Índice de Capítulo

    Aguardando ao lado dos Senshi Principais, a inquietude de Yanaho crescia a cada entrada e saída de funcionários.

    “Se eu ficar quieto, ninguém vai saber disso, ninguém vai me julgar, mestre Onochi entenderia… mas eu sei que eu posso…”, o conflito fez o jovem respirar fundo, meditando. “O que você faria, Suzaki?”  

    Fechando seus olhos e se concentrando, inspirava e expirava o ar lentamente, sua mente o levava há anos atrás, quando fazia o mesmo exercício, dessa vez unindo a palma de suas mãos. Seu corpo passou a emitir um brilho vermelho no centro e branco nas pontas, enquanto seu mestre o observava.

    Quando abriu os olhos, pôs se de pé e saltou do galho onde estava sentado em direção ao tronco de outra árvore. Quando apoiou os pés, tomou impulso mas suas solas escorregaram e ele se espatifou no gramado.

    — Droga, essa foi pior que as outras — levantou-se com a ajuda de Onochi que lhe estendeu a mão.

    — Quero que me conte o que está te preocupando — perguntou com a mão no ombro do garoto.

    — Nada, não. Só estou meio disperso. 

    — Por mais mínimo que seja o receio, o fluxo da sua energia é perturbado. Se quer melhorar, vai ter que começar a confiar mais em mim. Sua mente precisa estar no lugar certo para essa técnica.

    — Quer saber, não vou brigar por isso. Eu falo — coçava a cabeça — É que Tomio e Arata deram explicações diferentes para as cores do que você.

    — Faz parte, você aprende coisas diferentes aqui do que lá. Tem que aprender a separar as coisas.

    — Eu sei, mas não me falou que as energias primordiais são rivais, especialmente os Aka e Ao. Desde então fico pensando se aquela guerra voltar…

    — Precisa deixar o futuro com seus próprios problemas. As coisas podem ser diferentes, Suzaki é a maior prova disso. Se ele é o futuro do lar dele, não temos com o que se preocupar. 

    — Tomara — sorriu por um momento — eles também falaram sobre as cores divinas. Era algo sobre os Shiro serem cruciais para conter a ameaça Kuro

    — Ameaça né? — levava o polegar ao queixo — Eles estão isolados faz um bom tempo. As pessoas têm o direito de se ressentirem com os Kuro pelo o que houve no passado, mas ainda assim são só pessoas com uma energia iro, assim como nós. Para mim, o que são é apenas uma incógnita. 

    — O que houve exatamente no passado? — perguntou Yanaho. 

    — Esvazie sua mente, e vamos retornar ao treinamento — disse Onochi com uma expressão irônica. 

    — Tudo bem — se sentou cruzando os pés — mas se as técnicas divinas são tão fortes, elas se sobrepõem às primordiais. Uma delas é o olhar dos Kuros, dizem que pode cegar qualquer um.

    — Você também pode ser imune a elas, sabia? — provocou Onochi. 

    — Sério? Mas não é só os Shiro que conseguem? — juntou as mãos.— como eu poderia?

    — Já disse que precisa separar as coisas — se aproximou do aluno sentado — Primeiro, o de sempre: feche os olhos, respire fundo, canalize e sinta a energia se movendo ao seu exterior. Sinta a Ordem conectando a natureza à sua essência. 

    A respiração de Yanaho fluía pelo seu corpo novamente, mas agora sua consciência estava no presente. Quando abriu os olhos, levantou-se da cadeira onde estava meditando.

    — Quer ir ao banheiro, garoto? — perguntou o espadachim, Musashi.

    — E-eu preciso falar com o Supremo — respondeu, virando para Honda — Eu me lembrei de uma coisa.

    Após dar duas batidas na porta do Supremo, o mirim entrou vagarosamente. Assim que reconheceu o convidado, o olhar de Ryoma congelou Yanaho no lugar. O filho de Yoroho pôs os dois pés na sala e ficou de postura ereta.

