abaixava sua lâmina antes erguida. Aquele que a seguia carregava uma espada em uma mão e uma tocha em outra.

    Correndo para longe dali, o garoto de olhos verdes reparava no amigo olhando para trás em meio ao caminho, quando Suzaki escutou a familiar correnteza da cachoeira. Mesmo sem muito enxergar, bastou botas os pés na beira daquele precipício, para Mitensai se lançar ao chão aliviado. 

    — Finalmente chegamos — respirava fundo fechando seus olhos — aqui podemos descansar pelo menos até o sol sair.

    Com o silêncio, percebia que suas palavras pareciam não chegar aos ouvidos de sua companhia. Inclinando a cabeça para o lado, viu o príncipe ajoelhado com uma expressão triste, olhando para seus punhos machucados e suas vestes ainda cheias de sangue. 

    — Tudo isso, para ele fugir até mesmo de mim — tentou fechar as mãos, apenas causando uma tremedeira. 

    — Talvez ele só não soubesse como agradecer — apoiava as mãos no chão levantando seu torso.

    — Pensei ser o certo dar uma segunda chance a ele, mas parece que nem ele queria isso, por que? — se levantou.

    —  Se ele quisesse morrer não teria fugido da execução — disse percebendo seu amigo se aproximar do rio — De algum jeito, estava certo sobre ele.

    — Mas agora se ele for pego novamente não terá outro destino para ele — agachou próximo a cachoeira e mergulhou seus punhos na água.

    — Nesse caso — disse Mitensai — tenho que te mostrar uma co… 

    De repente uma nova aproximação o interrompeu. Suzaki corria tomando posse de sua arma e tomando a frente de Mitensai, enquanto os dois perceberam uma luz chegando perto. O silêncio permaneceu por alguns segundos até que uma voz surgiu de dentro da mata.

    — Ai, até que enfim eu vou sair dessa matança — saia dos arbustos levando as mãos aos joelhos.

    — Kin?! — se espantou Mitensai — então você… escapou deles? 

    Suzaki guardava sua arma.

    — Eu nem precisei — apontou para trás de si.

    Das suas costas, surgia o perseguidor que desencadeou uma surpresa em Mitensai: 

    — Dai?!

    — Temos muito o que conversar — disse, com a espada em mãos. 

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