    — Senhor Supremo, eu me lembrei de algo importante — se curvou — Acho que posso ser útil nessa batalha!

    — Pensei ter pedido informações sobre Onochi — molhava a pena para continuar escrevendo na papelada em sua mesa — Não sugestões.

    — Onochi uma vez me ensinou a respeito das energias divinas Shiro e Kuro, elas são complementares uma a outra em nível de poder. É por isso que precisam do mestre Onochi não é? 

    — Seu entusiasmo é bem-vindo, rapaz, mas eu já sei dessas coisas — continuava de cabeça baixa, assinando os documentos.

    — E se eu te disser que tem outra pessoa além de Onochi e seu irmão que controlam a energia Shiro a ponto de serem imunes às técnicas Kuro?

    A resposta fez o Supremo parar de escrever por um momento. 

    — Onde quer chegar? — olhou Yanaho nos olhos.

    — Os poderes das energias divinas se sobrepõem aos das primordiais, sempre aprendemos assim, mas Onochi me contou uma exceção. A energia Shiro está presente em qualquer um, e desde que ela seja controlada, a pessoa pode ser imune até mesmo ao poder ocular — inspirou fundo — Eu sou essa pessoa.

    — Como pode me garantir isso? — pegou uma garrafa de vinho que estava na mesa e a abriu.

    — Foi você mesmo quem deixou Onochi me treinar. Estamos fazendo isso há anos e ele me ensinou isso.

     — Mas Onochi e Imichi nunca me informaram nada dessa capacidade de tornar alguém de cor primordial imune. Se fosse o caso, saiba que eles prestarão contas por não garantir a segurança de nosso território. 

    — Eu também não sei o motivo dessa omissão, senhor. Ele não me pediu para guardar segredo. Mas os Kuro não vão ficar parados e esperar nós julgarmos meu mestre. Vocês precisam agir e eu estou à disposição! Eu sou uma boa alternativa.

    Ryoma encheu uma taça em sua mesa até a boca com vinho e chamou Yanaho para perto. 

    — Ir para Kiiro e salvar um povo que nem conhece? Mesmo que faça isso, não vai limpar a culpa do seu mestre.

    — Não estou fazendo isso por Onochi! Desde que entrei para o internato, tudo parecia grande e eu tão pequeno. Mas mesmo assim, se eu tenho ciência da minha utilidade na situação, por que deveria ficar parado? 

    — Beba — colocou a taça de vinho mais perto do jovem. 

    — Não bebo, não em serviço, senhor. — revirou os olhos. 

    — É uma ordem.

    Levando a taça aos lábios, Yanaho segurou o líquido na boca, contraindo o rosto pelo sabor amargo antes de engolir, queimando sua garganta no processo.

    — Eu sei o que você fez pela princesa dois anos atrás. Vejo que não mudou muito durante esse tempo. Mas agora saia da sala e espere, torcendo para que Onochi ou Imichi sejam encontrados. Ou então, terá que representar os dois em Oásis. 

    — Muito obrigado, Supremo — se curvou novamente. 

    Depois que Yanaho o deixou sozinho, Ryoma tomou a taça por onde o mirim havia bebido e a encheu novamente. Antes de beber, encarou o teto, pensando:

    “Por que você não me contou isso, mestre?”

    Em meio às estradas de rocha, com árvores revestidas em folhas secas e vermelhas do outono. Uma enorme carruagem seguia para a mansão onde o Supremo cumpria com suas obrigações. 

    De repente uma mulher de cabelos negros, lisos e longos descia de supetão do veículo. Os guardas do enorme edifício curvaram suas cabeças logo que viram a chegada, permitindo assim a entrada da mulher que batia na porta da última sala para saída da mansão.  

    Com soar do som das batidas na sala de espera, Oda, o líder dos principais correu abrindo a porta, já imaginando quem poderia ser: 

    — Tomoe se você está sozinha aqui… 

    — Não encontrei os Shiro — respondeu, empurrando de leve a porta, deixando apenas uma brecha — Mas, o Rei requer a presença do Supremo para tomar uma decisão. 

    — Supremo? — ria voltando os olhos para dentro — Vamos pessoal, espero que estejam todos preparados — empurrava a porta que era pressionada pela Senshi — Você também, Tomoe. 

    — Eu não sei se isso é uma boa ideia, líder — disse ela, enquanto o seguia. 

    Quando a equipe saiu, se deparou com a chegada de uma caravana repleta de guardas ao seu redor. Da carruagem mais adiantada, a porta se abriu, e um Senshi estendeu um um tapete vermelho até a entrada da mansão. 

    A seguir, um homem de estatura média, cabelos ruivos, alaranjados por alguns fios loiros e barba feita. Ele calçava sandálias de couro rentes aos pés e vestia uma armadura de bronze por baixo da capa vermelha que se prolongava do pescoço aos pés.

    Enquanto o Rei caminhava, ninguém dizia uma palavra. Oda, que estava em seu caminho, parado na entrada, se curvou levando a mão direita ao lado esquerdo do peito dizendo em gesto de continência:

    — Aka! 

    — Avise ao Supremo, que estarei esperando aqui.

    — Sim, senhor! — respondeu Oda.

    A porta da mansão se escancaram com a força de Oda, que dispersava seus homens e se encaminhava ao Supremo bufando. Yanaho testemunhava tudo sem entender bem. 

    — Acharam Onochi? — perguntou, o mirim. 

    O líder dos principais sequer olhou para o jovem sentado. Diante da porta de Ryoma, Oda bateu duas vezes e exclamou: 

    — O Rei Chaul está aqui. 

    Com a informação, o mirim se ajeitava no seu lugar, abaixando a cabeça. Rapidamente, o Supremo abriu a porta e passou por Oda. O mirim encarava somente o chão, quando sentiu uma mão no seu ombro e outra erguendo sua cabeça pelo queixo.

    — Você vem comigo — disse Ryoma antes de se voltar para os outros — E vocês ficam aqui. É uma ordem! 

    As mãos do menino começaram suar. Seus joelhos amoleceram e seus olhos cresceram, mas ele continuou seguindo Ryoma até o tapete vermelho.

    “Então… Onochi não foi encontrado”, pensou, quando abriram a porta da saída. 

    Diante do Rei, o jovem e o Supremo fizeram o mesmo gesto de Oda. 

    — Os Shiro não foram encontrados, Supremo — cruzou os braços, reparando em algo se movendo por trás das janelas — Vamos direto ao ponto. Qual o seu plano, Ryoma?

    — Meia hora atrás minha solução não seria diferente das outras. Não podemos enfrentá-los sem os Shiro — pegou nos ombros de Yanaho — mas eu tenho um último recurso. 

    — Esse mirim? — o Rei encarou Yanaho, que engoliu seco.

    — Seu nome é Yanaho, é um aluno de Onochi. Mais do que só algumas técnicas, ele desenvolveu a própria energia Shiro. E por isso, é a figura mais próxima dos Shiro de todo nosso exército. Ele é a nossa alternativa.

    — É-é um prazer — disse Yanaho, se curvando novamente.

    — Está me dizendo que Onochi treinou esse mirim, desenvolveu a energia Shiro dentro dele a ponto de imunizá-lo contra os Kuro e guardou segredo? 

    — Sim! — respondeu Yanaho, se levantando — Q-Quer dizer, sim, eu sou imune ao poder ocular dos Kuro. Mas, mas, Onochi nunca me pediu segredo. Até porque se fosse o caso eu…

    — Não teria contado? — questionou Chaul, inclinando a cabeça.

    Suspirando profundamente após a resposta, o Rei correspondeu abrindo a porta da carroça dizendo:

    — Tenho pressa. Entrem. 

    Na medida em que os cavalos se apressaram em direção aos limites da capital Kagutsuchi, Yanaho estava isolado no banco do passageiro enquanto o Rei e o Supremo se colocavam lado a lado, junto ao cocheiro. 

    — Em todos esses anos, um mirim era a última coisa que esperava enviar em uma situação dessa — provocou o Rei. 

    — Nem sempre trabalhamos nas melhores condições — encarava um símbolo marcado em seu pulso — Não arriscamos nossas melhores opções num terreno desconhecido. O rapaz pode quebrar essa escuridão de dúvida, nos mostrar um meio de contornar isso.

    — Nunca passou pela sua cabeça que fosse melhor enviar aquelas armas desprovidas de vida.

    — Mesmo que eles obtivessem sucesso, o que duvido, teríamos que recolher o lixo depois. Sem falar na quantidade de baixas civis que teríamos que suportar. Além de tudo, o garoto se voluntariou. Mesmo que Onochi não tenha pedido segredo a ele, isso servirá de exemplo para os dois. Tudo isso poderia ter sido evitado se não tivessem se omitido. 

    — Eu gosto de pensar que quanto mais o problema estiver em nossas mãos, menos seremos surpreendidos — disse Chaul cerrando o punho.

    — Por isso Kusonoki está lá — disse Ryoma cruzando os braços — Além do benefício estratégico, precisamos nos certificar de que Osíris não faça algo do qual todos vão se arrepender.

    Ouvindo pedaços da conversa pela madeira abafada da carruagem, Yanaho esfregava as mãos umas nas outras, suando frio.

    “O que eu fiz? Isso não é uma simulação ou uma prova com os amigos. Os Kuro numa batalha…” levou a mão ao peito. “É muito, muito… grande?”, a memória trazia uma lembrança.

    De repente a carroça parou. Uma brisa passava pela extensa estrada, carregando as folhas vermelhas que repousavam sobre o trajeto, ocupado por nove interceptadores. O líder deles deu três passos à frente, gesticulando para os condutores descerem.

    — Deixe isso comigo, majestade — disse Ryoma, desceu do transporte, indo até Oda — Ordenei que esperassem. 

    — E levar esse garoto? Sem teatro, Ryoma, estamos partindo para resolver isso logo. Não vou sair pelas suas costas como fez comigo. Tenha um pouco de dignidade e mande esse rapaz de volta para o internato de onde ele não devia ter saído.

    — Você que deveria ter ficado. Pelo menos uma vez, não perturbe o que já está sob controle — colocou a mão no ombro do principal — Confie em mim.

    — Eu já ouvi essa antes — Oda tirou o braço de Ryoma — Que confiança eu devia ter de uma decisão de você?

    — Fui eu quem decidi — gritou Chaul, vindo de trás — Você não vai, Principal Oda! 

    — Ah é claro, o Rei concordou em enviar uma criança para morrer — apontou para o veículo — Quanta nobreza nos poupar da nossa mera obrigação, majestade.

    — O sacrifício está na natureza do Senshi. Lutamos por isso. Não pela glória ou por exibição, mas pelos nossos — afastou seu subordinado, olhando Oda de cima para baixo — Devemos conhecer o problema primeiro antes de subestimar o inimigo e perder um subordinado valioso por arrogância. Disso você entende, estou certo, Principal Oda?

    Com a aproximação do rei, todos os principais se ajoelharam. Notando isso, Oda, sendo o único que permaneceu de pé, ficou em silêncio. 

    — Um líder devia ser exemplo para seus subordinados — terminou Chaul, virando de costas — Em vez de uma vergonha para eles. 

    — Que seja, não esperem contar com a vergonha quando tudo der errado — disse sinalizando a equipe para abrir caminho.

    — Vocês não estão descartados — dizia Ryoma, mas os Principais continuaram silenciados — Esperem as próximas ordens na base.

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